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A terceira parte trata da etimologia, ou seja, da estrutura da linguagem, que se circunscreve ao domínio da gramática geral. Nela encontram-se os seguintes tópicos: do nome; do nome Deus e seus semelhantes; dos nomes derivados; dos adjetivos e dos

particípios do presente e do passado tomados como nomes cognatos; dos infinitos dos verbos tomados como nomes cognatos; dos aumentativos; dos diminutivos; dos coletivos; das declinações e dos casos dos nomes; dos acidentes do nome - do gênero; do gênero neutro; do número; dos determinativos pessoais; do pronome “se”; dos adjetivos possessivos; dos adjetivos demonstrativos; dos adjetivos relativos; do verbo; divisão do verbo; conjugação dos infinitos; propriedade que tem a língua de se prestar à formação de novos verbos; dos particípios; particípios ativos do presente; particípios ativos do pretérito; particípios ativos do futuro; particípios passivos do pretérito; particípios passivos do futuro; do gerúndio; do supino; do advérbio; advérbios de lugar; advérbios de tempo; advérbios de quantidade; advérbios numerais; advérbios de dúvida, interrogação, afirmação, negação, demonstração, suposição, modo, etc.; advérbios compostos, frases e locuções adverbiais; da conjunção; da interjeição; da preposição.

Para introduzir os estudos da etimologia, Cardoso (1944) apresenta as partes do discurso de forma comparativa: a divisão mais antiga, a mais adotada pela maioria dos gramáticos modernos – a quem ele critica, pois acredita não ser lógica – e a que ele adotará no Tratado da Língua Vernácula. Resumidamente, pode-se, assim, visualizá-las:

Quadro 18- Partes do discurso

Partes do discurso

Divisão mais antiga

Substantivos Todas as palavras que exprimem os nomes dos objetos não inerentes a outros, ou os sujeitos do discurso.

Atributivos São as que exprimem algum atributo, propriedade ou ação desses objetos. Conectivos São as que exprimem suas ligações, suas relações ou sua mútua

dependência. Divisão

moderna Artigos Nomes Na realidade, são verdadeiros determinativos. Ela [a divisão comum adotada] compreende com efeito sob o termo comum de nomes os substantivos e os adjetivos que são duas partes do discurso diversas por sua natureza, embora os substantivos abstratos representem qualidades, como os adjetivos qualificativos.

Pronomes Os pronomes são uns substantivos pessoais.

Verbos O verbo tem algumas relações com o adjetivo por exprimir como ele o atributo, ou a propriedade de uma pessoa ou de uma cousa.

Particípios E ela [a divisão comum adotada] faz uma parte separada dos particípios, que não são senão adjetivos verbais.

Advérbios Os advérbios são nomes regidos por preposições, por conseguinte também não constituem uma parte especial da oração. São perífrases abreviadas. Preposições

Interjeições as interjeições orações implícitas, ou orações embrionárias, como tais devem ser consideradas, e não como partes distintas da oração.

Conjunções Servem em geral a ligar as frases, indicando a relação de um nome substantivo com outro.

... continuação Partes do discurso

Divisão adotada por Cardoso (1944)

Substantivos Designam nomes dos objetos Pronomes Marcam o sujeito dos objetos Adjetivos Designam a qualidade dos objetos

Verbos Exprimem o que se afirma sobre eles (os objetos). É a parte mais complexa do discurso.

Preposições Estabelecem ligações e relações Conjunções Estabelecem ligações e relações

Depois de discutir a divisão do discurso e criticar a divisão moderna adotada por muitos gramáticos de sua época, Cardoso (1944) descreve (quanto ao gênero, número, declinação e grau), caracteriza e classifica o nome (substantivos, adjetivos particípios, infinitos dos verbos e determinativos pessoais = pronomes).

Quando trata do verbo adjetivo e suas designações, segundo seu emprego no discurso – transitivo, intransitivo, reflexo, pronominal, recíproco, unipessoal, frequentativo, incoativo, aumentativo, diminutivo, regular e irregular –, Cardoso (idem) rejeita a opinião de um gramático – “a quem tem muita afeição” (idem, p. 139) – em relação ao complemento direto que pode exigir as preposições de, em e por: “não concordo com ele, porque quando se diz tirar da espada, o verbo tirar fica intransitivo” (idem, p. 140).

Em muitos momentos, Cardoso (idem), mesmo reconhecendo a importância dos gramáticos e filólogos, não “copia” as informações nas obras deles contidas, obedecendo a todas as regras que lá se encontravam. Aqui e ali, ele discorda, resiste às inovações, critica algumas posições, consideradas, ora retrógradas, ora modernas, ao mesmo tempo em que busca referências que sustentem suas afirmações:

Os gramáticos, ao formarem estes tempos compostos tomam significação ativa, e não admitem variação de gênero ou de número, enganaram-se redondamente, confundindo-o com o supino; engano tanto mais saliente, quanto mais se pondera que não guardamos dos latinos a forma de seu supino. Isto é um engano. A verdadeira lição é esta, que se encontra no dr. Carneiro e outros gramáticos de elevadas reputações.

