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É com base nas considerações acima que tecemos um pensamento sobre a formação em Saúde do Trabalhador e da Saúde Ambiental no SUS. A ampliação do olhar sobre a saúde-doença para além da dimensão biológica e a necessidade de analisar e intervir na realidade nos momentos de produção e reprodução social da população trouxeram mudanças teóricas e práticas, inclusive no que se refere a esses campos, que precisam ser acompanhadas pela formação em saúde para o SUS.

Apesar de a Saúde do Trabalhador e a Saúde Ambiental estarem explícitas no texto constitucional como atribuições do SUS e de existir uma série de instrumentos normativos que regulamentem as ações desses campos no sistema e que tragam sua importância e necessidade, percebemos que há uma incipiência dessas ações no cotidiano dos serviços públicos de saúde.

Muitos obstáculos são colocados para a efetivação desses campos no SUS e, entre eles, encontra-se a invisibilidade, por parte dos profissionais desse sistema, das inter-relações produção, trabalho, ambiente e saúde e dos problemas e necessidades de saúde delas decorrentes.

Pessoa (2010), em uma pesquisa-ação realizada no município Quixeré-CE constatou o desconhecimento dos trabalhadores e profissionais do SUS com relação aos problemas que envolvem trabalho e ambiente e, até mesmo, sobre o CEREST. Diante da literatura e da realidade que vivenciamos enquanto profissional e docente da área da saúde, podemos dizer que essa situação não se resume à realidade estudada pela autora, mas se abrange por muitos territórios brasileiros, o que aponta demandas ao processo de formação para o SUS.

A incipiência dos processos de formação na abordagem da categoria trabalho e ambiente, tanto para a formação técnica como para as graduações da saúde de uma forma geral, em adição aos cursos de qualificação para APS em nível de pós- graduação que raramente abordam estes temas, pois estes não estão compreendidos como prioritários, precisa ser superada (PESSOA, 2010, p. 268-269).

É interessante observar que essa pouca importância dada à abordagem das categorias trabalho e ambiente na formação em saúde ocorre mesmo diante da recomendação e da necessidade, colocadas por instrumentos normativos do SUS, de inserir esses temas na formação dos profissionais de saúde, como podemos ver na Política Nacional de Saúde do

Trabalhador, na RENAST, no texto-subsídio para a construção da Política Nacional de Saúde Ambiental e na Política Nacional de Educação Ambiental.

Esse desafio é ainda maior quando constatamos que a universidade é permeada pela existência de interesses capitalistas e neoliberais ao mesmo tempo em que possui atores de resistência a essa situação. Consolidar a Saúde do Trabalhador e a Saúde Ambiental no SUS significa também defender e trabalhar, na formação, a abordagem integrada desses campos mediante a análise das categorias produção, trabalho, ambiente e saúde, a qual deve pautar também a produção de conhecimento. Consiste ainda em superar a abordagem da Medicina do Trabalho e Saúde Ocupacional, bem como da compreensão biomédica de ambiente e da relação saneamento-ambiente.

Nesse sentido, a interdisciplinaridade e a transdisciplinaridade são importantes elementos a serem considerados. Dialogar com outros saberes, como as Ciências Sociais, Pedagógicas, Políticas, a Geografia, o Direito, a Economia, entre outros, enriquece o entendimento da realidade e possibilita uma intervenção mais coerente sobre esta. Além disso, dialogar com diversos atores que envolvem o problema abordado se faz fundamental, como trabalhadores, organizações sindicais, movimentos sociais, comunidade, conselhos de saúde, Comissão Intergestora em Saúde do Trabalhador (CIST), profissionais de setores, como o ambiental, de urbanismo e econômico. Assim, mesmo a Saúde do Trabalhador e Ambiental sendo responsabilidades do SUS, a intersetorialidade é necessária e cabe a esse sistema identificar os problemas de saúde e protagonizar o diálogo e a intervenção com outros setores.

O estudo a respeito do mundo do trabalho, saúde e meio ambiente – assim como das suas relações com o processo de globalização da economia e as possibilidades da construção de uma sociedade sustentável – é considerado objeto complexo, multifacetado; daí a necessidade de ser observado e vivenciado a partir do ‘cruzamento’ de distintos discursos disciplinares e agentes sociais diversos (ALMEIDA FILHO apud RIGOTTO, 1998, p.6).

Lembrar que a construção dessa interdisciplinaridade e intersetorialidade ocorrem em um mundo no qual se perpetua cada vez mais o individualismo e a fragmentação dos saberes e dos setores em áreas isoladas, com várias especializações. Mesmo assim, o ensino de graduação e pós-graduação em saúde deve estar aberto para a interdisciplinaridade e para a possibilidade de alcançar a transdisciplinaridade.

