Waldisa Rússio foi bastante didática ao explicar alguns conceitos da Museologia. Como dito anteriormente, a relação entre a História e a Museologia é complexa, por isso, é importante que se entendam os caminhos.
Ela diz que a Museologia é uma disciplina científica, uma ciência em construção e possui em objeto específico: fato museológico, que consiste na relação profunda entre o homem, sujeito que conhece, e o objeto, testemunho da realidade. Uma realidade da qual o homem também participa e sobre a qual ele tem o poder de agir, de exercer a sua ação modificadora. Em suma, é a relação profunda que se faz num cenário institucionalizado, e esse cenário é o museu, que resulta da comunidade, e é tempo de fazer museu com a comunidade e não para a comunidade.284
Quando se musealiza um objeto, ou seja, quando recolhe-se objetos como testemunhos, nós o musealizamos porque eles são testemunhos, são documentos e têm fidelidade. Rússio explica:
283MENESES, Ulpiano T. Bezerra de. “Do teatro da memória ao laboratório da História: a exposição museológica e o conhecimento histórico”. In: Anais do Museu Paulista. Nova Série, v. 2, p. 9-42, jan/dez. 1994, p.38.
284RÚSSIO, Waldisa. “Texto III”. In: ARANTES, Antonio Augusto. Produzindo o Passado: estratégias
São critérios que nos orientam, portanto, no reconhecimento de determinados vestígios, de determinados resíduos, de dados concretos ou de registros de fatos menos materiais, que simplesmente vamos por em evidência. Que testemunhos, que documentos fiéis são esses? Eles são, na realidade, testemunhos do homem e seu meio. Quando nós colocamos aquela relação profunda com a realidade, na verdade estamos fazendo também este relacionamento, esta interligação: o homem e o meio, o ambiente físico natural, o ambiente físico alterado pelo homem, transformado, urbanizado, as criações do seu espírito, todo o seu ideário, seu imaginário, toda a riquíssima gama de intervenções, de atuações do homem, ou de, simplesmente, percepções do homem que, para nós, são nada mais do que trabalho.285
A musealização é uma das formas de preservação. Mas por que se preserva e por que preservar? Além disso, se estabelece, que nessa atribuição de valores a objetos percebidos pelo homem, ou artefatos criados por ele, nós estabelecemos também uma noção de patrimônio pela simples razão de que nós atribuímos a essas coisas, a objetos e artefatos, significados, funções e valores. E como são patrimônio, são suscetíveis de geração, aquisição e de transmissão.286 No caso de Tiradentes, acontece um processo chamado de “fetichismo”, segundo o dicionário, é o culto aos objetos tidos como poderosos e/ou sobrenaturais; adoração aos objetos que podem representar entidades (santos) ou àqueles que estão associados à magia; ou ainda a ação de venerar algo ou alguém.287
Na realidade, aí se percebe que é fundamental a existência de um patrimônio conhecido, de uma memória preservada para que se possa definir uma identidade cultural, que a identidade cultural é sobretudo um fato cultural e político, que leva inclusive a uma questão muito séria que é a questão de soberania e a autodeterminação. Para o museólogo, a ideia de preservar está interligada à ideia de patrimônio em si, e à ideia de cultura em si; e as três ideias estão estreitamente interligadas. Por que o que é que se faz no museu se nós entendermos que a musealização é uma forma de preservação? O que se faz no museu é, na realidade, marcar, registrar uma memória, que
