Foi demonstrado que, com o Código de Processo Civil de 2015, um dos problemas para a realização do dever de fundamentação das decisões judiciais foi solucionado. Hoje, não há mais que se falar em ausência de elementos normativos que ditem o que deve ser uma decisão fundamentada. Ainda que se possa fazer críticas à opção pela técnica a contrario sensu do legislador na elaboração dos parágrafos do art. 489, difícil exigir da lei uma alternativa melhor ou mais completa. Cabe a doutrina guiar os usos e as interpretações a partir de agora, principalmente se reconhecermos que existem dois conhecimentos distintos nessa questão: um é saber que (knowing that) decisões judiciais como as traçadas, exemplificativamente, no art. 489 não são fundamentadas; e o outro, bem diferente, é saber como (knowing how) fundamentar uma decisão, sob a ótica do julgador, ou como argumentar para fundamentar um pedido e, eventualmente, cobrar essa fundamentação, quando se fala da atividade das partes48.
47 ALEXY, Robert. On Balancing and Subsumption. A Structural Comparison. Ratio Juris. v. 16, n. 4, 2003;
NEVES, Marcelo. Entre Hidra e Hércules: princípios e regras constitucionais. São Paulo: Martins Fontes, 2013; ÁVILA, Humberto. Teoria dos princípios: da definição à aplicação dos princípios jurídicos. 13. ed. São Paulo: Malheiros, 2012; BARROSO, Luis Roberto. Interpretação e Aplicação da Constituição. 6. ed. São Paulo: Saraiva, 2005.
Por isso, não se pode tomar como suficiente a introdução das normas veiculadas pelos parágrafos do art. 489 para a solução da questão, pois ainda nos restam dois outros importantes fatores a serem considerados: a heterogeneidade das questões a se fundamentar, como questões de fato49 ou questões de direito; e a existência de problemas relativos a questões extrajurídicas, as quais o direito não é capaz de resolver, sendo necessário, portanto, uma investigação transdisciplinar com essas disciplinas, como a filosofia da linguagem, a epistemologia, a ética, etc., as quais darão suporte ao Direito, se não na solução, mas de como lidar com situações ainda desconhecidas pela ciência.
Nessa toada, percebe-se que, não obstante a sua contribuição, a inovação do novo Código ainda não configura, nem de perto, um mínimo adequado para a resposta do problema. Por isso o estudo do Direito cada vez mais busca lastro e embasamento para o seu próprio desenvolvimento em outras matérias. A datar de meados do século XX, por advento de subsídios provenientes de estudo nas searas da ética filosófica, filosofia da linguagem, razão prática, e epistemologia, defende-se que na aplicação do Direito, impreterivelmente, tomam lugar diversos processos que, outrora, ainda não haviam sido apontados e estudados com a profundidade necessária para se fazer espraiar para as áreas de cunho mais aplicado, como é a jurídica50.
Nomeadamente, a distinção entre texto e norma, por exemplo, só foi possível alcançar em virtude de estudos desenvolvidos no campo da filosofia da linguagem, comprovam que a aplicação de determinado texto legislativo a um caso in concreto não evita certa atuação discricionária do juízo, pois essa é inerente à atuação jurisdicional e conta com variadas possibilidades de solução capazes de por fim ao conflito levado a apreciação.
Com base nessa distinção apontada entre os institutos da norma jurídica e do texto legislativo, pode-se tomar por exemplo de problema envolvendo a atribuição de sentido ao texto a recorrente ambiguidade, característica intrínseca das expressões linguísticas, fator que não pode, jamais, ser desconsiderado na elaboração de uma proposta para fundamentação das decisões judiciais. Entretanto, isso leva a algumas pessoas afirmarem que decisões judiciais não trazem segurança jurídica e não podem ser lógicas, já que são resultados de uma atividade
49 Este estudo dará enfoque primordial às questões de direito. É necessário um corte epistemológico para um
melhor tratamento do tema. Sobre a fundamentação acerca de questões de prova, também essencial para fornecer uma resposta completa ao problema da fundamentação cf. GUERRA, Marcelo Lima. Prova Judicial: uma introdução. Fortaleza: Boulesis, 2016; FERRER BELTRAN, Jordi; MENDONÇA, Daniel. La prueba de los hechos: a modo de presentación. Madrid: Editorial Trotta, 2002; TARUFFO, Michele. La prova dei fatti giuridici. Milano: Giuffrè, 1992; DALLAGNOL, Deltan M. As lógicas das provas no processo: prova direta, indícios e presunções. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2015.
50 GUERRA, Marcelo Lima. Interpretação e Argumentação: O modelo Toulmin e a fundamentação racional de
pessoal de um julgador. Essa é uma maneira pessimista de lidar com uma situação, já que este controle pode existir, desde que se trabalhe para encontrar uma maneira de controle racional das decisões judiciais, explicitando os elementos que nela deverão estar contidos para, então, sujeitá-las a críticas.
