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Como em qualquer outro periódico popular de divulgação científica, a revista Hobby era repleta de imagens. Os artigos, em sua maioria, vinham acompanhados de ilustrações, cujo principal objetivo consistia em demonstrar as etapas de algum experimento ou construção de um objeto. Mas o que nos chamou a atenção foi a presença em todas as edições de uma história em quadrinhos26 com um personagem fixo, Don Simón, que acabou imprimindo uma identidade à publicação. Mesclando humor e temas centrados na atividade inventiva, as histórias tornavam a leitura da revista mais atrativa e cumpriam o papel de motivar os leitores a praticar um hobby e/ou incentivá-los a se tornarem inventores.

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Cabe ressaltar, que vamos nos referir às tiras e ilustrações que ocupavam um página inteira na revista como quadrinhos, apesar de haver uma distinção entre estes, tiras e cartoons. TATALOVIC (2009, p. 2), nos mostra que as tiras são similares às revistas em quadrinhos, em que apresentam imagens associadas a textos em quadros sequenciais, porém contam uma história curta. Já os

Muito populares, a partir do início do século XX, os quadrinhos passaram a incorporar muitos elementos da ciência e da tecnologia (DANTON, 1997). Embora apresentassem, algumas vezes, uma visão estereotipada da ciência ou do cientista, não deixavam de ser um meio de comunicar e servir de referência para fatos ou ideias científicas (TATALOVIC, 2009). Por outro lado, como representação social, as imagens e textos dos quadrinhos tornaram a ciência e a tecnologia mais plausíveis para os leitores e são considerados pela historiografia como meios popularização da ciência27.

Afirmamos, acima, que os quadrinhos tem um papel importante na divulgação científica e, como tal, nos perguntamos como a revista Hobby utilizava este meio e quais representações de ciência estavam presentes neste suporte? Intitulada “Don Simón e seu hobby”, a seção de quadrinhos apareceu pela primeira vez no segundo número da revista e não deixou de ser publicada em nenhuma das 118 edições seguintes e por nós analisadas (Apêndice A). Quando a seção de quadrinhos Don

Simón despontou na publicação, o diretor demonstrou que a seção já fazia parte do

seu programa e apontava o propósito de ser uma referência para os leitores.

A referida seção possuía três personagens principais: Don Simón, um senhor dedicado a praticar hobbies e inventar diferentes aparatos para, principalmente, ajudar nas tarefas e melhorar o bem-estar no dia a dia; Tito, o filho, cuja principal ação consistia em testar e atrapalhar os inventos e, finalmente, a esposa que não confiava no bom funcionamento dos aparelhos criados por Don Simón e estava sempre a reclamar da bagunça e dos barulhos por ele produzidos. Numa análise mais detalhada das pequenas histórias, percebemos que dentre os diferentes valores veiculados, fossem eles revelados de forma explícita ou implícita, os mais recorrentes eram aqueles que a revista a considerava significativos para os leitores

hobbistas se apropriarem. Cada diferente história conjugava valores por meio das

ações dos personagens como, curiosidade, criatividade, perseverança, espírito

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Autores como Cooter e Pumfrey (1994), Basalla (1976) e Bueno (1985), reconhecem que as histórias em quadrinhos são modos de popularização da ciência dentre os muitos meios de transmissão do conhecimento científico na sociedade. Como exemplo de pesquisa temos a de Hansen (2004), que analisa os quadrinhos dos anos 1940 e demonstra como retratavam figuras da história da medicina e transmitiam valores e informações a fim de popularizar a ciência e celebrar as conquistas da área médica. Também podemos citar o estudo de Locke (2005), cujo principal foco de análise são as representações da ciência nas revistas em quadrinhos de super-heróis. O autor afirma que em consequência do status inferior atribuído a esse tipo de publicação na cultura anglo- americana, pouco foi estudado.

altruísta e busca sistemática pelo conhecimento. Afinal de contas, Don Simón também era um leitor assíduo de Hobby, pois em várias ocasiões ele interagia com o diretor. Uma das intervenções do personagem ocorreu durante os problemas de abastecimento de papel causados durante a Segunda Guerra Mundial. Imbuído do espírito altruísta, Don Simón, ao refletir sobre qual o melhor presente para o diretor pelos 5 anos de aniversário da revista Hobby, decide inventar um papel elástico para solucionar a escassez de matéria-prima da revista. Uma das falas do personagem nos quadrinhos destaca o papel da seção tanto para os leitores, quanto para a própria publicação: “El diretor quedará encantado! Hoy en dia, regalar una bobina de papel, es un lujo de millonario (HOBBY, n. 72, jul. 1942). O personagem também agia como porta-voz do diretor na medida em que transmitia mensagens relacionadas ao projeto editorial.

