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O conceito de mímese ou mímesis [μίμησις] é, sem dúvida alguma, um

dos mais importantes nos estudos sobre estética e filosofia da arte e tem seu primeiro e mais importante desenvolvimento na filosofia platônica e, imediatamente depois, em Aristóteles.

Sendo traduzido normalmente por “imitação”, “cópia” e mais atualmente por “representação”, a mímese é fortemente criticada por Platão na República, onde desenvolve sua mais conhecida opinião a respeito do tema, relacionada à expulsão dos poetas, resumidamente a partir de dois pontos: a mímese artística, pois esta seria um simulacro afastado da verdadeira essência dos objetos; e, em segundo lugar e mais importante, a mímese que seduz e arrebata o sujeito, tornando-o passivo, e faz com que reproduza ações em relação à obra artística, como por exemplo, quando chora ao assistir uma cena triste em uma peça.

Por se tratar de um estudo iminentemente político, antes que estético – afinal o tema é a definição de Justiça, que passa pela necessidade de se pensar o que é uma pólis justa –, a mímese na República será considerada a partir deste ponto de vista. Mímese na época de Platão era como se denominavam as diversas manifestações artísticas uma vez que estas eram sempre vistas como uma espécie de representação do mundo. Além disso, a arte fazia parte da formação básica de um cidadão ateniense (especialmente a música e a poesia) e é por isso que para Platão fazia sentido investigar qual tipo de arte deveria e poderia estar na base da formação das “almas” dos cidadãos da pólis justa, uma vez que via na arte um grande potencial de arrebatamento irracional, que pode iludir desde uma criança até um homem adulto, e que pode influenciar na formação de uma pessoa tornando-a mais fraca, imoral, etc. – uma ideia que não tem nada de absurda se levarmos em conta que até hoje são realizadas críticas culturais que levam em conta a forma como a cultura artística e de massa incidem sobre a formação da personalidade, entre as quais a mais influente foi realizada, notadamente, por Adorno.

Assim, Platão irá encontrar na cultura de seu tempo, especialmente em episódios relatados por Homero, aspectos condenáveis: situações em que as

48 personagens agem de forma que demonstram fraquezas e torpezas que deveriam ser extintas da pólis ideal. Entretanto no dialogo Sofista irá desenvolver melhor o assunto e passará a diferenciar entre a mímese produtora de simulacros e que deve ser combatida – seguindo o mote do outro livro – e a mímese que funciona como rememoração da Ideia e que surge no discurso filosófico verdadeiro.

Já seu discípulo Aristóteles não tem uma consideração negativa da

mímese, vendo esta como algo natural ao ser humano e parte de seu

aprendizado.

Em sua Poética, obra mais conhecida em que o assunto aparece e normalmente contraposta à República de Platão, Aristóteles diz:

Ao que parece, duas causas, e ambas naturais, geraram a poesia. O imitar é congênito no homem (e nisso difere dos outros viventes, pois, de todos, é ele o mais imitador, e, por imitação, aprende as primeiras noções), e os homens se comprazem no imitado.

Sinal disso é o que acontece na experiência: nós contemplamos com prazer as imagens mais exatas daquelas mesmas coisas que olhamos com repugnância, por exemplo (as representações de) animais ferozes e (de) cadáveres. Causa é que o aprender não só muito apraz aos filósofos, mas também, igualmente, aos demais homens, se bem que menos participem dele. Efetivamente, tal é o motivo por que se deleitam perante as imagens: olhando-as, apreendem e discorrem sobre o que seja cada uma delas (e dirão), por exemplo: "esse é tal" (ARISTOTELES, 1448b).

A mímese é aqui, então, forma facilitadora do aprendizado, pois além de que tal atividade produza prazer, os homens ainda aprendem, por meio do reconhecimento do que é imitado (ou reproduzido), a respeito do próprio objeto que é imitado. Como GAGNEBIN (1993, p. 71) chama a atenção, o reconhecimento de “semelhanças” levará, “alguns parágrafos mais tarde a teoria aristotélica da ‘metáfora’: ‘Bem saber descobrir metáforas’, diz Aristóteles, ‘significa bem se aperceber das semelhanças’” (1459 a).

