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O ELAN é um programa desenvolvido pelo Max Planck Institute for Psycholinguistics, da Holanda. Entre os vários motivos para adotá-lo em minha pesquisa, cabe destacar: i) a compatibilidade com PCs; ii) a sua distribuição gratuita na internet; iii) a sua crescente utilização em pesquisas com diversas línguas no mundo; iv) o fato de ter sido projetado para viabilizar uma transcrição mais eficiente das LSs; v) as atualizações contínuas e a abertura dos desenvolvedores do programa a sugestões e dúvidas dos usuários; e vi) funcionalidades específicas tal como a sincronização do vídeo com as transcrições, um complexo sistema de buscas, e a capacidade de operar com até quatro câmeras simultaneamente. Todas essas qualidades tornaram o ELAN um programa imprescindível para a viabilização deste estudo.

A estrutura do arquivo de transcrição do ELAN foi basicamente a mesma que foi elaborada pelo grupo “Estudos da Comunidade Surda” (ECS), a partir de uma experiência-piloto de transcrição de uma narrativa dentro do projeto de formação de

143 corpus da libras (McCleary e Viotti, 2007). Nessa experiência, contudo, a anotação foi feita manualmente, com editor de texto comum, de modo que o meu trabalho foi o de adaptar esse sistema, sob a orientação dos professores do grupo ECS, ao formato do ELAN. Esse programa permite que se criem tantas trilhas (tiers) quantas forem necessárias para a anotação dos diferentes articuladores corporais (ver parte de baixo da figura 14) e o anotador tem a opção de trabalhar apenas com aquelas que sejam de seu interesse imediato a cada momento.

Figura 14. A tela de transcrição do ELAN, com as trilhas anotadas aparecendo na parte de baixo da figura.

O arquivo-modelo completo do ELAN para os trabalhos de transcrição do grupo ECS, que utilizei também em meu trabalho, inclui as trilhas relacionadas na tabela 2 abaixo. As abreviações nos títulos de algumas trilhas são relativas às iniciais do inglês, pois um dos objetivos desse trabalho de formação de corpus é o de torná-lo acessível a pesquisadores de outros países. As trilhas apresentadas estão duplicadas em meu arquivo pela necessidade de transcrever a atividade de ambos os participantes das conversas gravadas. A coluna à direita indica se a trilha em questão foi utilizada nesta pesquisa em vista de meus propósitos atuais (+) ou se não foi considerada (-).

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Título da trilha Descrição da trilha Utilização

PU Segmentação do discurso da libras em

unidades entoacionais

+

MS-Gloss-BP Registro de glosas, em português brasileiro, referentes aos sinais manuais

+

MS-Gloss-E Versão das glosas de MS-Gloss-BP para o inglês -

NMS-Gloss-BP Registro de glosas, em português brasileiro, referentes aos sinais não-manuais

+

NMS-Gloss-E Versão das glosas de NMS-Gloss-BP para o inglês - SMS-Gloss-BP Registro de glosas, em português brasileiro, referentes

aos sinais manuais realizados simultaneamente ao sinal glosado em MS-Gloss-BP

+

SMS-Gloss-E Versão das glosas de SMS-Gloss-BP para o inglês + G-phases Registro das fases dos gestos manuais durante a

sinalização

+

Head Registro dos movimentos de cabeça +

Eyebrow Registro dos movimentos de sobrancelha +

Eyelids Registro dos movimentos de pálpebra +

Eyegaze Registro do direcionamento do olhar +

Mouth Pictures Registro das imagens bucais relacionadas aos fonemas do português brasileiro (visemas)

145 Mouth Gestures Registro dos gestos bucais que não têm correlação

com a língua portuguesa

+

Body Registro de movimentos do tronco +

Shoulders Registro de movimentos dos ombros +

Hands Registro de qual mão realiza o sinal +

H-Location Registro da localização da mão no espaço de sinalização durante a realização do sinal

+

Repetition Registro do número de vezes que um movimento é repetido no sinal

+

Body Gesture Registro de gestos não-lingüísticos -

Comments Registro de comentários que surgem ao longo da transcrição

+

Tabela 2. Descrição das trilhas que compõem o arquivo de transcrição do ELAN.

