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Entre as estátuas nó de pinho expostas no Museu Afro Brasil, significativamente, encontra-se uma figura feminina grávida. Seria supostamente uma Nossa Senhora grávida, representação ausente no imaginário cristão. Esta surpreendente representação
nos reporta a cosmologia e a religiosidade típicamente centro africanas. Referências à fertilidade, a Grande Mãe, à harmonia entre natureza e homens estão aí presentes. Os nkisi bakongo reportam-se também à fertilidade, à figura feminina e à terra.
Segundo Maria Cecília Calaça,
o artista africano (...) quando cria uma escultura materializando um ancestral masculino, deveria enfatizar a força vital, a fertilidade, a coragem, valentia e proteção. Se fosse um ancestral feminino, deveria mostrar a maternidade, a fecundidade. Logo, o ventre seria avantajado assim como as ancas e seios, e, no caso anterior, a genitália, as mãos, pés. (...) O artista deve sugerir e não representar. (CALAÇA, 2007: 27. Grifo da autora)
Ventre proeminentes, além de seios e quadris fartos, são claros sinais de fecundidade. Uma figura feminina elaborada por um artesão centro africano ou descendente, mesmo que inserida no imaginário católico, trouxe atributos de fertilidade. A estátua nó de pinho, presente no acervo do Museu Afro Brasil (figuras 7, 8 e 9), explicita esta tradução.
Figura 7 - Santos em “nó de pinho”. Séculos XVIII e XIX. Madeira. Vale do Paraíba - SP. Coleções particulares cedidas ao Museu Afro Brasil (foto, do acervo do Museu Afro Brasil, realizada por Mônica Carolina Savieto). Nota-se, na segunda imagem inferior da direita para a esquerda, uma estatueta retratando figura feminina grávida.
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Figura 8 - Santos em nó de pinho. Séculos XVIII e XIX. Madeira. Vale do Paraíba - SP. Coleções particulares cedidas ao Museu Afro Brasil. (foto, do acervo do Museu Afro Brasil, realizada por Mônica Carolina Savieto). Nota-se, na terceira imagem superior da esquerda para a direita, uma figura feminina com corpo volumoso.
Figura 9 - Santos em nó de pinho. Séculos XVIII e XIX. Madeira. Vale do Paraíba - SP. Coleções particulares cedidas ao Museu Afro Brasil. (foto, do acervo do Museu Afro Brasil, realizada por Mônica Carolina Savieto). Detalhe da imagem feminina.
Figura 10 - Santos em nó de pinho. Séculos XVIII e XIX. Madeira. Vale do Paraíba - SP. Coleções particulares cedidas ao Museu Afro Brasil. (foto, do acervo do Museu Afro Brasil, realizada por Mônica Carolina Savieto).Detalhe da imagem feminina.
Se entre as figuras masculinas, Santo Antônio foi o mais intensamente retratado nas imagens nó de pinho, pois, como já citado anteriormente, sua hagiografia se aproxima da cosmologia centro africana, ele também se relaciona, de certa maneira, com a fertilidade: um dos seus atributos principais é o de ser um santo casamenteiro. Em uma das atribuições mais populares de Santo Antônio, a de possibilitar casamentos, havia um canal de diálogo com os cultos africanos à fertilidade. Neste sentido, a fertilidade está presente tanto em Nossa Senhora grávida como em Santo Antônio.
Mesmo na estatuária mais próxima aos padrões estéticos e formais europeus também é possível encontrar alusões à fertilidade segundo a concepção centro africana (figura 11). Neste sentido, a tradução cultural se fez presente em ambos os sentidos: no Vale do Paraíba, se o centro africano e descendentes se cristianizavam, o europeu e descendentes também, de certa forma, se africanizavam. As fronteiras culturais fundam novas espacialidades em ambos os sentidos. São fronteiras tanto para os centro africanos como para o branco escravista, por mais que este as negue e renegue. Daí as sucessivas iniciativas, por parte da Igreja, em “depurar” certas manifestações religiosas. Evitar fronteiras, impossibilitar contatos ou criações originais e, portanto, insidiosas,
101 nisso consistiram inúmeras iniciativas por parte da Igreja, entre elas, Concílios e Reformas que impossibilitaram, aos artesãos, representar os santos de forma mais livre ou próxima a outras cosmologias. Santas grávidas são criações de sociedades fronteiriças, de novas espacialidades que se originaram no contato.