Parece-nos que Aristóteles não se contrapõe radicalmente à teoria negativa da mímese de Platão, embora os comentadores queiram utilizar a

Poética como contra-argumento à censura que segundo Platão deveria haver

na república. Na verdade, embora a argumentação positiva em relação à

mímese de Aristóteles faça bastante sentido, também a argumentação de

49 intocável diante da Poética e alguém poderia muito bem aceitar as críticas de Platão e não desconsiderar os aspectos positivos da mímese defendidos por Aristóteles.

Quanto a Adorno, sua concepção de mímese parece congregar os dois momentos anteriores, sem maiores problemas, seja em sua consideração negativa (mas não definitiva) da mímese como regressão, seja enquanto impulso mimético e natural no homem – mas que em Adorno certamente não se contrapõem.

A história da mímese, a partir de Adorno e Horkheimer, não é diferente daquela do não-idêntico, uma vez que essa consiste em mais uma face do que é reprimido ao longo do processo do esclarecimento, se relacionando, entretanto, em Adorno, mais com aspectos artísticos e corpóreos-impulsivos dos seres humanos, enquanto o uso do termo não-idêntico é mais geral e mais utilizado quando se trata de aspectos linguísticos do conceito em relação à natureza e aquilo que não é subsumido pelo conceito – mas tal divisão não pode ser tomada ao pé da letra.

Ou seja, a mímese é o não-idêntico que foi reprimido no homem, enquanto impulsos considerados malignos e animalescos. Ela se assemelha ao sentido da Grécia antiga por se tratar tanto de uma assimilação (e mais uma vez, uma representação) da natureza externa, presente em um primeiro momento, “na assimilação orgânica ao outro, isto é, o comportamento propriamente mimético” (DE, p. 149); passando pela manipulação organizada

da mímese tal como ocorria na magia e nos rituais, que buscavam reproduzir

os ciclos da natureza e se aproximar dos deuses; e por fim a mímese substituída pelo trabalho racional, quando então “a mimese incontrolada é proscrita” (Ibidem, idem).

Tal processo, caracterizado pela repressão da mimese, ocorre concomitantemente à assimilação da própria repressão pelo sujeito. Conforme descreve Gagnebin: é a “mímesis perversa que reproduz, na insensibilidade e no enrijecimento do sujeito, a dureza do processo pelo qual teve que passar para se adaptar ao mundo real” (GAGNEBIN, 1993, p. 74), que culmina, pois, no formato assumido pela sociedade e pelo trabalho racional – o mundo administrado e a racionalidade instrumental.

50 De qualquer forma, a mímese, bem como o não-idêntico é um conceito chave na obra de Adorno, pois representa não só aquilo que foi reprimido, mas também algo com o qual o pensamento tem que lidar “se os homens não devem ser absolutamente traídos” (DE, p. 15). Assim, nas palavras de SILVA, a

mímese “é definida como aquilo que foi reprimido pela razão e que, como um impulso em nós, testemunharia a necessidade de uma reconciliação com a natureza” (SILVA, 2005, p. 339).

Como diz GAGNEBIN (1993), o primeiro estudo do conceito de mímese realizado por Adorno e Horkheimer retoma a Grécia antiga, pois aparece na sua análise da Odisseia, na Dialética do Esclarecimento. Neste livro, Adorno e Horkheimer parecem concordar com Platão quanto a sua crítica à passividade do sujeito na mímese que, segundo a autora, foi “aprofundada graças às suas leituras de Freud e de etnologia” (p. 72), que interpretam a mímese como um comportamento regressivo.

