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Na tentativa de compreender o processo histórico nacional Saia pôde contar com uma ampla tradição historiográfica. Com relação à fase anterior da produção historiográfica nacional (e nacionalista), ligada à produção do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, é possível encontrar na Biblioteca Luís Saia uma grande quantidade de obras de Varnhagen, Martius, Capistrano de Abreu e, principalmente, Afonso de E. Taunay e Alfredo Ellis Jr., que dedicaram vários estudos à história bandeirante. Tais obras comparecem na pesquisa de Luís Saia, em geral, como fornecedoras de dados empíricos a confirmar seus argumentos.

É na década de 1930, no entanto, que a historiografia brasileira dará um salto qualitativo no que diz respeito às grandes interpretações da história nacional. Casa-Grande & Senzala (1933) e Sobrados e Mucambos (1936), de Gilberto Freyre, e Raízes do Brasil (1936), de Sérgio Buarque de Holanda, inovaram neste debate trazendo à baila a análise da cultura material e tratando de forma diferenciada problemas como a contribuição da miscigenação para a formação nacional, tema este que já vinha sendo trabalhado, de forma menos consistente, por autores como Sílvio Romero, Euclides da Cunha, Oliveira Vianna e outros.

Essa literatura não escapou a Luís Saia, adquirindo, pelo contrário, importante papel em sua obra. Em nota de rodapé, o arquiteto afirma que

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Essa informação pode ser encontrada em seu currículo profissional elaborado em 1974, que indica que esse artigo foi publicado em 1962 pela Publicação DAFAM, nº 2.

na década de 30, os interessados no estudo dos problemas brasileiros eram presas, quando não de um pretenso universalismo palavroso, do saudosismo aristocratizante dos Oliveira Vianna e do ‘nacionalismo’ de Ricardo Severo. Dois livros, Casa Grande e Senzala e Raízes do Brasil, respectivamente de Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda, contribuíram demais como tábua de salvação.193

Como se não bastasse haver assim “se comprometido”, tendo se mostrado, portanto, também “salvo” por estes dois autores, não é difícil encontrar em sua obra e trajetória elementos que comprovem o contato de Saia com o pensamento de Freyre e Sérgio Buarque de Holanda.194 Com relação ao primeiro, ao menos o artigo sobre “O alpendre nas capelas

brasileiras” indica uma leitura atenta da obra do intelectual pernambucano. Além disso, a refutação de um ponto específico da obra do intelectual pernambucano não significa uma discordância completa em relação ao seu pensamento. No que toca a Sérgio Buarque de Holanda, a proximidade é ainda maior. Esse historiador paulista teve papel importante nas políticas culturais paulistas desse período, envolvendo-se diretamente o Departamento de Cultura ao lado da USP, e, por conseguinte, com Mário de Andrade. Seria, portanto, de se estranhar que as hipóteses do historiador paulista não tivessem sido notadas por Saia.

Com relação aos aspectos que Saia mais aproveitou dessa historiografia “moderna”, é possível destacar ao menos três deles: 1) uma certa noção de processo histórico nacional, 2) a cultura material como fonte privilegiada e 3) a miscigenação como fator explicativo importante para a formação nacional (embora em Raízes do Brasil ela não possua papel tão fundamental quanto em Casa-grande & senzala).

Essa noção de processo histórico nacional não esteve presente somente na obra desses historiadores, mas, de uma forma geral, permeou todo o pensamento modernista nesta sua fase mais nacionalista, sobretudo em função de uma busca por originalidade e destaque entre as demais nações. É possível definir esta noção a partir da identificação de uma “essência” ou “ethos” existente por todo um período da história nacional, no qual teria predominado uma organização rural da sociedade e sobre o qual repousaria a originalidade de nossa civilização. Este período de formação nacional original seria interrompido bruscamente por uma série de valores “importados” em função de uma explosão urbana ocorrida a partir do século XIX. O

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SAIA, Luís. Morada paulista, op. cit., p. 63 (nota 3).

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Muito embora fosse perfeitamente possível ligar a obra de Luís Saia à de Caio Prado Jr. (outro grande intérprete da história nacional) sobretudo pela perspectiva dialética de matriz engelsiana adotada por este último, não pude encontrar maiores dados que indicassem mais uma troca de influências do que uma coincidência de paradigmas, não obstante tenha ficado clara a proximidade do arquiteto em relação à Universidade de São Paulo.

papel de todos estes intelectuais modernistas seria, grosso modo, resgatar essa originalidade e conciliá-la com a modernização do país, única forma de retirá-lo de uma posição subordinada ante as demais nações.

