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uma vez que os conteúdos incorporados nesta fase da vida estarão presentes em toda a sua existência, a interferir e, muitas vezes, comandar e definir padrões de comportamento, assim como o caráter e a conduta. Neste ponto, necessário se faz rever um dos principais conceitos socionômicos, o de Matriz de Identidade. Esta compõe a base da teoria da formação da personalidade, como foi proposta por Moreno (1993), que afirma ser a personalidade definida como o resultado de uma função de genes, espontaneidade e meio.

Moreno considera a carga genética como fator condicionante, mas não determinante. Mostra o estado de fragilidade e de dependência nos quais o homem nasce diferente de outras espécies em que os filhotes passam por essa experiência já mais amadurecidos para sua sobrevivência. (COSTA, 1996, p. 54)

Ao nascer, o bebê humano é um ser extremamente frágil: enxerga mal, não pode locomover-se sozinho, comunica-se de forma rudimentar, através do choro, quando alguma sensação advinda do ambiente externo o incomoda: fome dor ou frio. Necessita de alguém que possa atender-lhe em suas necessidades básicas, como comer, dormir, locomover-se, manter-se limpo e aquecido. Estas necessidades

lhe são satisfeitas pela pessoa mais próxima a ele, na maioria das vezes, a mãe. A partir destes contatos, forma-se uma estreita ligação entre mãe e filho, com marcado conteúdo afetivo.

Este ambiente, no qual o bebê passa a interagir, é a matriz de identidade, definida por Moreno (1993) como a placenta social da criança, o locus em que ela mergulha suas raízes. Seria composta por todos os objetos e pessoas à sua volta. Dentro desta matriz, a criança vive suas primeiras relações sócioemocionais significativas, as quais leva consigo por toda sua vida futura. “Essa matriz de identidade lança os alicerces do primeiro processo de aprendizagem emocional da criança”. (p. 112)

Segundo Gonçalves (1988), além do espaço físico preparado na família para recebê-lo, forma-se, ainda, um espaço virtual, e pelas expectativas que se estabelecem no ambiente familiar em relação ao bebê. Esse espaço virtual se estende às condições socioeconômicas e até ao clima psicológico que envolverá o recém-nascido:

É nesse clima que se constitui o espaço virtual, onde se instalam, por exemplo, as expectativas dos mais próximos em relação ao nascituro, em relação ao papel que ele desempenha e virá a desempenhar: unir a família, cuidar dos negócios do pai, ajudar à mãe, conseguir ser adotado, realizar algum feito em que os adultos fracassaram etc. Os exemplos são infinitos, como a gama de desejos que os seres humanos são capazes de acalentar. (p.59)

É através das primeiras vivências que o indivíduo experimenta na matriz que vai formando sua identidade. No início, a matriz relaciona-se a processos fisiológicos, e os papéis desempenhados são os que Moreno chamou de papéis psicossomáticos. À medida que avança no desenvolvimento, no entanto, esta passa a relacionar-se com processos psicológicos e sociais. Assim, é na matriz de identidade que a criança realiza sua integração à sociedade.

Para Moreno (1993), o desenvolvimento dessa matriz acontece em cinco fases, que servem de base psicológica para todo o processo de formação e incorporação dos papéis que o indivíduo desempenhará ao longo de toda a sua vida.

Na primeira fase, a que chamou de identidade total ou indiferenciada, a criança não se distingue do universo, das coisas que estão ao seu redor. Do ego auxiliar depende a sua própria sobrevivência. É uma vivência de completa e espontânea identidade.

Na segunda fase, a criança, embora ainda dependente, começa a distinguir as coisas do ambiente ao redor dela mesma. Tem início o processo de diferenciação, que ainda se dá de forma rudimentar.

Na terceira fase, a criança passa a se concentrar nos objetos que estão ao seu redor, desligando-se de tudo o mais, inclusive, dela mesma.

Na quarta fase, a criança está tão envolvida com a outra parte, que já inicia um movimento rudimentar de imitação dessa.

Na quinta fase, a criança, já mais bem instrumentalizada, representa o papel da outra parte, ou seja, está madura o suficiente para o ato da inversão de papéis. Nesta fase, completa-se o ciclo de inversão da identidade. Moreno, posteriormente, juntou essas cinco fases em três:

Estas cinco fases representam a base psicológica para todos os processos de desempenho de papéis e fenômenos tais como a imitação, a identificação, a projeção e a transferência. Por certo, os dois atos finais de inversão não ocorrem nos dois primeiros meses de vida da criança. Mas, algum dia, a criança inverterá o quadro, assumindo o papel de quem lhe dá alimento, a põe a dormir, a carrega no colo e a passeia. Temos, pois, duas fases da matriz de identidade: primeiro, a fase de identidade ou unidade, como no ato de comer; e, segundo, a fase de usar essa experiência para a inversão da identidade. (MORENO, 1993, p. 112-113).

Condensadas, essas três fases são assim descritas como matriz de identidade total ou indiferenciada, que corresponde ao chamado primeiro universo, no qual fantasia e realidade, pessoas e objetos se confundem. Só há o tempo presente, e todas as relações são de proximidade; matriz de identidade total e diferenciada, na qual a criança começa a diferenciar objetos de pessoas, surgem os primeiros registros, o que possibilita o aparecimento dos sonhos. As relações adquirem certa distância, uma vez que a criança começa o processo de diferenciação. A tele sensibilidade começa a operar. A terceira fase é onde acontece a chamada brecha entre a fantasia e a realidade. A criança adquire a capacidade de distinguir fantasia de realidade e a capacidade de inverter papéis. O indivíduo começa a formar dois novos conjuntos de papéis: os papéis sociais, relacionados ao mundo social e os papéis psicodramáticos, relacionados a um mundo de fantasia. (GONÇALVES, 1988)

Benzer Belgeler