Enquanto em Freud (1975), a mímese é caracterizada como desejo de dissolução do sujeito no nada, na etnologia aparece como uma defesa do indivíduo em relação ao perigo:

Nos textos dos etnólogos franceses da época (em particular R. Caillois e M. Mauss), citados por Adorno e Horkheimer, o comportamento mimético é caracterizado como um comportamento regressivo de assimilação ao perigo, na tentativa de desviá-lo. Seguindo o exemplo primeiro do mimetismo animal, por exemplo da borboleta imóvel que tem as mesmas linhas marrons e verdes que a folha sobre a qual repousa, o "primitivo" se cobre de folhagens para melhor desaparecer na floresta, para não ser visto pela onça que caça, mas também coloca um máscara horrenda para apaziguar, pela aproximação e pela identificação, o deus aterrorizante de que depende (GAGNEBIN, 1993, p. 72).

É preciso notar que há certo exagero quanto à interpretação da autora em relação à consideração da mímese por parte de Adorno e Horkheimer na

Dialética do Esclarecimento enquanto algo meramente negativo. Se assim

fosse, não faria sentido a “tarefa” da Dialética do Esclarecimento, qual seja, a de “preparar um conceito positivo do esclarecimento, que o solte do emaranhado que o prende a uma dominação cega” (DE, p. 15), que, segundo SILVA (2005), significa fomentar a auto-reflexão da razão, o que implica em “retomar aqueles conteúdos reprimidos na natureza, e consequentemente, no

51 próprio homem, o que significaria, no fim das contas, uma reconciliação do homem com a natureza (interna e externa)” (Ibidem, p. 336). Pois, mímese e natureza assumem aspectos semelhantes em Adorno, sendo como que um “antídoto para o desvario da razão instrumental” (Ibidem, p. 337).

Entretanto, nem todo tipo de comportamento mimético adquire essa feição salutar. Enquanto, aparentemente, não podemos perceber o que há de regressivo no exemplo trazido por Gagnebin que citamos acima – pelo contrário, a mímese nos parecendo neste caso e em casos semelhantes um ótimo mecanismo de defesa –, isso fica mais claro se remetermos ao primeiro capítulo da Dialética do Esclarecimento, especialmente no que tange à formação do “Eu”, a partir da constituição da identidade. O comportamento mimético, por se tratar de uma assimilação do heterogêneo, é, pois, uma regressão ao momento de pré-formação do sujeito no qual não havia ainda a identidade e, portanto, à passividade. Ainda que nos pareça absurda uma preocupação séria com isso, como dissemos no fim do capítulo anterior, pois nos parece impossível que de fato e permanentemente algum indivíduo se “dissolva” e regresse ao momento “pré-lógico” (salvo raras exceções de reais e indubitáveis patologias mentais), iremos demonstrar abaixo, o porquê essa regressão é preocupante, nas figuras do antissemitismo e da indústria cultural.

De qualquer forma, esse desejo de “dissolução no nada” de que fala Freud, lido por Adorno e Horkheimer, é, semelhantemente ao desejo de revolta da natureza, legítimo, prazeroso, mas ao mesmo tempo perigoso; citando Gagnebin:

Muito originariamente e profundamente, existe um desejo de dissolução, de aniquilamento dos limites que, ao mesmo tempo, constituem e aprisionam o sujeito. Esse desejo - tão bem analisado por Bataille - remete à paixão e à sexualidade, ao êxtase religioso e místico, mas também, e inseparavelmente, à dor da loucura e à decomposição da morte. Nesse sentido, a análise de Adorno e Horkheimer descobre, como Platão, na mímesis, uma ameaça ao processo mesmo da civilização: ela não só faz regredir os homens a comportamentos mágicos e míticos, mas também ameaça o processo mesmo de construção e de elaboração de formas, de regras, de limites, processo que define a civilização e, no vocabulário de nossos autores, que se ampara no processo de trabalho e no "progresso" racional- científico (GAGNEBIN, 1993, p. 73).

52 Porém, é não exatamente por isso que a ideia de civilização pode ser ameaçada pela regressão da mímese, mas da manipulação desta por agentes externos que se aproveitam daquele desejo tornando-o útil para fins da manipulação das massas.

Benzer Belgeler