Barrela foi a primeira peça teatral de Plínio Marcos e, segundo o autor, foi inspirada
no caso real de um garoto de classe média que tinha sido preso e estuprado na cadeia. Nas
314 MARCOS, Plínio. Querô: uma reportagem maldita. São Paulo: Global, 1976.
315 Literatura. Plínio Marcos – site oficial. Disponível em: <http://www.pliniomarcos.com/dados/literatura.htm>
José Ismar Petrola ●Jornalistas e Dramaturgos
palavras de Oswaldo Mendes, Plínio “Escreveu Barrela porque precisava por pra fora a dor e a indignação provocadas pela história do garoto barrelado. Escreveu Barrela do jeito que sabia, na linguagem que dominava, sem nenhum policiamento, sem se preocupar com os erros de português, nem com as palavras” 316. Não utilizou o português das peças de circo-teatro,
geralmente de procedência luso-brasileira, mas a linguagem dos marginais, que conhecia da vivência com a “gente da pesada” do cais de Santos. Chegou a apresentar o texto da peça a colegas de circo – mas o tema e a linguagem, pesadíssimos, mostravam-se um impeditivo para encenar a peça. Ninguém arriscaria investir num espetáculo com tantas chances de ser censurado.
Uma das primeiras personalidades a apoiar a peça de Plínio foi Patrícia Galvão, a Pagu, que na época vivia em Santos e tinha contato com o autor. Apresentada a Barrela, considerou o diálogo violentíssimo e “melhor que o de Nelson Rodrigues”, o que serviu de incentivo ao jovem dramaturgo. Paschoal Carlos Magno também elogiou o texto. A peça foi escolhida para ser encenada num grupo de teatro amador organizado por estudantes da classe média, ligados à Aliança Estudantil – todos secundaristas, com cerca de 17 anos, alunos de colégios de elite de Santos. O papel do Garoto foi representado por Edemar Cid Ferreira, que ganhou o prêmio de melhor ator no festival. Plínio Marcos, além de dirigir a própria peça, fez o papel do Louco.
A peça estreou em 1º de novembro de 1959, com direção de Plínio Marcos, no Centro Português de Santos, durante o II Festival Nacional de Teatro de Estudantes317. Esta participação no festival, um dos maiores eventos teatrais do país na época, rendeu a Plínio menções honrosas nas categorias Espetáculo e Direção318. A peça foi representada por um grupo de jovens estudantes da Aliança Estudantil. O papel do Garoto foi representado por Edemar Cid Ferreira, que ganhou o prêmio de melhor ator no festival. Plínio Marcos, além de dirigir a própria peça, também fez o papel do Louco. A apresentação, porém, foi única, pois houve grande tumulto na ocasião e a peça permaneceu proibida (a censura tinha autorizado apenas a estreia)319.
Barrela só voltou a ser liberada em 1980 – embora haja relatos de encenações clandestinas, como aponta uma crítica de Yan Michalski escrita em 1969. Plínio Marcos escreveu várias versões do texto, das quais somente a de 1976 foi publicada em livro. Apesar
316 MENDES, Oswaldo. Bendito maldito: uma biografia de Plínio Marcos. São Paulo: Leya, 2009, p.80.
317 Em 1959, o II Festival de Teatro Amador de Santos, organizado por Pagu e Paschoal Carlos Magno, foi
vinculado ao II Festival Nacional de Teatro de Estudantes, sendo os dois realizados na mesma cidade.
318 MEMÓRIA DO Festa. Disponível em: <http://www.festivalsantista.com.br/ofestival.html.> Acesso em 17
jun. 2013.
José Ismar Petrola ●Jornalistas e Dramaturgos
de ter sido encenada em 1959 em Santos, a peça não se encontra no Arquivo Miroel Silveira, o que pode ser um indício de que o processo se extraviou, ou de que a peça não passou pelo processo ordinário da censura prévia estadual.
A narrativa de Barrela é ambientada numa cadeia, onde seis detentos dividem a mesma cela. Um dos presos, Portuga, acorda gritando no meio da noite, assombrado por pesadelos, e desperta os companheiros de cela, que, enfurecidos, ameaçam estuprá-lo, o que só não ocorre por que Bereco, como líder dos presos, intervém na situação.
Portuga conta para todos que um dos colegas, Tirica, já teve relações sexuais com outro preso quando estava no reformatório. Novamente, há uma ameaça de estupro, desta vez, contra Tirica, ato novamente impedido por Bereco. Outras situações de briga semelhantes se seguem, motivadas por agressões verbais ou pela disputa por drogas, até que a chegada de uma nova personagem muda a história. O Garoto, um rapaz de classe média, de vinte e poucos anos, preso provavelmente por uma briga, é preso e levado para a mesma cela.
Assim que o rapaz entra na cela, é extorquido por Bereco. Porém, este, como “xerife” da cela, ou seja, um chefe informal dos presos, toma a atitude de proteger o garoto. Quando os companheiros de cela propõem estuprar o Garoto, Bereco tenta impedir. Porém, os presos ameaçam se rebelar contra o líder, que, no final, vê-se obrigado a colaborar com o ato. O Garoto é obrigado a fumar maconha e cercado por todos os presos, que começam a “curra” – e no final até Bereco ajuda, mesmo sem participar diretamente. Traumatizado após a agressão, o Garoto chora em um canto, enquanto, sob forte tensão, em outra briga, Tirica mata Portuga com uma colher afiada. Os guardas intervêm e o Garoto é solto. Termina a peça.
As descrições de cenário e figurino são sucintas, destacando os aspectos que apontam para o conflito – por exemplo, a descrição do Garoto, caracterizado como um rapaz de classe média, contrastando com os companheiros de cela: é ele, por ser um elemento de fora, mais frágil do que os outros, quem sofre a violência da “barrela”. Os diálogos são escritos numa linguagem própria de classes marginalizadas, considerada chula e ultrajante para os padrões morais da época.