4. AYAZMA KENTSEL YENİLEME UYGULAMASI – YENİLEME
4.2 Ayazma Kentsel Yenileme Uygulamasında Yenileme Yaklaşımı 48
4.3.2 Sosyal analizler 59
A equipe técnica da Casa era composta no total por nove pessoas: 03 residentes- monitores, 03 profissionais da área da saúde (sendo duas psicólogas e um médico psiquiatra), um estudante de psicologia, além da coordenadora e, posteriormente, um terapeuta, chamado para ajudar na organização geral da instituição.
À exceção das psicólogas e do psiquiatra, todos os outros membros da equipe técnica eram pessoas que possuíam em suas trajetórias de vida o histórico pessoal relacionado à dependência química, embora a maioria delas estivesse abstinente havia anos.
Dentre os residentes-monitores, Daniel ocupava um papel central, conduzindo grupos terapêuticos pautados na filosofia dos 12 passos. Era uma referência terapêutica bastante importante, tanto para os demais pacientes, quanto para seus familiares.
área administrativa da organização e não junto aos pacientes. Preparava-se para atuar futuramente mais diretamente com os pacientes-moradores, como acompanhante terapêutica.
Carlos era também um paciente-morador e, enquanto membro da equipe-técnica, sua função era organizar as refeições, havendo a perspectiva de que assumisse a área comercial da instituição, já que tinha experiência profissional nesta área.
Conforme dito anteriormente, Patrícia, a coordenadora, era a pessoa central ao funcionamento da Casa, sobretudo clinicamente. Foi quem fundou a entidade, dando o tom do tratamento disponibilizado. Planejava com cada residente os projetos terapêuticos pessoais, atuando diretamente sobre o percurso clínico de cada residente. Sua história de vida já era em si um exemplo importante para os pacientes, servindo-lhes de modelo a ser seguido. A confiança que possuíam em seu trabalho estava diretamente atrelada à confiança que tinham em sua honestidade. Estes dois aspectos constituíam, nas falas emergentes, ingredientes terapêuticos centrais ao tratamento ali disponibilizado, sobretudo considerando-se as precárias experiências de tratamento já vivenciadas pela maioria dos residentes da Casa.
Embora as duas psicólogas da equipe tivessem experiência na área clínica, nenhuma delas possuía experiência prévia de atendimento a dependentes químicos. A trajetória profissional de uma delas incluía um trabalho extenso com crianças reclusas na FEBEM, conferindo-lhe certa familiaridade e repertório para trabalhar com a população da Casa. Esta psicóloga foi indicada para trabalhar na Casa por Daniel, que a conhecera no Curso de Acompanhamento Terapêutico realizado na UNIAD – curso que ela escolhera fazer justamente em função de seu trabalho com os adolescentes da FEBEM, para quem a problemática relacionada ao consumo de drogas é também uma constante. Esta psicóloga realizava os atendimentos individuais dos pacientes da Casa.
Já a outra psicóloga chegou à Casa por um caminho bastante inusual: foi convidada a conhecer a organização por um residente da Casa, que a conhecera em um parque da cidade de São Paulo, enquanto ela praticava o Falun Dafa, uma arte oriental. Acertada a sua entrada na organização, passou a conduzir na Casa um grupo de Falun Dafa e também a coordenar outro grupo voltado à discussão das questões cotidianas do funcionamento da organização.
O psiquiatra também chegou à Casa por intermédio de um dos pacientes-moradores. E assim como as psicólogas, também não possuía experiência prévia no atendimento a dependentes químicos. Sua parceria com a organização constituía-se no acompanhamento psiquiátrico dos pacientes da Casa, prestado em seu consultório particular.
Nenhum dos profissionais da equipe técnica trabalhava em regime celetista. O psiquiatra recebia seus honorários por cada atendimento realizado, enquanto as psicólogas recebiam um valor fixo por mês, inexistindo um contrato formal de trabalho que regulamentasse sua atuação junto à entidade.
A mesma situação caracterizava o trabalho dos residentes-monitores, com a diferença de que não eram remunerados pelo trabalho realizado. Por vezes recebiam uma ajuda de custo de Patrícia, para algumas despesas pessoais. Outras vezes, a Casa lhes custeava a participação em cursos de curta duração, relacionados à atuação em dependência química. Tais ajudas, contudo, eram intermitentes, impossibilitando-os de se organizarem com base nos eventuais rendimentos.
