Com base nas considerações acima, problematizaremos brevemente a posição de Cirne-Lima na medida em que ela representa um tipo específico de interpretação, a saber, aquela que procura adequar a filosofia hegeliana ao cânone do pensamento lógico- proposicional. Como procuramos mostrar, Hegel formula uma crítica às leis fixas do pensamento.607 Para ele, a própria lógica é um “esqueleto morto” que sua nova formulação pretende vivificar.608 Trata-se, para Hegel, de compreender que as determinações de pensamento, consideradas como leis do pensamento, são, na verdade, somente em relação; consequentemente, elas não são determinidades fixas. Na Fenomenologia, por exemplo, Hegel afirma as leis do pensamento como “momentos singulares evanescentes” da reflexão.
De fato, essas leis não são a verdade do pensamento; não porque devam ser apenas formais, e não ter nenhum conteúdo, mas antes pela razão oposta: porque em sua determinidade — ou justamente como um conteúdo ao qual a forma foi subtraída — devem valer como algo absoluto. Em sua verdade, como momentos evanescentes na unidade do pensar, deveriam ser tomadas como saber, ou como movimento pensante, mas não como leis do saber. Mas o observar não é o saber mesmo, e não o conhece; ao contrário, inverte a natureza do saber dando-lhe a figura do ser, isto é, só entende sua negatividade como leis do ser. É bastante, neste ponto, ter indicado a partir da natureza universal da Coisa a nenhuma verdade das assim chamadas-leis-do-pensamento. Um desenvolvimento mais preciso pertence à filosofia especulativa, na qual essas leis se mostram como em verdade são, a saber, como momentos singulares evanescentes cuja verdade é tão somente o todo do movimento pensante: o próprio saber.609
Este “desenvolvimento mais preciso” é a exposição das determinações de reflexão da
Doutrina da essência que procuramos analisar. Hegel formula uma crítica à forma
proposicional das leis do pensamento e apresenta a sua insuficiência dessa consideração à luz da contradição, determinação que perpassa cada determinação de reflexão e que se dissolve 607 Cf. pp. 70-71.
608 Cf. WdL I, trad. p. 33. 609 PhG, trad. p. 218.
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no fundamento da essência. Desse modo, parece-nos que Hegel não concordaria com a afirmação de que sua filosofia poderia ser avaliada através dos pressupostos da lógica formal, pois ele critica exatamente esses pressupostos, rejeitando “as representações sobre as quais até agora repousava o conceito da lógica”.610 Além disso, temos, com as determinações de reflexão, a crítica às leis universais do pensamento na forma de enunciados.
O conceito tradicional da lógica repousa sobre a separação, pressuposta como definitiva pela consciência comum, do conteúdo do conhecimento e da forma deste ou da verdade e da certeza. Primeiramente pressupõe-se que a matéria do conhecimento está dada em si e para si como um mundo acabado fora do pensamento, que o pensamento para si é vazio, se aproxima exteriormente como uma forma àquela matéria, se preenche com ela e apenas assim conquista um conteúdo, tornando-se desse modo um conhecimento real.611
Cirne-Lima propõe a interpretação de que a dialética hegeliana poderia ser resumida sob a fórmula “tese, antítese e síntese”, afirmando que “tese” e “antítese” seriam duas proposições contrárias (e não contraditórias) e que, consequentemente, poderíamos validar a “síntese” como o resultado de um processo lógico coerente e verdadeiro. Para isso, Cirne- Lima afirma que a contradição de Hegel não é a contradição dos lógicos, mas a contrariedade destes. Ora, como procuramos desenvolver ao longo do primeiro capítulo, o projeto mesmo da
Ciência da lógica é a exposição do pensamento objetivo: a demonstração de que o a priori e o
a posteriori são conjuntamente produzidos.
Hegel assume como tarefa da filosofia a demonstração dos pressupostos que sustentam as determinações pelas quais o pensamento se torna objetivo. A posição de cada “lei do pensamento” como “determinação de reflexão” significa a reconstrução lógico-ontológica de cada uma. Hegel formula toda uma crítica à forma proposicional da filosofia. Nesse sentido, verdade para ele não é a concordância entre o objeto e o juízo formulado sobre este objeto. Por isso mesmo a contradição possui um papel central em sua filosofia: é ela que aponta para a tensão constante entre a coisa e o seu conceito. De fato, a “contradição” em Hegel não é a contradição lógica no sentido canônico. Consequentemente, não há nenhuma contrariedade entre as “premissas” hegelianas, dado que ele também não formula sua lógica se baseando na construção de um edifício de proposições. A afirmação de que poderíamos reduzir o método 610 WdL I, trad. p. 22.