285 Idem, p.61. 286 Idem, p.62.
é a informação – uma informação que serve para uma ação futura. Então, é sempre nessa dualidade, informar para agir, que a gente vê a relação cultural. É dentro dessa dinâmica que nós vemos a cultura, não apenas nesse caráter de uma vivência ou de algo que está sendo vivido, de um processo, de algo que pode que pode ser estimulado para uma criação futura, mas sobretudo como um dado qualitativo, como um fator indispensável e muito significativo para a mudança, inclusive, das próprias relações sociais.288
Na medida em que atribuímos valores, nós criamos bens, transformamos as coisas, os objetos e os artefatos em bens, e os bens constituem o patrimônio – o patrimônio é suscetível de ser adquirido, de ser transmitido. Portanto, é condição necessária do patrimônio que ele seja preservado.289
O museu tem uma responsabilidade social única: não há outra instituição que se ocupe do estatuto do objeto, preservando-o e comunicando os seus significados. Cultura e comunicação se articulam com educação, porque o museu propõe um processo de (re)significação do objeto que se realiza no bojo da cultura material, por meio da comunicação museológica, processo consciente para os participantes que aceitam, rejeitam, propõem, negociam o bem (re)significado. O próprio ato de musealizar – retirada do objeto de um circuito e inserção no circuito museal – é (re)significação cultural e é discutido com o público. A educação preconizada pelo museu é, sobretudo, de natureza experiencial e de atitude, pois se realiza na perspectiva da construção de valores patrimoniais.290
O público de museu é sujeito porque, ao re(significar), conceitualiza os objetos, gerencia o tempo passado-presente-futuro, articula memória e identidade, apropria-se da ambiência e dos discursos expositivo e educativo, reconstrói a retórica e a narrativa, discerne sobre realidade e ilusão, vive a afetividade, elabora e (re)elabora, (re)significa, negocia, argumenta etc.291
Ulpiano Bezerra de Meneses explica que o objeto antigo, obviamente, foi fabricado e manipulado em tempo anterior ao nosso, atendendo às contingências sociais, econômicas, tecnológicas, culturais desse tempo. Nessa medida, deveria ter vários usos e funções, utilitários ou simbólicos. No entanto, imerso na nossa contemporaneidade,
288 Idem, p.63. 289 Idem, ibidem.
290 CURY, Marília Xavier. “Uma Perspectiva Teórica e Metodológica para a Pesquisa de Recepção em Museus”. In: MARANDINO, M; ALMEIDA, A. M.; VALENTE, M. E. A. (Orgs.). Museu: lugar do
público. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2009, p.160-1.
decorando ambientes, integrando coleções ou institucionalizado no museu, o objeto antigo tem todos os seus significados, usos e funções anteriores drenados e se recicla, aqui e agora, essencialmente, como objeto-portador-de-sentido. Assim, por exemplo, todo eventual valor de uso subsistente converte-se em valor cognitivo o que, por sua vez, pode alimentar outros valores que o passado acentua ou legitima. Longe, pois, de representar a sobrevivência, ainda que fragmentada, de uma certa ordem tradicional, é do presente, indica Jean Baudrillard, que ele tira sua existência. E é do presente que deriva sua ambiguidade”.292
A noção de coleção é estranha ao museu histórico, pois o acervo é composto de objetos singulares. A coleta de campo é absolutamente irrelevante; a permuta, desconhecida; a compra é prejudicada pelos altos custos do antiquariato; resta a doação, que introduz, com frequência, os objetos como suporte da auto-imagem dos doadores. O uso documental das peças é praticamente nulo. Predomina a metáfora, capaz de ilustrar, na exposição, conhecimento produzido alhures. A importância da iconografia se funda numa concepção visual da História, magistra vitae, e no poder de evocação e celebração da imagem. Por isso, o museu não apenas coleta documentos iconográficos, como passa a produzi-los, encomendando-os a pintores e escultores, segundo prescrições bem definidas. Finalmente, é o prédio inteiro, arquitetura e um oceano de figuras que, do saguão ao salão nobre, passando pela escadaria monumental, com seus quadros, nichos, molduras e brasões estucados, plataformas e bases para esculturas etc., se organiza alegoricamente para evocar e celebrar a transformação do território em nação independente. Taunay, nos anos 20, introduz nesse imaginário da Independência a ideologia paulista (o projeto hegemônico de São Paulo na República Velha estava, então, sendo contestado). O bandeirante, associado à proeza da extensão do território e predecessor do tropeiro, do fazendeiro de café e do capitão de indústria, tem suas iconografia e ideologia gestadas no Museu Paulista. A presença do bandeirante serve para avaliar a autonomia da História com relação às demais áreas de conhecimento no museu: este predador de índios convive pacificamente com sua presa, abrigada na seção etnográfica... Aliás, o índio da História (por exemplo, de uma tela como O desembarque de Cabral em Porto Seguro, 1500, de Oscar Pereira da Silva) e o índio documentado pela Arqueologia e pela Etnografia sempre mantiveram identidades separadas, sem
292MENESES, Ulpiano T. Bezerra de. “Do teatro da memória ao laboratório da História: a exposição museológica e o conhecimento histórico”. In: Anais do Museu Paulista. Nova Série, v. 2, p. 9-42, jan/dez.
jamais se terem cruzado sob o mesmo teto institucional. Este descompromisso da História como forma de conhecimento é o que explica o fato de o acervo museológico do Museu Paulista nunca ter sido utilizado como fonte para a pesquisa histórica. Não era esta a sua função. Era, sim, a do Arquivo Histórico, criado pelo mesmo Taunay – autor, diga-se de passagem, de uma obra copiosa, toda ela basicamente fundamentada em fontes escritas”.293