Fosse qual fosse o problema ou acontecimento, Don Simón sempre surgia com uma nova ideia a ser implementada e, naturalmente, Tito não perdia uma oportunidade de atrapalhar a finalização dos inventos. Não se importava com as críticas da esposa, vizinhos ou visitas, apenas mantinha a convicção de estar fazendo o que era correto. Ao completar o primeiro ano de circulação, o diretor informa uma mudança no direcionamento do personagem:

Una adhesión inusitada: El optimista Don Simón cambia radicalmente sus concepciones técnico-práticas. Su supervisión lo llevará a realizar creaciones assombrosas y, todo, mediante simplíssimos procedimentos, como se verá este número (HOBBY, n. 12, jul. 1937).

Mas o que significa a afirmação do diretor quanto a mudança radical nas concepções técnico-práticas de Don Simón? Como a imagem (Figura 3) nos mostra, o personagem para realizar uma simples ação de apagar uma vela, faz uso de toda a sua criatividade ao criar um mecanismo complexo para realizar a tarefa. É interessante notarmos que a utilização de materiais e componentes são de fácil acesso e podem ser encontrados na própria casa. Isto significa que qualquer pessoa teria condições de produzir inventos com o material encontrado na própria casa. Visualizamos objetos como vassoura, regador, fios e caixotes, que integrados numa montagem “técnica” cumprem o seu objetivo. A praticidade, está no acionamento do pedal, como Don Simón chama a atenção, “se apreta con el pie esta tablita y... listo! Mecanicamente se apaga la vela... (HOBBY, n. 12, jul. 1937).

FIGURA 3 – Don Simón cria um novo aparato para apagar velas Fonte: Hobby, n. 12, jul. 1937

Mas essas mudanças do personagem não tiveram o caráter tão radical como alarmado pelo diretor, uma vez que as semelhanças entre as histórias publicadas permaneceram ao longo da publicação. Apenas alguns inventos ficaram mais elaborados e “práticos”. É provável que por ocasião do aniversário de um ano da revista, o diretor desejasse reforçar o projeto editorial da revista e impulsionar o aumento das vendas. Ao veicular uma seção de quadrinhos, com personagens

retratados de forma bem-humorada e capaz de abordar situações cotidianas da atividade hobbista, tinha a capacidade de criar afinidade com os leitores. Era como se o personagem Don Simón fosse um leitor caricaturizado, com as suas habilidades e ideias apresentadas em exagero.

A mudança mais significativa que pudemos identificar na produção foi a troca de desenhista dos quadrinhos. Durante cinco anos a autoria dos desenhos ficou a cargo de Skitt, pseudônimo de Oscar Sacco, criador de personagens infantis para outras publicações28 (LUCIO, 1987, p. 360). Ao que parece, a criação dos quadrinhos de Don Simón eram compartilhados com outros autores, Franchot, pseudônimo de Roberto Serrano e Domingo Mirco Repetto, como afirma Lucio (1987). Franchot, como participante da equipe e responsável pela arte gráfica da publicação, deve ter participado da criação do personagem e opinado sobre as temáticas das histórias. Como autor da capa do número trinta e sete, cujo tema refere-se a um sonho de Don Simón, percebemos uma grande semelhança nos traços dos desenhos, o que nos sinaliza a sua participação na realização da seção. Além disso, Franchot assume a seção a partir da edição de número cento e vinte, publicada em junho de 1946. No período entre 1941 e 1946, Mirco Repetto assinou as histórias. Nessa época, Repetto já era autor da famosa personagem La Vaca

Aurora e o seu traço se distinguia dos demais autores de Don Simón. Contudo, os

elementos que compunham o cerne das histórias permaneceram e as poucas alterações observadas nesse período foi a ausência, em alguns quadrinhos, das histórias. Ainda que o personagem estivesse presente, a seção apresentava vários inventos criados por Don Simón e com a mesma criatividade própria da sua personalidade.

Cabe ressaltar, que as mudanças de autoria não foram sinalizadas pela direção da revista e a seção prosseguiu sendo veiculada sem qualquer menção sobre os motivos da alteração, o que nos permite supor que era de interesse da editoria chamar a atenção dos leitores para o fato. A continuidade da seção, os valores passados e a valorização do personagem, chegando a estampar a capa da revista, proporcionava uma percepção de que o personagem conferia identidade e reconhecimento à publicação.

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Benzer Belgeler