A maior parte dessas trilhas é constituída por um repertório fechado e/ou restrito de possibilidades de anotação – exceto quando a trilha apresenta uma gama muito grande de possibilidades, como é o caso das glosas. Esses repertórios de entrada, denominados “vocabulário controlado” no ELAN, facilitam o processo de transcrição e, por esse motivo, foram emprestados do projeto VisiCast de Hamburgo, que já possuia um levantamento de sinais não-manuais registrado a partir de análises de corpus da língua de sinais alemã (Hanke, 2000).109

Com relação à trilha das imagens bucais (mouth pictures), as anotações têm sido feitas de acordo com um repertório de visemas, isto é, de “padrões visualmente contrastáveis de movimentação articulatória dos lábios e da língua produzidos em conseqüência da fala” (McCleary e Viotti, 2007: 21). No caso da libras, cujos falantes estão numa situação de contato lingüístico com falantes do português, os visemas que

109 Com o desenvolvimento do corpus na libras em trabalhos como este, a identificação de diferenças

entre essas duas línguas deverá permitir que alguns desses valores, ausentes na libras, sejam eliminados de nossos arquivos de anotação, da mesma maneira que outros valores não presentes no repertório, específicos da libras, deverão ser incluídos.

146 nos interessam são os visemas do português brasileiro. Para isso, foi utilizado o repertório de visemas dependentes do contexto fonético levantado no trabalho de De Martino (2005).

A inclusão da trilha sobre as fases do gesto foi motivada por um desejo de evitar assumir, neste momento inicial, qualquer proposta fonológica acerca da estrutura interna dos sinais (e.g. Brentari, 1998; Liddell e Johnson, 1989; Sandler, 1989). Num esforço de segmentar a cadeia gestual da maneira mais objetiva possível, optei por utilizar o conceito de fases do gesto, elaborado no trabalho de Kita et al. (1997) a partir da literatura clássica sobre gestualidade (Kendon, 1972, 1980; McNeill, 1992).

Kendon e McNeill identificaram nos gestos que co-ocorrem com a fala – tipicamente aqueles realizados pelas mãos e braços – fases qualitativamente distintas. A partir daí, descreveram uma hierarquia de unidades que constitui a organização interna dos gestos e que foi estendida por Kita et al. para abranger não apenas os gestos que co- ocorrem com a fala, mas também a sinalização que ocorre nas LSs.

A organização interna dos gestos para um articulador (manual) pode ser esquematizada tal como mostra a figura 15, adaptada de Kita et al. (1997: 27):110

110 Embora essa apresentação siga a proposta de Kita et al. no que diz respeito à definição de conceitos e

organização da hierarquia, optei por modificar parte da terminologia dos autores, que se referem a “movement units, movement phrases e movement phases”, em favor de uma terminologia mais próxima de McNeill, que privilegia o qualificativo gesture. A meu ver, a idéia de gesture é mais abrangente do que a idéia de movement, uma vez que o movimento é apenas parte de um todo gestual que envolve, entre outras coisas, pontos de articulação e configurações das mãos. Tal consideração me motivou a adotar as expressões “gestual” ou “do gesto” para qualificar os elementos em diferentes níveis da hierarquia: unidade (unity), seqüência (phrase) e fase (phase).

Vale a pena destacar, mais uma vez, o estatuto essencialmente descritivo desses conceitos. Em particular, as referências a movimentos e suspensões não devem ser confundidas com as noções de movimentos e suspensões de estatuto fonológico, trabalhadas em teorias sobre a fonologia das LSs tais como a de Liddell (1984), citada na seção 2.2. Em última instância, é possível que haja correlações entre o que aqui se descreve com enfoque empírico e o que se tem proposto sobre a fonologia das LSs. Essa é, contudo, uma questão a ser investigada futuramente e que não entra no escopo deste trabalho.

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Figura 15. Hierarquia dos elementos que compõem a estrutura interna de gestos e sinais.

A unidade gestual envolve os períodos de atividade das mãos, desde o momento em que elas saem da posição de repouso, até o momento em que elas retornam. Durante esse período, as mãos podem realizar, no mínimo, uma seqüência gestual – os quadros pontilhados indicam a não-obrigatoriedade das demais seqüências –, que é formada por três fases: i) na fase de preparação, os braços e mãos se preparam para a realização da fase expressiva; ii) na fase expressiva, que carrega o significado do gesto, as mãos e braços podem ficar suspensos no ar por alguns instantes (a chamada suspensão

independente) ou as mãos e braços podem realizar um pico de esforço gestual (o

chamado golpe), opcionalmente precedido e sucedido de suspensões das mãos e braços no ar; e, por fim, iii) na fase de retração, as mãos retornam em direção ao repouso, parcial ou totalmente.

Nas LSs, cada sinal corresponde a uma seqüência gestual que, abstraída de contexto, sempre apresenta as três fases de movimento acima mencionadas. Na figura 16 abaixo, apresento uma ilustração da estrutura interna do sinal EXPLICAR da libras.

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Figura 16. Fases do gesto para o sinal EXPLICAR, cuja fase expressiva é formada por golpe.