Existem, entretanto, dois subitens que merecem uma análise mais atenta: a que se refere à classificação do substantivo “Deus” e à classificação do pronome “se”. Nesses pontos, especificamente, há, mais claramente, uma posição teórica distinta daquelas referências adotadas na maioria de suas explicações. Como um dos objetivos desta análise

é levar o leitor a perceber que não há meras “cópias” de definições, classificações, etc., porque tudo depende de como se faz a partir da utensilagem mental de quem a faz, o fato de o autor se distanciar dos seus modelos teóricos para construir argumentos baseados em suas crenças é prova inconteste do que se pretende aqui mostrar.

Cardoso (1944), ao descrever e classificar os substantivos, construiu um subitem específico – Do nome Deus e seus semelhantes – para discutir a classificação do nome Deus: seria este nome um substantivo próprio ou comum? Para ele, o substantivo comum assim o é considerado por representar a classe dos nomes dados pelos primitivos selvagens às primeiras observações dos objetos que os cercavam. A formação, porém, dos substantivos próprios exigiu uma operação intelectual muito difícil, explicando assim o seu possível uso somente na primeira formação da linguagem.

O substantivo próprio tem a função de “representar um ente qualquer natural, artificial, ou abstrato, por uma palavra particular, só a ele conveniente no ponto de vista de seu peculiar característico...” (idem, p. 100). Em outras palavras, o substantivo próprio especifica um ser entre outros iguais, distingue um indivíduo dentre seus “homogêneos em natureza, caráter, fisionomia e capacidade” (idem).

Se essa é a função do substantivo próprio, então não se pode classificar “Deus como tal, uma vez que esse vocábulo designa “o único ser incriado (sic) e eterno que se conhece, o único ser imenso e infinito que a filosofia concebe, o único ser onisciente e onipotente, causa causarum”. (idem p. 101).

O vocábulo “Deus”, portanto, é um substantivo comum – “o vocábulo Deus não pertence ao corpo dos nomes próprios; é puramente um nome comum, o que provarei sem extraordinário esforço” (idem) – e, para justificar sua posição, Cardoso (idem) argumenta que:

1. o nome próprio exprime uma ideia de particularização, de distinção e de isolamento e essa função não é mais nobre do que generalizar;

1.1. o nome comum e o apelativo têm mais importância que o próprio, porque “se exprimem ideias genéricas quanto aos indivíduos da classe e da espécie, também exprimem ideia individual, embora coletiva, quanto à representação de cada classe e de cada espécie em separado; porque às suas acumula funções alheias” (idem, p. 102);

2. se os nomes próprios têm a função de distinguir as individualidades, como aceitar o fato de “Deus” ser um indivíduo dentre outras divindades?

3. antes de os seres naturais, artificiais ou abstratos serem individualizados, a síntese já os havia apresentado como seres genéricos; antes de serem nomes próprios, eles eram comuns;

4. conforme Soares Barbosa (1875), todos os nomes próprios foram apelativos em sua origem;

5. se “Deus” fosse próprio qual seria, então, o nome da classe a que pertence? Qual seria seu comum e seu apelativo?

6. o indivíduo, “se não tem semelhantes, também não tem necessidade de distinguir-se; não tendo necessidade de distinguir-se, não pode ser nome próprio; não sendo nome próprio, o que deve ser”? (idem, p.103-4).

7. todos os indivíduos da natureza humana, ou os espirituais, que subsistem por si, “podem ser encarados de um modo genérico; porque qualquer deles, constitua ou não uma ideia individual, exprime uma ideia geral ou de classe, vindo daí dizerem os gramáticos [referindo-se a Sotero dos Reis] que apelativo é o que compete a muitas cousas ou pessoa” (idem, p. 105).

Há, na verdade, em todos esses argumentos, uma confusão entre a ideia de Deus (onipotente, onipresente e onisciente) e o vocábulo “Deus”, substantivo que designa essa ideia, em outras palavras, uma confusão de critérios: semântico e morfológico. O mesmo aconteceria com os semelhantes: fada, saci, bruxa, etc. Mas, pretende-se chamar a atenção à maneira pela qual Cardoso (idem) se apropriou dos discursos gramaticais já existentes a partir de suas crenças (ele era um ardoroso defensor da fé cristã e da igreja católica), ou seja, de sua utensilagem mental. Para ele, era claríssimo que o “vocábulo ‘Deus’ não pode distinguir-se de indivíduos do mesmo gênero ou da mesma espécie e com os mesmos atributos, porque a Teologia e a Fé Christã não nos ensinam o conhecimento de muitas divindades (...)” (idem).