Faz-se necessário abordar na formação, de maneira crítica, todo o percurso histórico da Saúde do Trabalhador e da Saúde Ambiental, enfatizando o modelo da Saúde do Trabalhador e o paradigma saúde-ambiente da Medicina Social como os mais coerentes com o SUS. Trazer o que diz seu aporte teórico, sua construção dentro do SUS, seus atos

normativos, seus avanços e desafios para que o profissional da saúde descortine a realidade e construa estratégias de intervenção, pois, como diz Freire (1996), a educação é uma forma de intervir no mundo. Diante disso, pensamos que é importante a formação em saúde refletir: intervenção para quê e para quem? Em prol do capital ou do trabalhador? Lembremos que, como diz esse autor, ensinar exige reconhecer que a educação é ideológica e exige tomada consciente de decisões.

Outro importante passo é superar a educação bancária hegemônica e assumir uma metodologia que descortine o que está por trás da aparência da realidade, que desenvolva o olhar crítico dos discentes na perspectiva de transformar a realidade. Entendemos que o ensino deve partir da realidade dos serviços de saúde e de vida e trabalho das pessoas com um olhar crítico e reflexivo, fazendo uso da metodologia prático-teórico-prática. Nesta, objetiva- se inserir o aluno na realidade concreta, para que ele possa, a partir desta, refletir com os teóricos a problemática estudada e retornar a ela com um olhar mais amplo, que subsidie a construção de projetos de intervenção que contribuam com a transformação da realidade no sentido da efetivação dos princípios do SUS e da consecução do direito universal à saúde.

Nesse sentido, a realidade pode ser pensada a partir dos impactos que a produção traz para o trabalho, a saúde e o meio ambiente; e que atitudes e ações os discentes, como profissionais de saúde, podem construir e realizar para mudar esse contexto.

O SUS também traz como desafio à formação a articulação desta com o serviço e a comunidade. Com relação à integração ensino-serviço, a dicotomia que existe entre “saber- fazer”, na qual é frequente a ideia de que a universidade é o espaço do saber e o serviço é o local do fazer, precisa ser superada. É preciso entender os serviços da rede do SUS como espaços também legítimos de produção de saberes e práticas inovadoras.

A articulação ensino-serviço traz vantagens tanto para os discentes como para os trabalhadores e profissionais do SUS. Guizardi et al. (2005) colocam que, para os estudantes, os cenários de prática tornam-se espaços em que o conhecimento ganha vida e se confronta com desafios que exigem postura ativa, em que os componentes do currículo são mobilizados e articulados conforme os problemas colocados pela prática. Para os trabalhadores dos serviços, a proximidade com o estudante o tem levado a refletir sobre sua prática e a buscar novos conhecimentos, instigando a não-acomodação nas rotinas dos desafios apresentados pelo cotidiano do trabalho.

Ao reconhecer a existência de um olhar-outro, ao ser tocado pela alteridade com que esse outro vive uma situação que se supunha conhecer (muitas vezes como saber teórico não impregnado das singularidades do viver), estudantes e

trabalhadores ampliam suas leituras sobre a realidade, expandindo também as possibilidades de ação e intervenção que manejam (GUIZARDI et al., 2005, p.163).

Além disso, a articulação com entidades, como igrejas, conselhos comunitários, escolas, sindicatos, entre outros, faz-se importante para conhecer as demandas sociais e envolver a comunidade nos processos formativos. Acreditamos que essa articulação ensino- serviço-comunidade possibilita uma rica visão sobre a realidade, por meio da fusão de saberes, e a busca por intervenção que dê resultado significativo diante dos problemas, no nosso caso, os de Saúde do Trabalhador e de Saúde Ambiental.

Guizardi et al. (2005) ressaltam que a busca de espaços e dispositivos que ampliem os efeitos inovadores dessa interação institucional é fundamental à originalidade das experiências de ensino, por possibilitar que os movimentos singulares, que expressam as especificidades dos contextos e atores implicados, não permaneçam constantemente à margem da organização dos processos formativos.

O que estamos trazendo aqui se situa como uma contra-hegemonia, na universidade, aos ideais capitalistas e neoliberais. O SUS é uma política de saúde contra- hegemônica e o enfoque da Saúde do Trabalhador, em detrimento da Saúde Ocupacional, o olhar sobre as interfaces produção-trabalho-ambiente-saúde e as pedagogias discutidas aqui também. A universidade precisa ter atores comprometidos com essa contra-hegemonia na formação de profissionais da saúde para continuarmos caminhando no processo de construção/consolidação da Saúde do Trabalhador e da Saúde Ambiental no SUS. Não temos a ilusão de que a formação seja a solução para todos os obstáculos encontrados nesse caminho, mas acreditamos que ela é uma luz importante nesse percurso.