• Sonuç bulunamadı

O desenrolar desta pesquisa aconteceu inicialmente no CUCA, localizado no bairro Barra do Ceará. Após a pesquisa exploratória e os primeiros contatos com as jovens do grupo de funk, o espaço da pesquisa tomou outro rumo, outras dimensões. Passei a acompanhar as jovens em outros espaços, além dos ensaios e das apresentações no CUCA. Realizamos algumas andanças pelo bairro, visitamos as famílias e fomos algumas vezes a uma lanchonete próxima à casa da maioria delas para lanchar e conversar.

Desse modo, a pesquisa ocorreu tanto no CUCA Che Guevara quanto no bairro Barra do Ceará, onde as jovens moram. A Barra do Ceará está localizada no extremo oeste de Fortaleza, faz parte da Secretaria Executiva Regional (SER) I. É o bairro mais antigo de

Fortaleza e o segundo maior bairro da cidade, com uma população de 81.104 habitantes. É considerado o berço histórico do Ceará por ter sido o local onde o Capitão-mor Pero Coelho iniciou a colonização do território construindo o Fortim de São Tiago, no ano de 1604. Atualmente, existe um morro que leva o mesmo nome do Forte construído em 1604, Morro São Tiago, comandado por um dos grupos criminosos do bairro. Em uma das minhas idas para o CUCA, passei em frente ao morro. Fiquei surpresa, pois não sabia da existência de morros em Fortaleza. Nas visitas ao bairro, descobri que as jovens moram ao lado do morro.

A Regional I, onde o bairro fica localizado, tem 50% da população com menos de 28 anos, sendo, desse modo, a Regional de Fortaleza com maior número de jovens, segundo o “Mapa da Criminalidade e da Violência de Fortaleza”, publicado em 2011 pelos Laboratórios de Direitos Humanos, Cidadania e Ética (LABVIDA) e de Estudos da Conflitualidade e Violência (COVIO), ambos da Universidade Estadual do Ceará, e pelo Laboratório de Estudos da Violência (LEV), da Universidade Federal do Ceará. Segundo os dados desse Mapa, dos 15 bairros que compõem a Regional I, a Barra do Ceará destacou-se em relação aos demais por registrar o maior número das cinco ocorrências criminais analisadas pelo estudo: relações conflituosas, furtos, roubos, mortes violentas e lesão corporal.

Com bastante frequência, a Barra do Ceará é destacada nos noticiários locais pelos casos de violência. São frequentes as mortes de jovens em conflitos entre os grupos envolvidos com drogas ou entre a polícia e os jovens envolvidos com o crime.

Para Novaes (2006), o narcotráfico tem grande interferência na vida dos jovens hoje. Independentemente de consumir ou não, distribuir ou não drogas ilícitas, por fazerem parte dessa geração, convivem com os efeitos desse “grande negócio lucrativo” e com as consequências das políticas de proibição que produzem efeitos perversos nas áreas pobres das cidades e com a corrupção policial. Essas características do mundo atual interferem na vida e nas identidades dos jovens da periferia.

Além de ser destaque no que se refere à violência, a Barra do Ceará é um dos bairros mais pobres da capital, com menor renda média da população (R$ 398,61), segundo o Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará. É o quarto bairro de Fortaleza com maior número de famílias com renda mensal inferior a R$ 70,00 per capita. O Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS) considera que famílias com renda mensal inferior a R$ 70,00 por pessoa vivem em extrema pobreza.

Para a maioria da juventude brasileira que vive nas grandes cidades, há ainda um outro critério de diferenciação: o local de moradia. O endereço faz diferença: abona ou desabona, amplia ou restringe acessos. Para as gerações passadas esse critério

poderia ser apenas uma expressão da estratificação social, um indicador de renda ou de pertencimento de classe. Hoje, certos endereços também trazem consigo o estigma das áreas urbanas subjugadas pela violência e a corrupção dos traficantes e da polícia — chamadas de favelas, subúrbios, vilas, periferias, morros, conjuntos habitacionais, comunidades. Ao preconceito e à discriminação de classe, gênero e cor, adicionam-se o preconceito e a discriminação por endereço (NOVAES, 2006, p. 105).

