A terceira categoria de análise considera os tuítes classificados na categoria inferenciais como a expressão subjetiva, inferencial e interpretativa do colaborador durante a cobertura da entrevista. Os tuítes dessa natureza estabelecem uma forte relação com a ideia de engajamento, na qual o enunciador manifesta sua própria opinião ou apreciação acerca da entrevista. Esse contexto de engajamento está relacionado com a atividade discursiva e argumentativa do jornalismo, segundo os critérios da produção de notícias, com base no acontecimento comentado. Para Charaudeau (2006), o exercício jornalístico de comentar está intrinsecamente ligado ao ato de relatar, visto da perspectiva da narração.
A linha divisória que distingue os dois conceitos – relato e comentário – é bastante tênue, e considera o relato mais próximo da ordem do constativo (CHARAUDEAU, 2006, p. 175); já o comentário é uma argumentação que impõe uma visão do mundo de ordem explicativa ou questionadora, que procura relevar as minúcias do que não é visto, inscritos à ordem do latente. O objetivo do acontecimento comentado é problematizar, construir hipóteses e impor conclusões. Para isso, o comentário exige uma atividade intelectiva e de raciocínio, que muitas vezes implica uma tomada de posição contra ou a favor de uma situação.
Consideramos que o contexto do acontecimento comentado definido por Charaudeau (2006) se refere a uma atividade específica do jornalismo. A apropriação do conceito se dá a partir das proximidades estabelecidas na atuação dos colaboradores, identificando nos enunciados pontos de interseção que se aproximam dessa atividade jornalística, ainda que ambas não compartilhem o mesmo estatuto e protocolos. Emitir um comentário é, sem dúvida, uma ação subjetiva, que pressupõe a exposição de um ponto de vista. Ao ser tratada como discurso jornalístico, o comentário parte da ideia de que qualquer propósito no mundo deve ser objeto de indagação. Problematizar, no contexto geral, é emitir um propósito com fins questionadores e inseri-lo em uma proposição, elucidar e avaliá-lo nos diferentes aspectos, ou seja, corresponde a uma “mecânica argumentativa” (CHARAUDEAU, 2006, p. 177). E um dos elementos encontrados nos tuítes inferenciais é a própria problematização. Veja os exemplos nos tuítes selecionados:
− Tuítes inferenciais que visam à problematização:
T1: Quem fez a independência do Brasil? Primeiro tem q se perguntar de q independência estamos falando. #rodaviva about 1 hour ago via web
T4: Mas, afinal, o que é bom para o Haiti? Como ajudar? Quem dita essas regras? Quem manda para lá mais militares que médicos, por ex? #rodaviva about 1 hour ago from web
T4: Pergunta sem sentido: se não sabe minimamente o que é a sigla de um projeto, por que perguntar ao vivo no #rodaviva? 41 minutes ago from web T4: Isso porque a resposta deveria ser direcionada ao diplomata chefe da missão da ONU e ao ministro Celso Amorim... não? #rodaviva 34 minutes ago from web
T11: #rodaviva - #FannyArdant é linda e charmosa do alto de seus 61 anos. Aliás, como assim 61 anos? about 1 hour ago via web
No jornalismo, problematizar tem como base três atividades mentais: emitir um propósito (tema), inseri-lo em uma proposição (questionamento) e trazer argumentos (persuadir) (CHARAUDEAU, 2006, p. 179). Nas mídias em geral, principalmente no discurso jornalístico, as problematizações sempre vêm sob a forma de questionamentos com fins de polemizar ou incitar a consciência crítica. “Para argumentar, o sujeito deve problematizar seu propósito, elucidar e avaliar os diferentes aspectos” (CHARAUDEAU, 2006, p. 177). Além de problematizar, comentar também agrega outros verbos: inferir, elucidar, avaliar, motivar e estabelecer relações. Mesmo que esses verbos não se apresentem na forma escrita, eles devem compor a intenção e o objetivo do enunciador, sob a forma de asserção. A asserção, vista por essa lente, constitui uma opinião engajada ou uma apreciação orientada do enunciador; possui um valor modal de um enunciado, que pode ser positivo ou negativo. E essa ação foi encontrada em alguns tuítes analisados na cobertura (grifos nossos):
− Tuítes inferenciais (asserções sobre o conteúdo da entrevista, entrevistado e entrevistadores):
T1: De fato havia mobilidade social no Brasil colonial, mas ela não era tão ampla assim. Era bem restrito a certas camadas #rodaviva about 1 hour ago via web