Também relevante, nesse sentido, é o estudo acerca do pronome “se”118. Na verdade, é uma discussão que “há muito foi travada em certamen renhido os doutos professores da gramática filosófica residentes na Bahia” e que, por isso, o autor julga de “grande interesse para aqueles que aspiram aos louros de autores e oradores da língua portuguesa”. (idem, p. 126). Não há como duvidar, então, do seu desejo de ser reconhecido como um autor e/ou um orador reconhecido no meio intelectual.

Existem duas posições distintas em relação aos diferentes empregos do pronome se:

Quadro 19- Emprego do pronome SE

Posição (A) Posição (B)

Querem alguns, os que consideram o pronome se elemento logico do discurso, que, quando o sujeito é indeterminado ou indefinito, a expressão mais sucinta que possui a língua para o revelar, seja este mesmo pronome se, o qual dizem equivaler-se ao on dos franceses ou ao one dos ingleses, chegando até a estabelecer como regra que todas as vezes que ele não é regime direto dos verbos neutros, ou dos verbos chamados ativos, mas empregados em sentido absoluto como designando estado habitual, caso em que não pedem regime direto, não se pode considerar o verbo apassivado, se o pronome se no caso direto representa sujeito indefinito do verbo.

Querem outros, os que o consideram elemento gramatical da proposição, que se, sendo indefinito, seja complemento objetivo só aparente, mas em rigor, termo de relação ou indicio desse termo, porque o verbo a que ele se junta, se torna logo relativo, pela referencia que tem este ultimo pronome á pessoa ou pessoas unicamente concebidas na mente de quem fala ou escreve.

Fonte: Cardoso (1944, p. 126)

Cardoso alia-se à segunda posição e, usando circunlóquios em um parágrafo não menos impreciso, tenta justificar-se:

“Embora [primeira concessão] os modernos corifeus da não plausível doutrina do se

elemento lógico da proposição, à vista de minhas palavras me malsinem (cito as objurgatórias de um talento superior) de supersticioso respeitador das construções latinas, de soldado desta cruzada que se tem levantado contra as locuções francesas [assim ele se julga], que em seu favor exclama a cada passo: Galicismo!...; de admirador exagerado e

fanático de nossos antepassados (os clássicos), que assentes na inabalável convicção de que a língua portuguesa é em tudo filha da latina, desconhecendo que ela (horresco referens!) difere essencialmente da latina em gênio, em índole, e em construção, [ ainda sua posição linguística]julgaram-se dispensados de estudar e cultivá-la, crendo assim terem tudo

feito por sua gramatica, transportando-se para ela as construções latinas, ou dirigindo-se pelas regras e preconceitos, que dominam a gramática latina [crítica a autores não identificados] ; embora [segunda concessão] ameace tragar-me toda essa tromba de blasfêmias

ilustres arremessadas de uns lábios [quais? de quem?] , que sou o primeiro a catar por sua

eloquente erudição [autoafirmação?]; desta cadeira, que sinto engrandecer-me, hei de,

constituindo-me eco sonoro de Jeronymo Soares, Latino Coelho, Sotero dos Reis, padre Duarte, Caldas Aulete, Alexandre Passos, Clodoveu, e outros [a legitimação], que seria enfadonho dizer, ensinar sempre que se é elemento gramatical da proposição, que se não

pode exprimir nem as relações de sujeito, nem as de vocativo.[posição defendida]. Não me

corro de vergonha por constituir-me eco sonoro dos primeiros e mais abalizados gramáticos da língua. O mestre, que é senão um eco de verdades, um repetidor de doutrinas?...”(CARDOSO, 1944, p. 127).

E ainda continua em sua defesa afirmando que a pretensão de dar-se caso reto ao pronome “se” é um atentado, uma violência contra o gênio da língua portuguesa, “arca santa em quem como nas construções, será uma impiedade por mãos vandálicas” (idem, p. 128). Ao que parece, Cardoso estava respondendo a acusações já feitas anteriormente, - ou seria uma estratégia argumentativa – e, por isso, o uso de um discurso inflamado e passional. Tanto assim é que proclama: “aqueles que trabalham por deturpar a galharda construção do período nacional, aqueles que trabalham por extinguir o gosto dessa formosa e boníssima cousa, “que se chama vernaculidade” são uns bárbaros assoladores, dignos das fogueiras inquisitoriais” (idem, p. 129).

Mas, para ratificar sua posição, ele oferece ao leitor as explicações de uma e outra proposta do ponto de vista puramente gramatical. Daí, ele usará as referências, principalmente, de Sotero dos Reis, de quem há muitas citações. O fato de selecionar este ou aquele gramático, por si só, aponta para a constituição sui generis desse artefato cultural. Não há, portanto, transcrições intermináveis, mas a busca de apoio teórico para sustentar as posições intelectuais que se pretende mostrar a determinado público.

Benzer Belgeler