Para os residentes-monitores, as condições de trabalho também não estavam claramente definidas, sequer parâmetros básicos como o horário de trabalho e os dias de folga. Considerando que eles moravam na residência terapêutica em que trabalhavam, a exposição em tempo integral às demandas do ambiente de trabalho constituía-se, por vezes, bastante nociva às suas saúdes pessoais. Só não se revelavam ainda mais prejudiciais aos residentes-monitores, em função de uma característica intrínseca a esta situação: o fato de exercerem uma atividade de trabalho que ficava na fronteira entre o terapêutico e o profissional. Na prática, isto significa que, frequentemente, para a maioria das pessoas que está em tratamento para a dependência química, começar a trabalhar neste campo, auxiliando outros dependentes, constitui um recurso terapêutico à sua própria recuperação, na medida em que passam a ocupar um novo lugar social, com novas responsabilidades e funções.
Esta é a crença que prevalece neste campo de atuação, quando consideramos a dependência química como fonte de trabalho para quem está em recuperação; uma crença que acaba por naturalizar práticas potencialmente perigosas. Não é difícil imaginar toda ordem de abusos que pode decorrer destas práticas disseminadas, variando desde a exploração intencional de mão-de-obra barata ou gratuita, até
prejuízos decorrentes da dificuldade de discriminar papéis e funções – característica tão evidente no campo da dependência química. Este último caso é o que parece dar origem à situação observada na residência terapêutica pesquisada.
Embora o trabalho terapêutico desenvolvido na Casa contasse com uma equipe que incluía estes três profissionais da saúde, o direcionamento do atendimento prestado ficava bastante centrado na figura da coordenadora. Esta configuração era viável enquanto a Casa estava recém-inaugurada e contava ainda com poucos pacientes. Conforme a organização cresceu, aumentando o número de pacientes-moradores e a complexidade envolvida na administração, tornou-se clara a impossibilidade de que Patrícia continuasse a exercer a função de referência central aos pacientes, sobretudo em relação ao planejamento de seus percursos clínicos. Esta impossibilidade evidenciava-se claramente em seus períodos prolongados de afastamento da Casa. Nestes períodos, conforme descrito anteriormente, era notável a desorganização que gradualmente se instalava no cotidiano da organização, sobretudo entre os residentes monitores, que se viam responsáveis por cuidar dos demais pacientes-moradores, embora ficassem, eles próprios, muito desamparados e fragilizados com a ausência prolongada de Patrícia da Casa.
Foi neste contexto que entrou em cena Milton, para auxiliar na organização geral da Casa. Milton era empresário, ex-marido de Patrícia e possuía bastante experiência no tratamento da dependência química, ele próprio em abstinência havia muitos anos. A entrada de Milton deu-se já no final de existência da Casa, dois meses antes do seu fechamento, em dezembro de 2008. Embora tenha sido um período de tempo bastante restrito, foi suficiente para gerar modificações importantes no funcionamento da organização, em direção a uma maior discriminação de papéis, funções e também em relação ao funcionamento cotidiano da Casa.
Neste período, foram revistos a grade de atividades terapêuticas, o horário das refeições, bem como as funções dos residentes-monitores. Esta alteração, na prática, repercutiu em uma restrição da função clínica dos monitores, que deixaram de frequentar as reuniões da equipe técnica.
A frequência dos residentes-monitores às reuniões clínicas da equipe técnica causava-me bastante estranhamento, pois era notável a intranquilidade que os tomava quando tinham de discutir clinicamente sobre a situação e as necessidades dos demais colegas
residentes, justamente por serem pares, uma vez que todos ali eram pacientes- moradores da organização. Esta confusão de papéis e funções, presente ao longo de todo o trabalho de campo, evidenciava-se sobremaneira nos momentos de reunião clínica da equipe técnica. E o estranhamento que me tomava nestas ocasiões relacionava-se, não à função de pesquisadora que ali me caracterizava, mas à minha experiência como psicóloga clínica, acostumada a atuar em equipes interdisciplinares compostas exclusivamente por profissionais da saúde. Foi interessante confrontar-me com aquele arranjo novo de trabalho, não apenas possível, como efetivamente existente, em diversos contextos terapêuticos.
As mudanças ocasionadas a partir da entrada de Milton geraram um mal-estar notável entre os residentes-monitores e entre os demais pacientes, ao forçar ações em direção a uma maior discriminação. Os efeitos de tais mudanças, contudo, não puderam ser avaliados, já que a Casa logo fechou.