Ao falarem sobre o tratamento com preconceito recebido pelos demais grupos que participam do projeto “Comunidade em Pauta”, as jovens do funk o atribuem ao fato de morarem na Barra do Ceará, ou seja, na periferia. “Porque eles dizem que a Barra é um canto perigoso, né? Perigoso, todo canto é, só que na Barra é mais falado, aí eles a cham a ssim: deve ser da favela. É melhor a gente nem conversar pra não ter a ssunto de nada, acho que é por causa disso” (Entrevista Renatinha, 16 anos).

O local de moradia, a forma como se vestem, o estilo de música que dançam são fatores que contribuem para que os/as jovens dos outros grupos não queiram muita proximidade com as jovens. Elas relataram ocasiões em que outros grupos de dança se recusaram a dividir o camarim do CUCA com elas e em que foram chamadas de “faveladas” por outros jovens.

Assim oh!, eu acho que a pessoa não tem preconceito contra o funk, mas, sim, quem dança ele. Como assim? Eu posso te dizer, ninguém aqui do CUCA gosta da gente. Quando eu olhei, não deve ser só porque a gente dança funk, vamo mostrar o que a gente é no dia a dia, mesmo assim eles continuaram não gostando da gente. Não é porque a gente dança funk, porque eu já vi muitas vezes eles fazendo alguma coisa de funk, e sim quem dança ele. Eles não vão com a nossa cara, então, eles não gostam da gente (Entrevista Renatinha, 16 anos).

O conceito de estigma de Goffman (1988) ajuda-nos a compreender como o lugar de moradia pode ser uma característica que interfere na forma como os/as jovens da periferia são percebidos/as pela sociedade e nas relações com as pessoas que estão fora do seu espaço de convivência cotidiana. No caso das jovens funkeiras, somam-se ao estigma da moradia, outras variáveis, como cor, estilo, idade e sexo. “O termo estigma, portanto, será usado em referência a um atributo profundamente depreciativo, mas o que é preciso, na realidade, é uma linguagem de relações, e não de atributos” (GOFFMAN, 1988, p. 6).

Na busca por compreender as expressões culturais das jovens funkeiras da Barra do Ceará, não pude deixar de considerar as enormes disparidades socioculturais, assim como o alto índice de violência existentes no contexto onde essas jovens vêm se construindo como sujeitos. Como afirma Dayrell (2001), o processo de construção das culturas juvenis precisa

ser compreendido levando-se em consideração o contexto da origem social e as condições concretas de vida nas quais os jovens estão sendo socializados.

Havia realizado, durante a pesquisa exploratória, uma coleta de dados sobre a Barra do Ceará, buscando uma aproximação com o campo, o que me deixou a par da situação daquele bairro. No entanto, saber através de noticiário, de mapas da violência e dos jornais que a Barra do Ceará é um bairro violento não impediu que eu me surpreendesse com o que encontrei naquele lugar. Como diz Belchior em sua canção, “A vida realmente é diferente, quer dizer, ao vivo é muito pior”.

Embora a violência não fosse uma categoria presente no meu trabalho, esta esteve muito próxima durante todo o trabalho de campo. Durante a pesquisa, alguns jovens foram assassinados na Barra do Ceará. Um deles era “ficante” de uma das integrantes do grupo. A violência esteve muito presente na fala das jovens, confirmando o que estava posto nos noticiários e no Mapa da Violência.