Essa mesma ideia de processo encontra-se presente nas interpretações de Luís Saia, até porque a noção de “formação nacional” adquiriu, naquele período, um certo caráter de irrefutabilidade ante a qualidade dos trabalhos de intérpretes como Freyre e Sérgio Buarque de Holanda. No entanto, a perspectiva dialética conferiu à análise do arquiteto um importante grau de originalidade. O processo evolutivo paulista teria, portanto, suas próprias qualidades e contradições internas e não poderia ser reduzido ao modelo nordestino, embora guardasse com aqueles uma série de conexões ditadas por fatores mais abrangentes. São Paulo não conheceria, por exemplo, uma sociedade rural como a nordestina, tendo em vista que a “tese” abrigada foi a da negação do binômio rural-urbano. Além disso, a produção em larga escala não logrou êxito na capitania do sul, assentando o poder patriarcal muito mais no poderio bélico, baseado no apresamento aborígene, que na monocultura voltada para a exportação. Talvez aqui Sérgio Buarque de Holanda tenha fornecido dados mais interessantes à pesquisa de Luís Saia, uma vez que trabalhou mais diretamente com estas especificidades paulistas, tendo produzido, em seguida, importantes trabalhos nesta linha, como Monções e Caminhos e fronteiras.

Essa tradição historiográfica também ampliou o rol de fontes trabalhadas. Na obra de Gilberto Freyre a casa se torna um documento privilegiado para a compreensão da formação nacional, fato este que ajudou a legitimar no SPHAN, ao menos em sua “primeira fase”, uma preocupação mais imediata com o patrimônio edificado. Por outro lado, as relações sociais e a formação cultural que teriam se dado neste meio demandaram fontes alternativas para sua compreensão, o que colocou esta historiografia brasileira em pé de igualdade, em termos de avanços metodológicos, com o que vinha sendo produzido de melhor nos países de maior tradição historiográfica. Freyre lança mão, assim, de uma infinidade de fontes para compreender, sobretudo em Casa-Grande & Senzala, a vida rural nacional e as bases que, a partir dela, teriam sido lançadas para nossa formação cultural. Essa espécie de “gênero de vida” (organizado patriarcalmente, com base na agro-exportação escravista e gerador de soluções culturais mestiças) teria conformado nossas características essenciais, que seriam contrapostas, em seguida (sobretudo em Sobrados e Mucambos), a uma vida urbana, na qual a adoção de normas de conduta exógenas haveriam deteriorado uma forma mais “ecologicada”,

como diria Luís Saia, de responder às imposições do meio natural.

Na obra de Sérgio Buarque de Holanda também fica claro que nossas “raízes” seriam rurais, bem como que a antinomia “rural-urbano”, desencadeada com o traslado da corte para a colônia, teria gerado importantes consequências sobre nossa vida cultural. No entanto, sua obra não gravita, como em Freyre, em torno de somente um “objeto material” (a casa). Fica antes dispersa em vários aspectos de nossa “cultura material” (dentre os quais não deixam de figurar as habitações, numa posição menos privilegiada, no entanto) ligando-se mais a um objeto que, a partir da década de 1970 poderia ser facilmente identificado, mutatis mutandis, às “mentalidades”.

Luís Saia também tomou a arquitetura como objeto privilegiado para a compreensão da evolução regional paulista e nacional. Para ele, a casa bandeirista, por exemplo, é a expressão de um modo de vida mestiço e organizado socialmente com base em fórmulas de origens feudais. No entanto, a análise do arquiteto paulista transcende o espaço da casa, estendendo-se a uma ocupação mais ampla do território e relacionando-se a um processo de divisão internacional do trabalho. Essa análise é possibilitada pela perspectiva dialética da qual parte Saia, que lhe permite analisar diferentes processos (o da evolução arquitetônica, o da evolução regional paulista, o da formação nacional e o da divisão internacional do trabalho), tanto em suas características e contradições internas como nas conexões que guardam entre si. Desta forma, para Luís Saia “a expressão casa-grande, (...) legítima no Nordeste, nunca fez praça em São Paulo”.195 Isso significa que, para Luís Saia, o binômio

“casa-grande e senzala” não fornecerá a chave explicativa ideal para a compreensão da nação como um todo: ele apenas comporá, como um processo específico e com um conjunto de outros processos (do qual também faz parte o da evolução da casa paulista) um processo mais amplo, ou seja, o da formação nacional.196 Isso se torna perfeitamente possível a partir da

perspectiva dialética da qual Saia se apropriou a fim de conferir sentido à evolução regional paulista.

