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4. BULGULAR

4.6. Familya: GNAPHOSIDAE

4.7.2. Cins: Steatoda Sundevall, 1833

4.7.2.1. Steatoda paykulliana (Walckenaer,1806)

A análise do tratamento do capital estrangeiro em nosso ordenamento jurídico, segundo a nossa proposta dissertativa, passa necessariamente pela abordagem dos fundamentos da ordem econômica brasileira. Como vimos nos capítulos anteriores, ao longo dos anos o tema do capital estrangeiro tem sido recorrentemente um componente fundamental do intervencionismo estatal na economia e, portanto, imprescindível é a análise dos fundamentos do ambiente econômico brasileiro, no qual está inserido.

Essa idéia pode parecer óbvia, porém, como vimos acima, os debates em torno do tema raramente se ajustam a esse prisma.

Os fundamentos essenciais da ordem econômica brasileira são apresentados no art. nº 170, caput, da CF/88, quais sejam: a valorização do trabalho humano e a livre iniciativa.

Analisando o referido dispositivo constitucional, Tércio Sampaio Ferraz Júnior aponta para o reconhecimento de verdadeiras bases, “aquilo sobre o que ela [ordem econômica] se

constrói, ao mesmo tempo sua conditio per quam e conditio sine qua non, os fatores sem os

quais a ordem reconhecida deixa de sê-lo, passa a ser outra, diferente, constitucionalmente inaceitável”.154

Embora não receba tantos holofotes quanto a livre iniciativa, a valorização do trabalho humano é o primeiro fundamento, correspondendo ao próprio direito ao trabalho. Reconhece- se na força de trabalho inerente a todo homem, uma fonte de riqueza que, independentemente de sua origem ou classe social, lhe propicia a subsistência e das pessoas por quem é responsável.

Nos dizeres de Fabiano Del Masso, a ordem econômica constitucional impõe ao Estado a obrigação imediata de criação de possibilidades de trabalho, pois é assim que o valoriza. Neste sentido,

154FERRAZ JÚNIOR, Tércio Sampaio. Interpretação e estudo da Constituição de 1988. São Paulo: Atlas, 1990.

[...] a criação de condições específicas de proteção ao trabalhador deve vir apenas após a garantia da empregabilidade, o que envolve a possibilidade de estudo, de desenvolvimento cultural etc. A valorização do trabalho humano extrapola, dessa maneira, o simples e ineficiente amparo ao empregado desqualificado que foi excluído pelo próprio Estado das possibilidades de trabalhar. Daí a expressão utilizada pelo legislador constitucional “fundamento”, ou seja, a base da atividade econômica.155

Note-se que o trabalho humano é valorizado porque é através dele que se garante a todos a plena possibilidade de integração e evolução social, edificando-se assim o próprio conceito de cidadania. Por isso, falar em valorização do trabalho é reconhecer cidadania na ordem econômica.

A propósito, afirma Eros Roberto Grau:156

Daí porque o art. 1º, IV do texto constitucional – de um lado – enuncia como fundamento da República Federativa do Brasil o valor social e não as virtualidades individuais da livre iniciativa e – de outro – o seu art. 170, caput, coloca lado a lado

trabalho humano e livre iniciativa, curando contudo no sentido de que o primeiro seja valorizado.

A valorização é aqui considerada como o aumento do valor do trabalho humano, onde a sua supressão ou a sua extirpação não tem vez, o que infelizmente não tem ocorrido nos países apoiados em uma economia liberal de mercado. Nestes países, o foco central está no capital, unicamente, podendo gerar obviamente tais externalidades.

Já no modelo econômico desenhado pela nossa Constituição Federal, as atenções se dividem – ou ao menos deveriam se dividir – entre a valorização do trabalho humano e a livre iniciativa. A matriz econômica constitucional não tem como fim único o capital, mas sim o capital fundado nos seus valores sociais, jamais deixando de lado a valorização do trabalho humano.157

Como afirma Eros Roberto Grau:

Esse tratamento em uma sociedade capitalista moderna, peculiariza-se na medida em que o trabalho passa a receber proteção não meramente filantrópica, porém politicamente racional. Titulares de capital e de trabalho são movidos por interesses distintos, ainda que se o negue ou se pretenda enunciá-los como convergentes. Daí porque o capitalismo moderno, renovado, pretende a conciliação e composição entre ambos.158

155MASSO, Fabiano Del. Direito Econômico. Rio de Janeiro: Elsevier, 2007. p. 43-44.

156GRAU, Eros Roberto. A ordem econômica na Constituição de 1988. São Paulo: Malheiros, 2003. p. 186. 157A valorização do trabalho humano é objeto ainda do art. 1º, inc. IV da CF/88, ao enunciar os valores sociais

do trabalho como princípio fundamental da República; e do art. 3º, inc II da CF/88, enquanto resultado do objetivo esperado de desenvolvimento nacional.

O segundo fundamento da ordem econômica é a livre iniciativa, como já referimos. Utilizando-se a definição de Fernando Herren Aguillar, a livre iniciativa corresponde ao “resguardo jurídico ao agente econômico de empreender o que desejar sem interferência

estatal. Corresponde, na esfera econômica, à proteção jurídica dispensada ao cidadão, no âmbito jurídico”.159

Convém aqui transcrever a interessante consideração de Fabiano Del Masso a respeito da livre iniciativa:160

A livre iniciativa garante a liberdade de empreender, o que não induz a possibilidade de empreender. A simples garantia de liberdade de iniciativa não é suficiente para o estímulo à atividade produtiva. Outros fatores como infra-estrutura do sistema de transportes, do sistema tributário, do sistema registrário da atividade empresária, da política de concessão de crédito, entre outros, são os responsáveis para o empreendedorismo.