K: Eu gosto quando ele não tá muito movimentado, assim, porque quando tá muito movimentado acontece muita coisa, acontece morte, briga, não gosto muito, não. Já essa semana, mataram um rapaz ali, eu nem, não gosto nem de ver, sei lá, eu fico muito triste... Eu gosto quando tá tudo calmo, as pessoas ficam nas suas casas, conversando na calçada, outras ficam escutando música, ficam bebendo lá, mas fica tudo calmo. Mas, tem outros que, principalmente no fim de semana, eles ficam discutindo, rola bala.

L: Como é quando o bairro fica movimentado?

K: É que assim, “os caba” vem de outro bairro que não se bate com as áreas daqui,

aí eles ficam passando pra ver, só filmando, aí se vê uma pessoa assim, uma pessoa

que eles não gosta, que não “se bate”, eles vêm e matam, porque tava dando bobeira,

eles acham... Por isso que eu não gosto. A minha mãe não gosta de deixar nós até

tarde no meio da rua por causa disso, porque vem o “Gueto”, vem o “Polo”2 , aí ficam passando, passam avoado, pode bater, atropelar criança. Já uma vez um

homem que mora lá no “gueto”, ele quase pegava minha irmã no carro, porque não

tinha quebra-mola, aí quase ele pegava, faltou pouco pra não pegar nela, o carro. E já era de outro canto, vinha em alta velocidade. Se tivesse pegado nela, a bichinha tinha se quebrado todinha, que é bem magrinha (Entrevista Katyn, 01/11/2013).

O relato de Katyn apresenta a difícil realidade vivenciada por ela e pelos/as jovens que vivem nas periferias. Com bastante frequência, apareciam nas falas das jovens suas experiências com situações de violência no bairro onde moram. Durante a pesquisa, deparei- me com uma realidade difícil de ser encarada. Muitas vezes não sabia como reagir diante dos relatos das jovens, que me falam de forma tão natural sobre a sua realidade. Falavam com naturalidade da violência porque convivem com ela diariamente e acabam por naturalizá-la.

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Todas as integrantes do grupo já tiveram alguém próximo assassinado, seja por envolvimento com drogas ou, segundo elas, porque foram “confundidos”. “Porque a Ka rol tinha perdido o irmão dela, eu tinha perdido meu namorado. Isso aí” (Thayssa, 14 anos). “Meu irmão morreu num dia, quando passou 15 dias, mataram meu ma rido” (Karol, 16 anos). “Eu conheci ele também na praia, foi no tempo que a Karol ainda tava namorando com um amigo dele, aí eu conheci ele e fiquei com ele, aí eu já dançava funk, aí ele foi e... eu não quis mais namora r com ninguém, porque depois que ele morreu, eu fiquei meio assim” (Renatinha, 16 anos).

O envolvimento dos irmãos, primos e namorados com a venda e o uso de drogas coloca em risco não só a vida deles que são envolvidos diretamente, mas também de toda a família e também das namoradas, que podem ser as vítimas na hora de um acerto de contas.

As vezes que nos encontramos na lanchonete do bairro foram onde elas mais me falaram de aspectos bastante íntimos, fatos que eu não imaginava que conseguisse ouvir delas com tanta facilidade, como, por exemplo, sobre o envolvimento dos namorados com o crime.

Perguntei se os namorados delas trabalham. Renatinha respondeu: “Trabalham. Todos têm trabalho digno”. Perguntei pra ela: “o que tu chama de trabalho digno?”

Ela: “trabalho digno... de ser preso” (Diário de campo, 01/09/2013).

Karol falou que o namorado dela é distribuidor de drogas. Fiquei com a impressão de que ele compra as coisas para ela e dá dinheiro. Ela usa aparelho odontológico, lentes de contato e uns óculos escuros da moda e ela comentou com uma das jovens que ia ganhar só 50 reais no dia seguinte. Perguntei se ela não tinha receio de namorar um rapaz envolvido com drogas. Ela disse que não porque estava tentando fazer com que ele saísse dessa vida (Diário de campo, 01/09/2013).

