A Crônica (Chronicon), do abade Regino de Prüm, não aparece entre as fontes tradicionais do “dossiê” feudal, como as obras de Ademar de Chabannes ou de Raul Glaber, escritas posteriormente, já no período do Ano Mil.111 No entanto, se a “mutação feudal” decorre de uma crise do poder público, a Crônica, finalizada no começo do século X, pode ser vista como um testemunho fundamental a respeito do colapso carolíngio.112
A Crônica foi caracterizada como a última grande obra de História produzida no período, logo, Regino seria o último historiador carolíngio. A obra foi também considerada uma das quatro grandes fontes sobre a segunda metade do século IX, ao lado dos Anais de Fulda, Saint-Bertin e Saint Vaast. Porém, tal importância histórica não se traduziu em um número abundante de estudos a seu respeito. A edição em latim mais utilizada foi publicada
111 Georges Duby elencou algumas fontes essenciais para as teses sobre o Ano Mil: os poemas de Adalbero de Laon, a Crônica de Ademar de Chabannes, a Vita de Roberto, o Piedoso, escrita por Helgaud de Fleury, Os Milagres de São Bento, os Liber Miraculorum sancte Fidis, a História da França, de Richer e as Histórias, de Raul Glaber. DUBY, Georges. L’An Mil. Paris: Gallimard, 1980.
112AIRLIE, Stuart. Les élites em 888 et après, ou comment pense-t-on la crise carolingienne? In. BOUGARD, F.; FELLER, L.; LE JAN, R. (eds.). Les Élites au Haut Moyen Âge. Crises et Renouvellements. Turnhout: Brepols, 2006, pp. 425-437; Id. AIRLIE, Stuart. ‘Sad stories of the deaths of ings’: Narrative Patterns and Structures of Authority in Regino of Prüm’s Chronicon. In. TYLER, Elizabeth. M; BALZARETTI, Ross (eds.). Narrative and
History in the Early Medieval West. Turnhout: Brepols, 2006, pp. 105-131; MACLEAN, Simon. Insinuation,
Censorship and the Struggle for Late Carolingian Lotharingia in Regino of Prüm’s Chronicle. The English
Historical Review, v. CXXIV, n. 506, Feb., 2009, pp. 1-28; Id. (trad.). History and Politics in Late Carolingian and Ottonian Europe. The Chronicle of Regino of Prüm and Adalbert of Magdeburg. Manchester: Manchester
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apenas em 1890, pelo alemão Friedrich Kurze, acabou sendo alvo de diversas críticas.113 De acordo com Wolf-Rüdiger Schleidgen, o método utilizado por Kurze levantou uma série de questões, das quais duas se destacaram. A primeira diz respeito à consulta aos manuscritos: Kurze examinou apenas sete dos trinta manuscritos conhecidos. O segundo problema se encontra nos critérios utilizados para estabelecer as relações entre os documentos, que não são conhecidos.114 Para Schleidgen, a divisão dos manuscritos em dois grupos de transmissão, grupo A (textos editados pelo Bispo Adalberto de Magdeburgo, às vezes citado como Adalberto de São Maximiliano ou de Trier, responsável pela continuação da Crônica)115 e grupo B, foi muito simplista (não existem estudos significativos sobre a circulação dos manuscritos e comparações linguísticas/estilísticas).116 Entretanto, apesar dos problemas com a edição, ela ainda se constitui como uma fonte importante e foi utilizada pelo historiador Simon MacLean para a publicação da primeira versão em língua moderna. A obra, traduzida para o inglês, foi lançada em 2009.117
A Crônica, mesmo tendo sido colocada, ainda no século XIX, entre as principais crônicas medievais, pouco foi considerada como um trabalho de historiografia.118 Isso teria ocorrido, em parte, pela maior atenção dada aos outros trabalhos de Regino – ele escreveu um
113 KURZE, Friedrich (ed.). Reginonis abbatis Prumiensis Chronicon cum continuatione Treverensi. Monumenta Germanica Historica. Scriptores, Rerum Germanicarum in usum scholarum separatim editi 50. Hanover: Impensis Bibliopolii Hahniani, 1890. Há uma edição mais antiga, também publicada nos Monumenta Germanica
Historica, em 1826, porém, sem anotações do editor. Reginonis Chronicon. In. PERTZ, Georgius Henricus (ed.). Annales et chronica aevi Carolini. Monumenta Germanica Historica, Scriptores (in folio), Tomo I. Hanover:
Impensis Bibliopolii Hahniani, 1826, pp. 537-629.
114 SCHLEIDGEN, W.-R. Die Überlieferungsgeschichte der Chronik des Regino von Prüm. Mainz: Selbstverlag der Gesellschaft für mittelrheinische Kirchengeschichte, 1977, pp. 7-13; FRASE, M. Friede und
Königsherrrschaft. Quellenkritik und Interpretation der Continuatio Reginonis. Frankfurt: Lang, 1990, pp. 19-43 apud MACLEAN, Simon. History and Politics in Late Carolingian and Ottonian Europe. The Chronicle of Regino of Prüm and Adalbert of Magdeburg. Manchester: Manchester University Press, 2009, p. 59.
115 Segundo análises linguísticas feitas por PRINZ, Otto. Die Überarbeitung der Chronik Reginos aus sprachlicher Sicht. In. ÖNNERFORS, A.; RATHOFER, J.; WAGNER, F. (eds.). Literatur und Sprache im
europäischen Mittelalter. Festschrift für Karl Langosch. Darmstadt: Wissenschaftliche Buchgesellschaft, 1973,
pp. 122-141.
116 Não existe o manuscrito autógrafo, mas muitos dos manuscritos que foram preservados não são tão tardios, sendo 22 deles datados do século X ao século XII, enquanto que pelo menos uma geração de manuscritos perdidos se situa entre o testemunho mais antigo e o arquétipo. Isso significa que o grupo B também pode ter sido alterado e editado, mesmo que não tenha sido por Adalberto. Sobre a tradição manuscrita da Crônica, ver KURZE, Friedrich (ed.). op. cit., pp. XI-XVI (em latim).
117 MACLEAN, Simon. History and Politics in Late Carolingian and Ottonian Europe. The Chronicle of Regino
of Prüm and Adalbert of Magdeburg. Manchester: Manchester University Press, 2009, p. 59.
118 DÜMMLER, Esnst. Geschichte des ostfränkischen Reiches. Leipzig: Duncker & Humblot, 1887, III, p. 657 apud MACLEAN, Simon. Insinuation, Censorship..., p. 6.
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livro de leis canônicas, De synodalibus causis (906)119 e um tratado sobre música canônica, De harmonica institutione (900-915)120 –, pela problemática transmissão manuscrita da obra, pelo grande débito de Regino para com os autores clássicos e pela leitura fragmentada da obra, que sempre privilegiou passagens individuais sobre aspectos de história política presentes no livro II. Apenas recentemente, alguns historiadores, como Hans-Werner Goetz,121 Stuart Airlie,122 e Rosamond McKitterick,123 começaram a atentar para a necessidade de se ler a obra como um todo, levando em consideração seus principais temas e estruturas, e a vê-la como um possível trabalho de História.124