A dimensão de performance da informação apresentada pelas Marchas das Vadias evidencia-se, especialmente, no jogo de sentidos vinculados à ordem social que ela propõe, através dos corpos, convertidos em suportes de informação (ANDRADE, 2008).
Andrade (2008) defende que o corpo compreende suporte ativo de informações em pleno fluxo e o considera como
[...] o primeiro suporte de informações, sempre em ação, percebendo, processando, assimilando e criando informações em trocas inesgotáveis com o meio do qual faz parte e essa seria nossa forma primordial de relação com e no mundo (ANDRADE, 2008, p. 48).
As lutas pela libertação das mulheres trouxeram, historicamente, o debate sobre o corpo: o questionamento acerca da ausência das mulheres no ambiente público, controle de fertilidade, direitos reprodutivos, criminalização e punição das violências, com destaque para o estupro, questionamento sobre o quê e as formas de vestir e intervenções do Estado nos corpos são alguns temas presentes nas bandeiras dos movimentos feministas (HELENE, 2013).
A passagem do corpo da mulher do ambiente doméstico para o da cidade esteve, segundo Helene (2013), intimamente ligada à conquista feminina gradual da esfera pública e política.
De acordo com a autora, a organização do espaço da cidade foi marcada pela existência de dois papéis exclusivos destinados às mulheres: o de “vadia”, “vagabunda” e “puta” e o de “esposa” e “moça de família”. Para o primeiro papel estiveram reservados os espaços privados, relativos ao “lar”, enquanto que para o segundo, o espaço da rua, especialmente os bordéis e os locais de prostituição.
É em função deste ordenamento que restringe o corpo feminino a alguns espaços tendo em vista seu papel no trabalho produtivo e reprodutivo (assegurado, especialmente, pelo significado social da maternidade) que orienta a conduta normatizada, que desde sempre as
mulheres aprenderam a temer, se proteger e a ficar excessivamente atentas aos locais que circulam nas cidades.
A elas certos locais “perigosos” são interditados ou veementemente recomendados para que sejam evitados, tais como praças vazias, ruas desertas, vielas e becos mal iluminados, o que não acontece para os homens.
Helene (2013) lembra que
[...] além do “temor” internalizado ao espaço público que se impõe aos seus corpos, estes ainda precisam ser cuidadosamente organizados por meio de certas roupas, posturas e movimentos que não “atraiam” os possíveis violentadores. São restrições que atravessam o corpo da mulher na sua relação de vivência cotidiana na cidade. (HELENE, 2013, p.72).
A mulher começou a circular no espaço urbano com o uso e a circulação das ruas promovidos pela Modernidade. O espaço destinado a elas, contudo, passou a ser regulado por delimitações para que fossem diferenciadas as “mulheres direitas” das “mulheres da vida”.
Assim, conforme lembra Helene (2013), a “mulher fora do lar” necessitou controlar seus gestos, comportamentos e vestimentas para não ser confundida com a “mulher da rua” (HELENE, 2013, p.73). De acordo com a autora, foi por meio deste mecanismo que buscava definir claramente a diferença entre as mulheres “honestas” e as “mulheres de vida” que as roupas se verteram em “sistema semiótico”.
Além disso, foram construídas formas “próprias”, posturais, relacionadas ao modo de andar e se expressar na cidade. Para Harvey (2004)
Todas essas regras corporais refletem o rebatimento nos corpos das estruturas sociais, ou seja, os processos classificatórios que operam na sociedade os configuram, moldam sua forma e sua expressão. Além do gênero, as distinções de classe, de raça e de uma multiplicidade de outros aspectos “se acham inscritas no corpo humano em virtude dos diferentes processos sociológicos que exercem ação sobre esse corpo” (HARVEY, 2004, p. 137).
Ao ocupar as ruas, cujo acesso se dá de forma desigual por homens e mulheres, a partir de um corpo que se desloca e pensa o próprio deslocamento do corpo, as Marchas das Vadias atuam performaticamente na cidade. Essas performances são empreendidas por meio, especialmente, de inscrições pintadas nos corpos que trazem expressões como “Meu corpo, minhas regras”, “O corpo é meu! ”, “Minha saia não tem nada a ver com você”, “Isso não é um convite”, dentre outras, e do percurso escolhido por elas, geralmente lugares simbólicos de exclusão na cidade.