Contudo, o arquiteto se aproxima em grande medida destes dois autores pelo tema elegido. Em última instância, a Nação era a preocupação geral destes intelectuais. Quando a casa passa a ser uma espécie de artefato para a investigação da formação nacional, o olhar a ela dirigido foca aspectos mais profundos que a materialidade da construção. Procura-se

195 SAIA, Morada paulista, op. cit., p. 63 (nota 3). 196

Não obstante Freyre já rebata críticas como esta no prefácio que escreve à 2ª edição de Casa-grande &

desvendar o que os aspectos construtivos podem dizer acerca dos processos de formação e organização originais da nação.

Por fim, tem-se a questão da miscigenação, que se tornou um ponto importante no argumento de Luís Saia. Pela forma como é empregado no texto do arquiteto, é possível afirmar que sua definição de arquitetura paulista só pôde ser levada a cabo em função da tentativa anterior, intentada pela historiografia modernista, em definir um conceito não racista (mais cultural que biológico) de miscigenação. A esse respeito é providencial a seguinte passagem, retirada de Morada paulista:

é claro que o antipelagismo e o imediatismo biológico da mestiçagem levaram os colonos a um nível de interpretação das condições naturais, cuja extraordinária eficácia operativa somente poderia ser explicada pela intimidade ecológica que ocorreu em São Paulo e que resultou em tamanha importância nacional na atividade dos bandeirantes.197

Ora, para Sérgio Buarque de Holanda o mameluco também foi “inventado” a fim de dar conta de uma forma de civilização que dependeu de dificultosas jornadas sertão à dentro, para as quais a população autóctone já estava plenamente adaptada em função do longo convívio com o meio tropical. Assim o português teria procriado e criado o mameluco, dotado tanto de características genéticas (o pé achatado, por exemplo, que facilitaria as extensas caminhadas no “mato”) quanto culturais, aprendidas com suas mães índias. Esses novos traços “raciais” (entendidos mais em termos de adaptação cultural ao meio) possibilitariam enfim as “bandeiras”, que, por sua vez, foram fundamentais para o domínio colonial sobre faixas mais extensas que o litoral ocupado.

No entanto, o próprio Sérgio Buarque de Holanda se inspirou em Gilberto Freyre (embora as referências ao escritor pernambucano deixem de comparecer em Raízes do Brasil a partir de sua 2ª edição) ao elencar como fator explicativo para a formação nacional a miscigenação cultural. Não há uma definição clara para o conceito de “miscigenação” em Raízes do Brasil. Cristalina, todavia, é a aplicação deste conceito em suas interpretações, que permitem antever uma matriz muito semelhante à empregada por Freyre.198

197

SAIA, Luís. Morada paulista, op. cit., p. 228.

198 Essa conceitualização está claramente expressa em Casa-Grande & Senzala, escrito três anos antes,

sobretudo no “Prefácio à primeira edição”, no qual, em extensa nota de rodapé, Freyre arrola o longo percurso a partir do qual aprendeu a “considerar fundamental a diferença entre raça e cultura”, na qual “assenta todo o plano deste ensaio”. FREYRE, Gilberto. Casa-grande & Senzala: introdução à história da

sociedade patriarcal no Brasil. 8ª ed. – Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1954, V. 1, p. 18 (nota 3).

Ricardo Benzaquen de Araújo foi talvez quem primeiro tenha lembrado essa origem neolamarckiana do conceito freyreano, conforme exposto em ARAÚJO, Ricado Benzaquen de. Guerra e paz: Casa-Grande &

É possível assim supor que Freyre, Holanda e Saia partissem todos, portanto, de uma mesma definição de miscigenação. Essa definição se mostrou a mais eficaz para o discurso nacionalista dos últimos 80 anos, parecendo se deslocar cada vez mais do âmbito intelectual (com o qual guarda uma relação ambivalente desde as investidas da “Escola Sociológica Paulista”) para o senso comum, argumento este que mereceria um trabalho à parte. Saia também conheceu o trabalho de Roger Bastide, com quem conviveu na Sociedade de Etnologia e Folclore e cuja obra demonstra não só o encantamento deste antropólogo com a cultura mestiça brasileira, mas também uma sofisticada definição para o conceito de miscigenação.199 No entanto, conforme exposto, o arquiteto se apropriou mais claramente de

uma concepção de mestiçagem que mais se assemelha à empregada por Freyre e Holanda, preocupando-se, sobretudo, em demonstrar como a casa bandeirista foi uma solução mestiça para o modo de vida peculiar paulista. No entanto, não são apenas os contatos culturais e étnicos que explicam a conformação arquitetônica da casa bandeirista, mas, igualmente, fatores diversos como as relações sociais e de produção e o terreno, por exemplo (fatores que, de maneira alguma, passaram despercebidos por esses outros dois autores).