Na linha da Revolução Francesa, a liberdade que se pretendia àquela época, consagrada no laissez-faire, era de fato a não-intervenção do Estado na atividade econômica, tendo como princípio fundamental a autonomia da vontade, fincada no pacta sunt servanda.

Porém, atualmente a livre iniciativa não mais pode ser admitida nos mesmos termos em que a admitia no Estado liberal do século XVIII, como observa Afonso Insuela Pereira:

Enquanto neste [Estado liberal do século XVIII] ela se constituía em um direito absoluto, hoje deve ser entendida como um direito relativo que, embora constitucionalmente assegurado, visando à elevação da pessoa humana, deve ficar contido dentro de limites que visam, acima de tudo, aos interesses coletivos.161 Todavia, essa relativização deve ser entendida dentro de um conceito de enquadramento ou conciliação, como já referido pelo Supremo Tribunal Federal, pois não se trata de deturpar a livre iniciativa para que se mantenha um Estado autoritário, mas sim freá-la

159AGUILLAR, Fernando Herren. Direito Econômico: do direito nacional ao direito supranacional. São Paulo:

Atlas, 2006. p. 227.

160MASSO, Fabiano Del. Direito Econômico. Rio de Janeiro: Elsevier, 2007. p. 44.

161 PEREIRA, Afonso Insuela. O Direito Econômico na ordem jurídica. São Paulo: José Bushatsky, 1974. p.

162. No mesmo sentido: “Vale lembrar que os Estados socioliberais, como o nosso, conquanto reconheçam e

assegurem a propriedade privada e a livre empresa, condicionam o uso dessa mesma propriedade e o exercício das atividades econômicas voltadas ao bem-estar social. Portanto, há limites para o uso e gozo dos bens e riquezas particulares e, quando o interesse público o exige, intervém na propriedade privada e na ordem econômica, através de atos de império tendentes a satisfazer as exigências coletivas e reprimir a conduta anti-social da iniciativa particular.” (SILVA, Américo Luís Martins da. A ordem constitucional

na busca dos fins estampados na própria CF/88, notadamente o inc. IV, do art. 1º e o art. nº 170.162

De qualquer forma, o legislador constitucional ao elencar a livre iniciativa como base, reconheceu na liberdade um dos fatores estruturais da ordem econômica, como observa Tércio Sampaio Ferraz Júnior. Trata-se de

[...] afirmar a autonomia empreendedora do homem na conformação da atividade econômica, aceitando sua intrínseca contingência e fragilidade; é preferir, assim, uma ordem aberta ao fracasso a uma “estabilidade” supostamente certa e eficiente. Afirma-se, pois, que a estrutura da ordem está centrada na atividade das pessoas e dos grupos e não na atividade do Estado. Isto não significa, porém, uma ordem do

laissez-faire, posto que a livre iniciativa se conjuga com a valorização do trabalho humano. Mas a liberdade, como fundamento, pertence a ambos. Na iniciativa, em termos de liberdade negativa, da ausência de impedimentos e da expansão da própria criatividade. Na valorização do trabalho humano, em termos de liberdade positiva, de participação sem alienações na construção da riqueza econômica.163

Uma vez interferindo na valorização do trabalho humano, pode a livre iniciativa sofrer limitações. Na verdade, por força do mandamento constitucional, há que se buscar sempre a compatibilização da valorização do trabalho humano e da livre iniciativa.

Nas palavras de Américo Luis Martins da Silva,

[...] a Constituição consagra precisamente uma economia de mercado, de natureza capitalista, pois a “iniciativa privada” é um princípio básico do sistema capitalista. Por outro lado, a Constituição declara que, embora adote o sistema capitalista, a ordem econômica deve dar prioridade aos valores do trabalho humano sobre todos os demais valores da economia de mercado. Portanto, a liberdade econômica não é absoluta. Ela só é garantida até onde a valorização do trabalho humano não exija que seja restringida.164

162Confira-se a seguir, a ementa de decisão proferida pelo Supremo Tribunal Federal, tendo como objeto a

relativização do princípio da livre iniciativa: “Em face da atual Constituição, para conciliar o fundamento da

livre iniciativa e do princípio da livre concorrência com os da defesa do consumidor e da redução das desigualdades sociais, em conformidade com os ditames da justiça social, pode o Estado, por via legislativa, regular a política de preços de bens e de serviços, abusivo que é o poder econômico que visa ao aumento arbitrário dos lucros.” (ADI 319-QO, Rel. Min. Moreira Alves, DJ 30/04/93).

163FERRAZ JÚNIOR, Tércio Sampaio. Interpretação e estudo da Constituição de 1988. São Paulo: Atlas, 1990.

p. 22-23.

164SILVA, Américo Luís Martins da. A ordem constitucional econômica. Rio de Janeiro: Forense, 2003. p. 55.

No mesmo sentido: “Assumindo o princípio da ‘autonomia’, um jurista liberal e tradicional excluiria de seu

trabalho interpretativo os elementos ‘socializantes’. Do mesmo modo, o jurista socialista procederia em face dos elementos liberais. No entanto, a realidade constitucional incorporou os dois ‘princípios’, anulando a idéia de ‘conflito’ entre os mesmos.” (SOUZA, Washington Peluso Albino de. Primeiras linhas de Direito

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