Criar é um dos verbos fortes do processo Rastro, pois um dos fatores mais evidenciados pelos alunos foi o poder da criação. Criar sobre as próprias memórias e memórias compartilhadas, transformá-las em cena foi tornar a memória em matéria-prima para a produção artística. Salles (2013, p. 148) afirma que “É a ação do artista sobre sua matéria-prima que gera o andamento da obra, ou seja, o movimento criador”. O ato criacional é uma experiência em que se desempenha uma energia sobre um material para a construção de alguma obra. Salles (2013, p. 41) assevera que:
Muitos artistas descrevem a criação como um percurso do caos ao cosmos. Um acúmulo de ideias, planos e possibilidades que vão sendo selecionados e combinados. As combinações são, por sua vez, testadas e assim opções são feitas e um objeto com a organização própria vai surgindo. O objeto artístico é construído deste anseio por uma forma de organização.
Nessa experiência de organização (ou não) do caos para a criação, o criador (des)ordena os materiais, direcionando ideias e planos para sua obra, em que cada elemento
tem uma função dentro de toda a criação, os quais combinados apontam sentidos dentro do contexto apresentado. Conforme Salles (2013) postula, o objeto artístico surge dessa necessidade de organizar o caos em cosmos, de fazer com que os sentimentos, sensaçõ es, anseios, questões, pulsações, provocações sejam (des)organizados em uma obra. Es sa sensação de sentir-se criador é afirmada por uma aluna que participou do processo, a qual
relatou que: “[...] eu me senti uma deusa, tipo: é muito interessante, pois aqueles momentos que você já viveu você contar e outras pessoas verem isso é um momento mágico. É como se transformassem a nossa imaginação em coisas que a gente pode pegar” (MILENA, 2016, entrevista, 18 de março).
Quando o aluno se percebe na condição de criador, nota-se que ele se entende como ser potente e que, como criador, ele tem autonomia para desenvolver suas percepções artísticas. Existe uma questão latente no contexto da escola onde este trabalho foi desenvolvido, que é a falta de crença em si e uma baixa autoestima muito grande. Os aprendizes não acreditam em si e nem na qualidade do que produzem. Esse aprisionamento dificultou por vezes o desenlace do processo, uma vez que, por medo de serem “ruins”, eles acabavam travando em algumas situações, porém existiu o momento em que eles se descobriram criadores. Cada aluno-criador, ao se perceber criador, manipulava o material para a criação da obra à sua maneira.
Ao ser indagada sobre o que considerava mais interessante para se trabalhar com memórias e teatro, uma aluna respondeu que: “A liberdade que a gente tem de se expressar. Quando nós criamos, nós damos a forma que queremos, é nosso, a gente faz do nosso jeito, a gente deixa a nossa marca” (RENATA, 2016, entrevista, 27 de março). A descoberta da liberdade de criação para o aluno é um divisor de águas, quando eles começam a se perceber na onipotência da criação e visitam diversos territórios, em alguns casos até se perdem para poderem de fato se achar, no sentido de que visitam diversos territórios, os experimentam e são capazes de encontrarem-se a partir das observações feitas no “perdido”. Quando eles percebem que podem modelar seus rastros, eles começam a deixar marcas neles.
Após perceberem-se criadores, os discentes começam a entender o funcionamento da criação e vão tomando conhecimento de como acontece o processo criativo. Eles afirmaram que, como comentou uma das alunas, nesse processo se
[...] desenvolveu a criatividade não só minha, mas de todo o grupo. Era como se a cada encontro a gente fosse melhorando em criar. A cada etapa a gente estava fazendo melhor, é como se a gente estivesse treinando a cada dia e a cada dia tendo melhores resultados. Cada vez mais nossa criatividade aumentava e cada vez mais estávamos preparados. (RENATA, 2016, entrevista, 27 de março).
A cada criação, os alunos percebiam e tomavam conhecimento de como que sua composição funcionava; eles iam analisando praticamente cada uma das etapas que compunham o processo de criação. Por vezes, eles relatavam o quão era divertido para
eles criarem e como eles se sentiam sendo criadores. Afirmavam que “É o mesmo que sentir como uma mãe é, como se aquela peça fosse um filho nosso, pois todo mundo se juntou para formar aquilo” (MILENA, 2016, entrevista, 18 de março). Um dos principais pontos apresentados por eles como estimulante durante o procedimento de criação era perceber que poderiam compartilhar o que estava sendo criado com o público, ou seja, a expectativa de apresentação já estimulava a produção. Era a futura obra agindo durante o processo. Os educandos apontavam que “[...] criar, mostrar meus sentimentos, as coisas que eu percebo, as formas que eu dei a ideia, eu vou estar ali dispondo tudo o que eu já vivi” (MILENA, 2016, entrevista, 18 de março) eram elementos que alimentavam o processo. Salles (2013, p. 89, grifo da autora) fala ainda que “O enorme prazer que acompanha o desenvolvimento artístico poderá ser descrito algum dia como uma
manifestação de energia”. Essa energia podia ser percebida emanando dos olhos dos
alunos quando eles se percebiam criadores.
Inúmeras dificuldades apareceram durante a criação, sendo isso algo comum nos processo criativos, segundo Salles (2013, p. 87-89), quem aponta a dificuldade de se “[...] iniciar uma obra” [... de...] enfrentar o fim da obra [... e de ...] enfrentar bloqueios”. Porém, as dificuldades foram administradas, passando o processo a acontecer de forma firme. Deve ser salientado que, nesse procedimento de montagem, a relação ensino-aprendizagem foi sendo
evidenciada pelas práticas de criação, uma vez que: “Ao pensarmos na montagem de um
espetáculo na escola, pensamos igualmente na aprendizagem proporcionada aos alunos. O fazer teatral facilita o acesso a uma consciência estética, trabalhando, ao mesmo tempo, aspectos poéticos e pedagógicos” (MENDONÇA, 2013, p. 138).
E o fazer teatral, a criação de cena, põe em diálogo esses aspectos poético- -criativos e poético-pedagógicos, fazendo com que o aluno tenha contato com essas duas instâncias dentro da mesma proposta de provocação teatral. Criar mapas pode demandar muito tempo e esforço, mas, após muito trabalho, existirá um elemento bem feito que poderá orientar outras pessoas, além do fato de que o cartógrafo que o criou estará mais experiente nesse exercício, pois, quanto mais se faz teatro, mais se conhecem novos territórios do fazer e mais possibilidades de criação são abertas.