Quando o Poder Legislativo se utiliza de lei (texto) para comunicar a intenção de prescrever a norma, é possível verificar qual a devida importância do papel do intérprete na concretização dessas normas nos casos concretos. Um exemplo: se dado um texto normativo Tx, composto das expressões E1, E2, ..., En, havendo em pelo menos uma dessas expressões a possibilidade de uma interpretação isolada dúbia, a cada significado que se atribuir a ela, acarretará uma pluralidade de interpretações normativas globais sobre um mesmo texto normativo. O mesmo exemplo vale para o preenchimento de uma expressão vaga.
Esse reconhecimento da não identidade entre o texto legal e a norma jurídica desempenha um papel fundamental no tocante ao aprimoramento das práticas forenses, pois, de certo, ainda está muito presente o pensamento de haver uma relação biunívoca entre a norma e o texto legislativo que a veicula. Pensamento este que implica inúmeros e graves erros quanto da correta aplicação do Direito nos fóruns e tribunais pátrios.
Verifica-se facilmente que os operadores do direito, por vezes, atuam com base em conceitos não ideais sobre a atividade hermenêutica para conhecimento das normas jurídicas, sob uma concepção a qual não há que se falar em qualquer contribuição subjetiva do intérprete no processo de atribuir um sentido ao texto e, por arrastamento, de determinar as normas a serem aplicadas ao caso concreto. Sublinhe-se, outrossim, o fato de que, em muitos casos, o aplicador nem mesmo percebe o processo de interpretação que realiza, mesmo sendo ele inafastável para que se compreenda o conteúdo do texto legal, dando, frequentemente, ao trabalho de interpretar uma conotação de automatismo.
Observa-se, pois, que para estes casos, não constitui a norma jurídica simples significado de um texto legislativo, o qual apenas foi "descoberto" pelo intérprete; mas sim uma opção que ele faz sobre um sentido mais apropriado, ou seja, "escolhe atribuir a este texto, entre vários que também lhe seria possível atribuir"51. Trata-se, pela própria natureza da linguagem, da comunicação das normas por meio de textos normativos e da cognição humana, de uma situação inevitável na atividade jurisdicional. Mesmo com esse inafastável obstáculo, se faz necessário sua superação, no sentido de que essa escolha seja corretamente
51 GUERRA, Marcelo. Norma, texto e metáfora da moldura em Kelsen. In: MENDES, Gilmar Ferreira; STOCO,
Rui. (Org.). Doutrinas Essenciais: Teoria Geral do Direito. v. 1. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2011, p. 641- 659.
fundamentada e que suas razões sejam claramente explicitadas, a fim de permitir um controle de sua racionalidade, com o intuito de evitar arbítrios dos juízes.
Não há justificativa para uma escusa dos magistrados para a realização de uma rigorosa fundamentação das suas decisões. A única que importa ser considerada é o cuidado com a razoável duração do processo; todavia, ainda que deva se observar esta garantia constitucional, não se pode dizer que o tempo gasto na fundamentação das decisões é, de acordo com a classificação de Andrea Proto Pisani, uma dilação temporal patológica, mas sim fisiológica52. Os processos no Brasil não demoram pelo fato de o juiz dever fundamentar suas decisões. Se fosse este o caso, teríamos um judiciário apenas moroso, mas de boa qualidade53.
Posto isto, se a relação entre texto e o sentido do texto não é biunívoca, ou seja, se de um mesmo texto legal é possível a compreensão de diferentes sentidos, o que, no caso do Direito, implica uma variedade de alternativas de normas que podem ser tidas como solução do caso concreto, é imperioso concluir que a opção por uma entre um rol de sentidos que podem ser tidos como válidos constitui elemento de conteúdo decisório da sentença (ou decisão interlocutória) e deve, portanto, ser justificado.
É fácil ver que o Código de Processo Civil de 2015 tentou dar mais subsídios para a concretização ao dever constitucional de fundamentação das decisões judiciais pelo Poder Judiciário, refletindo um regramento mais cuidadoso do tema, trazendo para o plano infraconstitucional corolários do dever previsto no art. 93, IX da Constituição Federal. Contudo, como frisado, a inovação do novo Código ainda não responde de maneira satisfatória o problema da fundamentação das decisões, devendo ainda haver contribuições externas à dogmática jurídica que proporcionem lastro e embasamento para o desenvolvimento do assunto e repercussões práticas sólidas na cultura dos fóruns e tribunais.
Para somar ao estudo dogmático apresentado, este trabalho opta pela apresentação do modelo Toulmin, por acreditar que ele seja capaz de aprimorar a prática jurídica, dando respostas satisfatórias aos problemas que não são possíveis de resolver apenas com a novidade legislativa, e, principalmente, por ser capaz de aparar algumas arestas que existem na doutrina dominante no Brasil, de tradição hermenêutica, sobre como lidar com os limites encontrados no campo da linguagem e, principalmente, como avançar em busca de soluções para o problema da fundamentação das decisões judiciais, uma vez que esta, com a devida vênia,
52 PROTO PISANI, Andrea. Lezioni di diritto processuale civile. Napoli: Jovene, 1999, p. 631.
53 JORGE NETO, Nagibe de Melo. Abrindo a caixa preta: por que a Justiça não funciona no Brasil? Salvador:
parece estar andando em círculos. Para cumprir tal objetivo, esta doutrina dominante precisa ser previamente analisada.
3. DA HERMENÊUTICA DE GADAMER À CONSTRUÇÃO DE UM MODELO