De acordo com o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa24 (DPLP), as formas
“isso” e “isto”, normalmente utilizadas como sinônimas em textos orais e escritos,
correspondem a um pronome demonstrativo neutro que pode ser empregado como advérbio ou como interjeição. Quando empregados no texto, esses demonstrativos tendem a desempenhar um papel ainda mais abrangente, pois são formas recorrentes de sumarização de segmentos textuais.
Segundo Conte ([1996] 2003), a preferência pelo demonstrativo nas ocorrências de encapsulamentos se justifica pelo seu caráter intrinsicamente dêitico, o que permite a esse anafórico apresentar o objeto de discurso ao leitor, em um processo de focalização. Para a autora, o demonstrativo também pode ser considerado uma forma de instrução ao leitor, pois indica em que parte do cotexto está o referente encapsulado pela anáfora, como pode ser percebido no exemplo a seguir:
(34) Acabou-se o que era doce. Com o episódio “Start to finish”, chegou ao fim a metade da sexta
temporada de “The walking dead” (na Fox). Agora só em 2016. Daqui para a frente tem spoiler.
Quem acompanha a série ficou com a sensação de que este ano ela foi escrita por outros roteiristas. Digo isso sem qualificar, apenas como uma constatação (embora tenha gostado muito da temporada). O público prendeu a respiração até que o destino de Glenn (Steven Yeun) ficasse esclarecido. Houve mortos, mordidos e feridos, a luta pela sobrevivência continuou ardida. Porém, o enredo se deteve no que se passava nos corações e mentes e correu mais embalado pela angústia do que nunca. Os personagens empreenderam longas discussões sobre temas profundos. Fizeram
isso sem serem interrompidos por zumbis. Foi muita d.r.. Houve até um episódio inteiro estrelado
apenas por dois homens vivos e uma cabra. Entre um silêncio demorado e outro, eles conversaram sobre a vida e a morte, e outras questões igualmente empolgantes. Foi diferente. E muito bom.
Porém, “Start to finish” decepcionou [...]. (Disponível em: ξhttp://goo.gl/hmCEgc>. Acesso em 02
dez. 2015).
(Disponível em: <http://goo.gl/hmCEgc>. Acesso em 02 dez. 2015).
As marcações acima evidenciam duas ocorrências do pronome demonstrativo
“isso”, que funciona como uma anáfora encapsuladora. A ausência de um lexema axiológico
constituindo uma possível expressão referencial poderia nos levar a estipular uma gradação no que concerne ao grau argumentativo dessa anáfora encapsuladora nos textos do gênero artigo de opinião, isto é, haveria uma forma menos argumentativa do que a de uma anáfora associada a uma expressão referencial ou até uma expressão referencial sem a presença de um pronome anafórico.
Ademais, nota-se que em ambas as ocorrências grifadas acima, o “isso” é utilizado como uma forma de substituição a fim de que se evite a repetição da porção
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cotextual anterior que foi posta em foco pela anáfora, o que tornaria o texto mais longo e repetitivo. Nos dois casos em que a anáfora encapsuladora foi identificada, percebe-se que há uma pontualidade no que concerne à porção do texto que foi sumarizada, embora se admita que uma anáfora encapsuladora possa resumir porções cotextuais de maior extensão e que comportam um referente mais difuso, como se pode notar no próximo exemplo:
(35)[...] Dizer, pois, que o sujeito se deslocou do pólo do eu ideal para o do ideal do eu é afirmar, ao mesmo tempo, que perdeu a certeza no que existe de absoluto e de universal nos seus enunciados. Com isso, pode caminhar no sentido de dar lugar para o outro na sua existência, reconhecendo o outro como tal e não como um simulacro de si mesmo. Apenas assim o amor do outro seria possível, no que esse implica de alteridade e de reconhecimento da diferença do outro. Porém, como já disse anteriormente, isso tudo implica a desfalicização do sujeito, a perda por ele dos seus atributos fálicos. (Disponível em: <https://goo.gl/kyzFHD>. Acesso em: 02 dez. 2015). A primeira marcação do “isso” no exemplo acima assinala um pronome anafórico
neutro com função encapsuladora. Ele retoma e substitui a porção cotextual antecedente, a qual é consideravelmente curta. A segunda ocorrência, entretanto, apresenta a expressão
referencial “isso tudo”, a qual encapsula toda a porção cotextual antecedente e apresenta uma
maior abrangência. O emprego dessa expressão continua a não apresentar um nome
axiológico, uma vez que o lexema “tudo” é um pronome indefinido empregado, nesse
contexto, como uma forma de auxiliar na focalização de todas as considerações realizadas ao longo do texto.
A partir dessas considerações, destacamos que o nosso ponto de vista é de que seria redutor considerar que os pronomes anafóricos são formas totalmente neutras e simples, pois deve-se levar em conta, sobretudo, o contexto de emprego dos lexemas como um fator- chave na instauração do seu valor linguístico. A própria plasticidade de funções discursivas dessas formas linguísticas revela a sua complexidade, que se estende ao ponto de levá-las a funcionar como uma forma avaliativa que pode ser usada para desqualificar um determinado referente, como na tirinha a seguir:
(36) Figura 1 – Tirinha
Fonte: Portal Ah Manolo! (Disponível em: <http://goo.gl/xujjHc>. Acesso em: 04 dez. 2015
A reflexão teórica traçada até o momento nos permite expandir a abrangência da categoria dos marcadores de atitude, mencionados no Quadro 3 da subseção 5.2, pois esse grupo de elementos linguísticos engloba, na verdade, todos os lexemas que, em um contexto específico, apresentam significado interpessoal ao indicarem o posicionamento do locutor frente a uma proposição ou a um referente, e não se restringe à categoria dos nomes, pois, como pudemos constatar, mesmo os pronomes não acompanhados por lexemas valorativos podem apresentar uma gama de funções discursivas, o que inclui, em casos específicos, a função avaliativa.