Na entrevista com Thayssa (14 anos), ela fala sobre o envolvimento do namorado com o crime: “O Renato é muito vagabundo, muito bandido. [...] É chefe lá no Jardim Guanabara”.

Algumas vezes, depois de encontrar as jovens no bairro, saía de lá perturbada com o que ouvia sobre os casos de violência, muitos deles cometidos de forma brutal. Chegava em casa e não conseguia escrever no meu diário de campo de tão chocada que eu ficava com aquelas informações. As jovens presenciavam muitos casos de violência e muitas vezes as vítimas eram pessoas próximas.

Elas falam dos casos de violência com bastante naturalidade. Eu fico aterrorizada ouvindo-as contar os casos que acontecem por lá. Os traficantes, quando pegam alguém do outro grupo, amarram no poste e batem até que a pessoa morra. Outras vezes enterram o inimigo de cabeça para baixo. Colocam cabos de vassouras nas partes íntimas, dentre outras atrocidades. Elas disseram já ter presenciado esses

casos e que conhecem todos os traficantes. Contaram-me que os traficantes não gostam que aconteçam assaltos dentro do bairro para não ter movimento de polícia por lá (Diário de campo, 01/09/2013).

Mesmo com as dificuldades com as quais convivem no bairro, as jovens relataram gostar do lugar onde vivem. Como mostram os trechos das entrevistas, um dos aspectos considerados importantes por elas é a relação de proximidade existente entre os moradores do bairro, ressaltando sempre a violência como um aspecto negativo.

Gosto porque tem muita gente pra brincar, eu fico conversando com minhas amigas, a Renatinha mora na minha rua, né? Aí eu fico conversando com ela, nós vamos passear, nós vem pro CUCA de noite. É por isso que eu gosto de lá (Rafaela, 12 anos).

Tem nada não que eu num goste, não. Só num gosto das balas que tem lá direto. Perigoso! (Thayssa, 14 anos).

Eu não gosto da violência. Eu gosto porque eu já conheço todo mundo, todo mundo fala com todo mundo, assim, quem conhece, e quando é novato a gente tenta fazer amizade (Renatinha, 16 anos).

Figura 2 – Mapa da Barra do Ceará, destacando o local onde as jovens moram e o CUCA Che Guevara

A Barra do Ceará é também um bairro com muitas belezas naturais, o que é ressaltado pelas jovens como um aspecto que contribui para que elas gostem do lugar onde vivem. O local onde as jovens moram é rodeado de um lado pela praia e do outro pelo Rio Ceará. Elas estão sempre na praia e no rio e apontam esses locais como as principais opções de lazer. A sociabilidade, o lazer, as amizades, os lugares, as relações são os aspectos que compõem a vida na favela, conferindo-lhe sentido e perpassando os modos de vida dos/as jovens.

O conceito de favela aqui utilizado vai além do sentido geográfico e está de acordo com o que propõe Novaes (2006, p. 116): “trata-se da nomeação de uma identidade construída nos últimos anos e que tem efeito nos estilos, estéticas, vínculos sociais e laços afetivos das trajetórias de uma parcela dos jovens de hoje”.

Embora os/as jovens da favela estejam submetidos a processos de estigmatização e etiquetagem, esses/as “produzem estratégias criativas para a vivência de suas sociabilidades e identidades culturais juvenis, processam aprendizagens para além da escola, estabelecendo um diálogo silencioso com as aprendizagens formais” (STECANELA, 2008, p. 28).

Inseridas nesse contexto de violência e de pobreza, estão as jovens interlocutoras desta pesquisa, que encontraram na dança e no grupo uma maneira de se expressarem e de ressignificarem os espaços da favela, diante de todas as dificuldades com as quais convivem. “O espaço urbano torna-se lugar de produção e circulação de saberes e é reinventado pelos jovens da periferia através de suas práticas culturais, prioritariamente exercitadas na ocupação de seus tempos livres” (STECANELA, 2008, p. 28).