O Plano Municipal de Saneamento de Belo Horizonte, em conjunto com a Política Municipal de Saneamento, definem que as ações de saneamento devem ser direcionadas por princípios como a busca pela universalização dos serviços, a democratização e a transparência dos processos decisórios. Além disso, defende a prevalência do interesse público sobre o privado e propõe a adoção de mecanismos eficazes de controle social e a participação popular. Esses princípios, em tese, deveriam estar presentes, no Plano e a constatação deste fato torna-se importante para a avaliação do planejamento elaborado. Entretanto, a metodologia adotada privilegia a visão técnica dos especialistas, que, acreditam terem a sensibilidade para perceber as demandas dos atores sociais sem a necessidade de ouvi-los. O planejamento é construído de forma fragmentada por duas equipes de planejadores distintas. Enquanto o plano de água de abastecimento e o de esgotamento sanitário são conduzidos pela Copasa, incorporando valores de mercado, o planos de resíduos sólidos e o de drenagem urbana são elaborados pela equipe da
Prefeitura, estruturando-se com o foco no social. A compilação final, realizada pela Prefeitura, tenta conciliar ou superar os problemas provocados pelas diferenças de vis ão. As metas não colocadas de forma clara e os critérios para acompanhamento e avaliação não são definidos. A metodologia adota os princípios do Planejamento Tradicional, não apresentando coerência com os valores citados na fundamentação declarada do PMSBH, tais como participação popular, controle social e transparência.
O diagnóstico foi realizado em bases exclusivamente técnicas, buscando estudar os aspectos qualitativos, com base em índices quantitativos, construídos a partir de bases estatísticas. Apresenta uma única explicação da realidade, já que dele somente participaram os planejadores, assumindo as características da metodologia tradicional. Assim, não permite a incorporação dos princípios assumidos na fundamentação declarada,
tais como ―a democratização, [...] e a participação popular‖, não apresentando coerência.
Adotou-se no Plano uma única possibilidade de futuro, construída a partir dos diagnósticos e da visão dos planejadores. Vislumbra-se um horizonte de quatro anos, quando uma nova revisão seria realizada, sendo, portanto, elaborada apenas uma visão pró-ativa para o curto prazo. A visão de futuro adotada é harmônica com os princípios encontrados na metodologia e no diagnóstico, estando em acordo com o modelo tradicional de planejamento, o que inviabiliza a incorporação do princípio participativo e do controle social propostos na fundamentação declarada, não apresentado coerência.
A sociedade não esteve presente na elaboração do PMSBH. A metodologia tradicional adotada não permitiu a incorporação dos princípios compromissados na fundamentação
declarada, tais como ―a negociação política, a transparência dos processos decisórios, o controle social‖. Segundo a Política Municipal de Saneamento, a participação dos atores
sociais deveria ocorrer no âmbito do Comusa, fórum, em tese, destinado a permitir à sociedade exercer seu controle sobre as ações de saneamento. Entretanto, as entrevistas realizadas mostraram que esse discurso não conseguiu ultrapassar o nível das intenções, não apresentando, portanto, coerência com os princípios declarados.
Na pesquisa, ficou caracterizada a existência de divergências entre a visão de mundo assumida pelo prestador de serviços de água e esgoto e a da Prefeitura. A Copasa mantém sua centralidade nos valores de mercado, já que ―a empresa tem que responder a um investidor privado na bolsa, e hoje em dia isso se somou às preocupações que eles já
tinham‖ (T20). Já a Prefeitura, em seu planejamento de resíduos sólidos e drenagem urbana, mantém sua centralidade nos valores sociais. ―Nós (a Prefeitura) não arrecadamos tarifa e o (retorno econômico) não é considerado‖ (T20).
Observa-se que o mecanismo utilizado para superar as divergências de visão de mundo entre a Copasa e os planejadores da PMBH é anterior ao primeiro PMSBH. Envolve a introdução do modelo de Gestão Compartilhada dos serviços de fornecimento de água e esgotamento sanitário para Belo Horizonte, o que exigiu negociações da Prefeitura com uma empresa de capital misto que opera serviços públicos essenciais para a sociedade. Nesse contexto, a solução encontrada para compatibilizar os interesses da Copasa com os da Prefeitura, visando ao atendimento da população mais carente no que se refere ao serviço de esgotamento, culminou na celebração do Convênio de Cooperação, em 13 de novembro de 2002. A Prefeitura assumiu a responsabilidade de levar o saneamento a essa população com recursos repassados pela Copasa. Esse acordo adequa-se ao ideário defendido por Boyer (1999) sobre a complementariedade do Estado e o mercado.