T1: O sr de escravos era sim muito rico. Escravo ñ era algo barato. E depois q o tráfego foi proibido, ficou mais caro ainda #rodaviva about 1 hour ago via web
T1: A base da historiografia na questão econômica da colonização brasileira é Caio Prado Jr O que veio depois, veio na aba dele #rodaviva about 1 hour ago via web
T5: Cel. Bernardes veio fazer propaganda das tropas brasileiras no haiti about 1 hour ago from web
T6: Eliane Cantanhêde é muito simpatica pessoalmente. Totalmente diferente do que achei. Se bem que as colunas da Folha não são padrão #rodaviva about 2 hours ago from TuítesDeck
T6: Herodoto é um gentleman, é daquele jornalista que olha no olho sempre. E com muita educação sempre.... #rodaviva about 2 hours ago from TweetDeck
− Tuítes inferenciais (asserções nos aspectos relacionais, motivacionais e subjetivos):
T1: De fato, pra bater de frente com Caio Prado e Gilberto Freyre, entre outros, tem q ter fontes consistentes e bem pesquisadas #rodaviva 40 minutes ago via web
T3: Gente, nuncam ninguém na história deste país escreveu um livro sobre o FIADO... vamos lá, meu povo! #rodaviva http://migre.me/lREF 18 minutes ago via TweetDeck
T4: O assunto está morno, então faço um aparte... Naomi Klein fez uma
comparação de “The Shock Doctrine” ao terremoto do Haiti... #rodaviva 19
minutes ago from web
T6: Comparar Angola com Haiti. Eu acho que esta comparação não cabe. Está é a mesma idéia do Cel. Bernardes #rodaviva 33 minutes ago from TweetDeck
T8: Isso é muito louco. Eu estudaria biologia molecular comparada. Passaros com um metabolismo muito rápido vive muito em relação a ratos about 1 hour ago via Netvibes
T5: o que aconteceu no haiti ainda me arrepia muito, só de ver o programa me dá um frio na espinha #rodaviva about 2 hours ago from web T6: E o relato final do Cel. Bernardes é impressionante. Ouvir isso é fácil, imagina vivenciar tudo isso que ele está contando? #rodaviva 20 minutes ago from TweetDeck
− Tuítes inferenciais (sobre o Roda Viva e interações no Twitter):
T4: O programa #rodaviva de hoje é o símbolo da cobertura da imprensa nos quase 6 anos de presença do Brasil na missão da ONU no Haiti... about 2 hours ago from web
T4: ...símbolo porque cobre os problemas de lá sob o olhar de cá, no caso, quase que exclusivamente o dos militares... #haiti #rodaviva about 2 hours ago from web
T6: Muita gente da minha timeline falou do Haiti no "hype". Agora está todo mundo comentando do BBB e ninguém lembra do Haiti... #rodaviva about 1 hour ago from TweetDeck
T9: Quem tá assistindo @rodaviva grita EU! #rodaviva about 1 hour ago via Twitscoop
É natural que, durante a emissão de um comentário, o sujeito expresse um ponto de vista pessoal e exponha a sua opinião através de uma apreciação subjetiva. Essas enunciações muitas vezes são expressas na 1ª pessoa do singular. A subjetividade é o elemento principal que define a categoria inferenciais, e, conjuntamente, as pontuações anteriores, que estabelecem a relação de proximidade dessa categoria com o comentário jornalístico. No decorrer da análise verificamos alguns exemplos de subjetividade. Para exemplificar, escolhemos demonstrar os tuítes que expressam a experiência pessoal de participar da entrevista como colaborador. Veja (grifos nossos):
T1: E o melhor do #rodaviva é q os tuiteiros não podem ser eliminados pelo público. Bem, pelo menos não ainda. about 2 hours ago via web
T1: Participar do #rodaviva ao vivo e ver o pessoal comentando o reprise na TV tá fazendo me sentir num episódio da última temporada de Lost about 1 hour ago via web
T1: Tuitar do #rodaviva é uma experiência bem legal. E vcs achavam q só no #BBB tuiteiros são convidado pra aparecer na TV, hein? about 2 hours ago via web
T4: boa noite prá quem me acompanhou, fantástica a experiência :) 12 minutes ago from web
Na tabela de dados gerais (tabela 2, p. 89), a categoria inferenciais corresponde ao somatório de 211 tuítes inferenciais que compõem o universo total da análise, e corresponde à categoria com maior número de codificações realizadas em toda a Análise de Conteúdo. O colaborador T1 foi o participante que se destacou pela relevância de tuítes emitidos nessa categoria: 23 tuítes, que representam o percentual de 63,9% de tuítes emitidos pelo colaborador. Comparada a atuação dos demais participantes, a equivalência na emissão de tuítes inferenciais durante as respectivas coberturas ocorreu entre os colaboradores T4 e T6, ambos com a média de 32 tuítes marcados nessa categoria.