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Na medida em que foge à etiqueta da produção intelectual psicanalítica, abandonando as apresentações filiais no estabelecimento do texto, Winnicott põe em questão justamente o lugar da influência na criação em psicanálise; é esse o campo que estou mobilizando aqui, de forma um tanto tateante e intuitiva, pelo fato de Winnicott não ter exposto seu pensamento a esse respeito – e este trabalho tem como incumbência, portanto, articular seu pensamento teórico, estabelecido em torno de outros objetos, a essa dimensão “atuante”, mas não teorizada explicitamente.

O posicionamento de Winnicott talvez represente uma renovação diante do problema enfrentado pela psicanálise à época – o do excessivo ajustamento e docilidade daqueles autorizados a se denominarem psicanalistas por intermédio da burocracia da instituição:

A auto-seleção cedeu lugar a um minucioso exame dos candidatos. Donde a exclusão daqueles que são suspeitos de alterações mentais, dos excêntricos, dos autodidatas, dos grandes imaginativos; em vantagem daqueles que, bem acomodados e bem preparados, são trabalhadores o bastante para ambicionar maior eficácia profissional (FREUD, Anna apud KUPERMANN, 2008, p. 34).

Winnicott se “autoriza” psicanalista ao cabo de um processo de análise didática, apresentando um trabalho de “prova de fogo” e todo o resto. Ao longo de seu processo, no entanto, afiançar-se-á cada vez mais em uma criatividade marcadamente singular, em detrimento da apresentação ostensiva de suas filiações e referências – autorização singular a que se dedica para que, ao final da vida, empenhe-se em fundar, retrospectivamente, seu trabalho no contexto da tradição psicanalítica.

12 As naturezas da identificação com Freud no caso de Lacan e de Winnicott, no entanto, são muito

distintas, e isso tem consequências que ainda precisam ser mais bem estudadas. Considero, por exemplo, as problematizações levantadas por Conrad Stein sobre a “identificação com Freud” (STEIN, 1988b, p. 42-47), em cujo horizonte o trabalho de Winnicott nos surgiria como algo mais “sadio” do que o de Lacan.

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No geral, quanto à questão da dívida que se imbrica na influência e sobre a qual me detive nesse capítulo, acredito que, no caso de Winnicott, ela se baseia em “um paradoxo essencial, que deve ser aceito e não se destina à solução” (WINNICOTT, [1947] 1975, p. 203). Esse paradoxo se estabelece na dívida absoluta de Winnicott a Freud, reconhecida por ele, e que conviveu perfeitamente com o fato de Winnicott fundar-se em outros campos e autorizar-se de outras maneiras. Temos uma boa apresentação desse paradoxo nas conquistas maiores dos últimos anos de vida de Winnicott: por um lado, a organização de seu último livro, O brincar e a realidade, primeiro trabalho organizado como apresentação sistemática de um pensamento original e fundador (talvez o único lugar em que Winnicott se porta claramente como “fundador de uma tradição”), e que ele dedica a seus pacientes, que “pagaram para me ensinar” (WINNICOTT, [1947] 1975); por outro, a apresentação do busto de Sigmund Freud esculpida por Oscar Nemon e entregue em cerimônia grandiosa e solene em 1970 – Winnicott havia dedicado a energia que tinha e a que não tinha nos anos antecedentes como líder da comissão que conduzia e arrecadava fundos para a homenagem ao mestre na Sociedade (KAHR, 1996).

Winnicott roubava, sim; mas jamais sonegou. Entre o estilo “espontâneo” e o “narcisista”, entre o “fundador de paradigma” e o “renovador do pensamento psicanalítico”, em suma: entre a hagiografia e a recusa, repousa uma obra com um poder perturbador digno de atenção. Talvez uma das afinidades entre o pensamento de Winnicott e o de Nietzsche apontadas por Adam Phillips (PHILLIPS, [1988] 2007, p. x) seja essa suspensão da ética da dívida no seio da instituição psicanalítica. Se a psicanálise sofria, à época, com a docilidade dos candidatos e membros e com a normalização dos pertencimentos, Winnicott propõe um modelo de pensamento em que delega ao pensador, até as últimas consequências, a responsabilidade sobre si; assim como roubava desavergonhadamente, defendia o valor da agressividade, combatia a ideia de pulsão de morte e criticava, sempre que tinha chance, a ortodoxia e a idolatria. Foi necessária a criação de um paradoxo para que fosse possível a alguém roubar alguma coisa e declará-lo, como se roubar fosse um direito conquanto houvesse responsabilização por ele; foi necessário “progredir para trás”, rever o próprio enquadramento da concepção de sujeito na psicanálise, para pôr em novas chaves a relação à dívida e a relação à autonomia.

À época do ápice das angústias de autorização de Winnicott (entre 1935 e 1945, grossamente), a psicanálise se encontrava em franca crise. Na França, a figura de Freud esvanecia ao fundo de uma psicanálise minguante, e foi como um profeta que Lacan veio

propor o “retorno a Freud”; na Inglaterra, a figura de Freud instalava-se ao centro das discórdias, inconteste, e a fratria disputava entre unhas e dentes o direito de falar em nome do líder totêmico, e Winnicott assumiu um lugar muito mais delicado e paradoxal. Temos pela frente o desafio de abordar sem solução de compromisso toda a ambiguidade e complexidade de sua autorização, de sua assunção de influência no contexto britânico, nos termos do que seu processo teve de apaziguamento, de revolução não-violenta, de iconoclastia e – por que não? – de retorno a Freud.

Se os roubos de Winnicott têm uma função defensiva, como são defensivas as angústias de influência no pensamento de Harold Bloom, eles certamente tiveram, por outro lado, um impacto profundo e decisivo, e proponho que nos esforcemos para conciliar a interpretação das defesas da influência sobre Winnicott com os muitos e muito marcantes