Segundo Boyer (1999:17), a ruptura do Consenso de Washington, em 1998, ―trouxe um alento para a superação do dilema Estado x mercado, pois atualmente já se sabe que o sucesso do desenvolvimento se deve à complementaridade dessas duas lógicas e não à afirmação de uma delas‖. Pesquisas contemporâneas mostram que ―os ordenamentos institucionais intermediários entre o Estado e o mercado‖, tais como a associações, as comunidades e as parcerias, são determinantes para a conciliação do crescimento da produtividade, da qualidade de vida e da justiça social, além de uma repartição menos desigual dos dividendos do crescimento. Na visão de Boyer (1999:17), a teoria econômica moderna não avaliza os dogmatismos e as ideologias que opõem as concepções intervencionistas à visão liberal, devendo-se, portanto, ―compensar as falhas do mercado por meio de intervenções públicas adequadas e, vice-versa, ultrapassando as limitações do Estado, graças a processos que mimetizem a concorrência do mercado‖.
Observa-se que esse acordo foi celebrado após intensa disputa entre a Prefeitura e a Copasa. Deveria, em tese, viabilizar o acesso da população mais pobre aos serviços de água e esgotamento sanitário oficial, de forma a contribuir para que esse segmento da população viesse a ter melhor qualidade de vida e maior dignidade. Entretanto, segundo os planejadores da Prefeitura, a relação entre a PMBH e o prestador de serviços de água e
esgoto não seria sempre tão harmônica. Assim, em alguns momentos a ―Copasa diz que vai fazer (alguma ação) e ela faz independente da Prefeitura querer ou não‖ (T20).
Observou-se que a Copasa, mantendo em sua centralidade os critérios de viabilidade econômica para suas ações, estaria alinhada com a racionalidade de mercado. Ações planejadas ou implementadas dessa forma remetem a Polanyi, para quem a subordinação da sociedade às leis de mercado acaba por embutir a substância das relações sociais no sistema econômico.
Já quanto ao plano de resíduos sólidos e ao de drenagem urbana verifica-se que não há a preponderância de critérios econômicos, tais como retorno do investimento e preocupações com a relação custo-benefício. Ao contrário, prevalecem as necessidades sociais assumidas em programas como o de varrição, o de limpeza de bocas de lobo, o de recolhimento de animais mortos, o de coleta seletiva dos materiais recicláveis, e o de recolhimento de pneus, associado ao programa de controle da dengue, entre outros.
Os depoimentos dos atores entrevistados permitem inferir que as decisões relativas à elaboração ou implementação do PMSBH, em tese, estariam centralizadas em três grupos: o dos planejadores da Copasa, que determina os planos e as ações referentes a água e esgoto; o dos planejadores municipais, que delibera sobre os planos de resíduos sólidos e drenagem urbana, além de empreender negociações com a Copasa; e o exógeno ao planejamento, ligado à alta hierarquia municipal, que interfere na implementação das ações previstas no planejamento.
A concentração do poder decisório no âmbito público, tal como adotada no PMSBH, é questionada por autores como Restrepo (1990:76), para quem o Estado deve ser representativo da vontade popular, cujo fundamento de sua legitimidade está no consenso em que se apoia. Assim, ―a essência da democracia moderna‖ não se limitaria ao aspecto político, envolvendo também os aspectos econômicos e sociais. ―A democracia social é uma radicalização consequente da ideia de soberania política do povo. Sem essa ideia fundamental, baseada na noção moderna de direito natural, retorna-se necessariamente a uma forma de absolutismo‖ (RESTREPO, 1990:76).
Observou-se, ainda que, a Copasa planeja suas ações com base em sua natureza, ou seja, como uma empresa comprometida com a lucratividade, assumindo uma racionalidade de mercado. Já a Prefeitura planeja com centralidade no aspecto social, assumindo a
racionalidade social. O Plano final formulado, em que pese ao esforço da Prefeitura para manter sua centralidade no social, traz alguns valores de mercado, assumindo a racionalidade de mercado quando a visão da Copasa prevalece e a racionalidade social quando prevalecem os princípios defendidos pela Prefeitura.