O ato performativo aparece também na própria realização de performances artísticas, intervenções urbanas e dramatizações públicas que acontecem em todas as Marchas, compondo uma “programação cultural” do ato.
Para se apresentar por meio da performance, a informação é organizada em termos de símbolos de questionamento e inversão da ordem, de desarranjo das classificações acerca da mulher levados às ruas por meio dos corpos.
Para Helene (2013)
[...] as ruas são o palco ideal para performances de ruptura da reprodução sistêmica do cotidiano essas ações corporificam, na encenação da experiência urbana, o descarte, por alguns instantes, de controles que tolhem a invenção (e inversão) de posições sociais nos fluxos urbanos (HELENE, 2013 p. 74).
Segundo Jacques (2010), as ocupações, profanações e apropriações do espaço público com o intuito de propor novas experiências urbanas, para perturbar a aparente ordem estabelecida no espaço público se configuram como “um escape da hegemonia das imagens consensuais”- na qual o uso do corpo é prioritário (JACQUES, 2010, p. 117).
Neste sentido, a performance evidencia, pode-se dizer que de forma metalinguística, a disputa simbólica acerca das marcações corporais, na qual as roupas são artifícios que demarcam as fronteiras da divisão entre os gêneros masculino e feminino e as formas hierárquicas de poder (HELENE, 2013)
De acordo ainda com Helene (2013), a performatividade confronta política e ideologicamente as configurações corporais, ao utilizar o próprio corpo como plataforma, constituindo um “corpo político”, um corpo agente na esfera pública e política. Nesse sentido, as Marchas das Vadias têm como característica primordial a configuração e o uso do corpo como plataforma de suas reivindicações: um corpo performático, que se utiliza da marcha como ritual de performance coletiva.
Para Giovanni (2007), são questões fundamentais para compreender a performance: os rituais de ruptura e suspensão da ordem rotineira como espaço limiar de deslocamento de significados e a importância desses deslocamentos nos processos políticos de contestação e resistência.
De acordo com a autora, o caráter performático dos protestos que emergiram a partir de 2008 é uma chave para entender esses processos simbólicos tal como se posicionam com relação a uma particular apreensão do mundo e de seus dilemas.
[...] eloquência dramática e carnavalizante dos rituais políticos de confronto e exibição: aí reside, em grande medida, o estranhamento, a suspensão de sentidos ordinários, duplicação temporária do mundo que torna sensível uma intenção histórica desviante. (GIOVANNI, 2007, p. 114).
As práticas carnavalizantes, contra as quais as Marchas muitas vezes são acusadas no sentido de despolitizarem o discurso político, por seu turno, localizam os sujeitos “fora do universo de heróis, mártires e machões, cujos contornos tradicionalmente ditam os limites da política” e instauram territórios do absurdo, criando momentos de suspensão onde os arranjos simbólicos podem funcionar como “se” (GIOVANNI, 2007).
Os territórios do absurdo como estratégia performática são trazidos às Marchas também pelo recurso ao grotesco que caracteriza um fenômeno em estado de transformação, de metamorfose ainda incompleta, no estágio da morte e do nascimento, do crescimento e da evolução, significando possibilidade continua de transformação social e política (SZANIECKI, 2007).
A informação como performance também atrai visibilidade para a luta nos grandes veículos de comunicação, onde, geralmente, os sentidos mobilizados por ela não têm lugar. Estes canais se interessam, contudo, pela dimensão “espetacular” e “excêntrica” dos protestos. A espetacularização se converte, desse modo, em recurso através do qual os ativistas exploram os critérios de noticiabilidade.
Esta estratégia revela também acúmulo de capital simbólico, além de econômico, pelas grandes corporações midiáticas, que detêm o poder de pautar publicamente assuntos tidos como de “relevância social”. A necessidade de tematizar publicamente o movimento na imprensa tradicional para conseguir maior visibilidade pública para a informação produzida por ele mantém a questão, contudo, se os sentidos veiculados pelos meios alternativos precisam reverberar nos canais tradicionais para que a mensagem, em alguma medida, se “complete”.
CAPÍTULO 7-SOMOS TODAS VADIAS? RESISTÊNCIA E RESSIGNIFICAÇÃO