Nossa Senhora grávida é uma representação rara na produção artística eminentemente cristã. E como fronteiriça que é, foi objeto de intensa avaliação e condenação por parte das autoridades eclesiásticas. Muitas delas foram retiradas do seu contexto de uso – adoração por parte dos fiéis na Igreja – e colocadas em acervos de Museus de Arte Sacra, preferencialmente, na reserva técnica, longe do público. A imagem de Nossa Senhora das Mercês, da cidade de São Luís do Paraitinga, Vale do Paraíba65, (figura 11) é um desses casos. Ela já era alvo de discussão quanto ao local mais adequado para ser exposta: na própria Igreja, na medida em que era objeto de adoração por parte dos fiéis, posição defendida pelo padre local, ou no Museu de Taubaté, posição defendida pelo Arcebispo. Esta rara imagem de Nossa Senhora grávida, evidenciando religiosidades e culturas hibridas e fronteiriças, veio à público através da trágica enchente em São Luís do Paraitinga.
Figura 11 - Anônimo. Nossa Senhora das Mercês grávida. São Luís do Paraitinga. Século XVIII. Imagem de barro. Exposta na Igreja da Nossa Senhora das Mercês, foi parcialmente destruída por ocasião da enchente ocorrida na cidade de São Luís do Paraitinga em 01 de janeiro de 2010. Nesta ocasião, a imagem atingiu público amplo, pois a mídia retratava o patrimônio material da cidade. Em processo de restauração. (Foto publicada no jornal Folha de São Paulo. 17 de janeiro de.2010. Caderno C. p. 8).
65 A cidade de São Luís do Paraitinga foi gravemente impactada por enchente histórica ocorrida no dia 1º de janeiro de 2010, que destruiu vários prédios tombados, entre eles a Igreja de Nossa Senhora das Mercês que abrigava a imagem de Nossa Senhora grávida. Esta foi encontrada parcialmente danificada, mas com a cabeça e parte superior do corpo intactas e, remetida para restauro, encontra-se no Museu de Taubaté.
A imagem de Nossa Senhora grávida é, segundo alguns pesquisadores de arte, uma expressão do cristianismo medieval, que tendia e apresentar os santos de maneira próxima ao fiel. No Concílio de Trento (1545 - 1563), esta representação foi inibida, quando foi também vetada pontualmente a representação de Cristo nu na cruz. No Vale do Paraíba, mesmo que esta imagem expresse crenças de um cristianismo medieval, ela também dialogou com cosmologias centro africanas. Mesmo que o escultor tenha bebido exclusivamente de estéticas e simbolismos europeus (feita em barro, com gestual, expressão e vestuário típicos do Barroco), os fieis, no diálogo com cosmologias africanas, atribuíram sentidos e realizaram traduções.
Os povos da África Central, sobretudo, produziram estátuas femininas que reportavam-se, de forma mais ou menos explícita, à fertilidade. Estátuas femininas produzidas no século XIX pelos povos Luba, Songye, Hemba, Tshokwe e Kongo, entre outros, faziam, com diferentes estéticas, referências à fertilidade – o ventre proeminente, as mãos sobre a barriga saliente, a criança sendo amamentada. Todos estes gestos sugeriam a sucessão das gerações e, portanto, a ancestralidade e o possível contato com os mesmos.
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Figura 12 - Anônimo. Estátua de mulher grávida. Baixo Congo. Madeira. Altura 11,8 cm (foto retirada da publicação: SCHMALEMBACH. 1953)
Enfim, é possível tecer relações entre figuras femininas e fertilidade - de caráter estético e simbólico – tanto em culturas “atávicas” como em culturas “híbridas”. As imagens nó de pinho pertencem a expressões típicas de culturas “híbridas”. Mas, mesmo expressões de culturas ditas “atávicas” foram objeto de leituras e traduções, tornando-se, ao menos na recepção, também “híbridas”.