A outra possibilidade de realização de uma seqüência gestual (fora de contexto) ocorre quando a fase expressiva é formada não por um golpe, mas sim por uma única suspensão independente. Na figura 17 abaixo, apresento uma ilustração da estrutura interna do sinal CINCO da libras, para mostrar essa segunda possibilidade de manifestação da fase expressiva.

Uma diferença dessas descrições em relação às seqüências gestuais em contexto, isto é, dentro da cadeia de fala na libras, é a de que as únicas fases que parecem ser obrigatórias na fala espontânea – pelas observações feitas até o momento – são a fase de preparação e a fase expressiva. A fase de retração, diferentemente, pode ser elidida em alguns contextos ou realizada apenas parcialmente (quando as mãos e braços são mantidas suspensas no ar com um nítido relaxamento da localização e da configuração de mão do sinal, sem retornar de fato a uma posição de repouso). Outra diferença é a de que a seqüência gestual fora de contexto coincide com a unidade gestual (que tem o repouso tanto como ponto de partida quanto como ponto de chegada), ao passo que, na fala, essa coincidência é rara, já que dificilmente o sinalizador produz turnos compostos por um único sinal.

A Æ Repouso

A a C Æ Fase de Preparação

C a E Æ Fase Expressiva (Suspensão pré-golpe, golpe e suspensão pós-golpe) E a G Æ Fase de retração G Æ Repouso A B C D E F G

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Figura 17. Fases do gesto para o sinal CINCO, cuja fase expressiva é formada por suspensão independente.

Nesta pesquisa, em vista de meus propósitos imediatos, a transcrição não envolveu toda a sofisticação do modelo de Kita et al. Apenas incluí notações no ELAN para as fases que compõem a “seqüência gestual”: i) a preparação; ii) o golpe, a suspensão independente e a suspensão dependente dos golpes, referentes à fase expressiva; e iii) a retração. Além disso, busquei seguir o critério principal de segmentação em fases proposto no estudo de Kita et al., segundo o qual um “movimento é dividido em duas fases se há uma mudança abrupta de direção do movimento da mão e também se há descontinuidade no perfil de velocidade do movimento da mão, antes e após a mudança abrupta de direção” (p. 29). Também de acordo com esse estudo, ambos os critérios foram identificados de maneira impressionística, sem um aparato de análise física do deslocamento das mãos no ar.111 A relevância desse modelo será ilustrada nas análises sobre a modulação dos sinais, nos capítulos 6 e 7.

Como pode ser observado pelas características das trilhas adotadas, a proposta da transcrição nesta fase da investigação da libras foi a de fazer uma descrição que

111 A mudança de direção é bastante fácil de ser apreendida perceptualmente, diferente do que ocorre com

a mudança de velocidade. Apesar disso, a segmentação natural dos vídeos digitais em frames facilita esse trabalho de identificação de mudanças na velocidade do gesto. Em geral, quando o gesto é mais rápido, o seu congelamento num frame resulta numa espécie de borrão que nos mostra apenas de maneira

aproximada a localização exata dos braços ou das mãos no espaço. Diferentemente, quando um gesto é realizado lentamente, o seu congelamento num frame mostra braços e mãos com contornos mais bem definidos no espaço. Esse método impressionístico de análise tem sido utilizado por pesquisadores com longa experiência em estudos da gestualidade (e.g. Duncan, 2005).

A Æ Repouso A a C Æ Preparação

C Æ Fase expressiva (Suspensão independente)

C a E Æ Retração E Æ Repouso

A B C

150 evitasse a imposição prematura de categorias lingüísticas (McCleary e Viotti, 2007). Embora seja um fato amplamente constatado que toda transcrição implica, inevitavelmente, uma análise, é igualmente verdadeiro que uma transcrição pode estar imbuída de diferentes graus de motivação teórica, de modo que uma cautela metodológica neste atual estágio de investigação da libras parece prudente.

Ao final, apenas três dos sessenta minutos de conversação gravados foram transcritos, ainda que outras passagens das gravações tenham sido também utilizadas na busca por uma maior generalização de certos fenômenos analisados. A tarefa de transcrição, de fato, é possivelmente a mais difícil de todo o processo, pelo tempo de trabalho que exige do pesquisador. A recompensa, porém, vem não apenas nas diversas hipóteses de análise que vão surgindo a partir das incontáveis repetições no processo de observação dos dados, mas também nos progressos alcançados no desenvolvimento do sistema de notação informatizado como um todo. Trata-se, afinal de contas, de uma primeira etapa necessária que, uma vez superada, viabilizará a formação de um corpus da libras e, conseqüentemente, uma base sólida de dados que poderá servir de subsídio para futuras pesquisas na área.

Benzer Belgeler