611 WdL I, trad. pp. 22-23.
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dialético à fórmula “tese, antítese e síntese” mantém um pressuposto formal falso, pois incoerente com a crítica de Hegel às formas do pensamento e, além disso, não leva em conta a própria compreensão de que a verdade é o resultado de um processo. Essa afirmação também se torna conflitante com a própria exposição da Ciência da lógica que recusa qualquer pressuposição sobre o seu método.
Não há dúvida de que foi um passo muito importante pelo fato de se submeterem a exame as determinações da velha metafísica. O pensar ingênuo caminhava sem maldade nessas determinações, que se faziam diretamente e de si mesmas. Não se pensava, nesse caso, em que medida essas determinações poderiam ter para si valor e validade. Anteriormente, já foi notado que o livre pensar é algo que não tem pressuposição alguma. O pensar da velha metafísica não era um livre pensar, porque admitia suas determinações sem mais, como algo preexistente, como um “a priori” que a reflexão não tinha, ela mesma, examinado. A filosofia crítica, ao contrário, assumiu por tarefa examinar em que medida, de modo geral, as formas do pensar são capazes de proporcionar o conhecimento da verdade. Mais precisamente, seria preciso examinar a faculdade-de-conhecimento antes do [ato de] conhecer. Ora, nisso há de correto que as próprias formas do pensar devem ser tomadas como objeto do conhecimento; só que logo se insinua, também, o equívoco que consiste em querer conhecer já antes do conhecimento, ou em não querer entrar n’água antes de ter aprendido a nadar. Decerto, as formas do pensar não devem ser utilizadas sem exame: mas esse próprio exame é já um conhecimento. É preciso, assim, que estejam reunidas no conhecimento a atividade das formas-de-pensamento e sua crítica. As formas-de-pensamento devem ser consideradas em si e para si; são o objeto e a atividade do objeto mesmo; examinam-se a si mesmas, e devem determinar nelas mesmas seu limite e mostrar sua falha. É isso, pois, aquela atividade do pensar; que logo, como dialética, será levada a um estudo particular: sobre ela, aqui apenas se tem a notar, por enquanto, que não se aplica como de fora, às determinações-de-pensamento; mas, antes, deve ser considerada como imanente a essas mesmas determinações.612
Portanto, admitimos com Hegel que a dialética, como atividade específica do pensar, deve considerar as determinações do pensamento através do próprio desenvolvimento dessas determinações; como afirma Cirne-Lima, a dialética é, de fato, “logicamente impossível”, mas
612 Enzy I § 41, trad. pp. 108-07.
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exatamente porque realiza a crítica imanente das categorias da lógica formal. Hegel formula uma crítica ao pensamento proposicional justamente porque este não consegue considerar a contradição como uma determinação ontologicamente inerente ao pensamento. “No pensamento — no sentido habitual — nós nos representamos sempre algo que não é simplesmente pensamento puro, porque se visa por meio dele a um pensado cujo conteúdo é algo empírico”.613 Mas o “sentido habitual” do pensamento precisa ser criticado: é uma necessidade da filosofia a compreensão de que “ao pensar, eu renuncio à minha particularidade subjetiva, aprofundo-me na coisa, deixo o pensar atuando por si mesmo; e eu penso mal, quando acrescento algo meu”.614
A metafísica tradicional, por outro lado, trata as leis de pensamento como “formas puras de pensamentos” que são capazes de apreender os “substratos particulares” da representação (Deus, a alma, o mundo), sendo a perfeição da adaequatio o seu pressuposto elementar. “Mas a lógica considera essas formas livres daqueles substratos, dos sujeitos de representação e sua natureza e valor em si e para si mesmos”.615 A lógica, pois, não é capaz de apreender o conceito, a relação entre sujeito e objeto que encerra a forma e o conteúdo da coisa mesma.
Como sustentamos acima, a acomodação do pensamento de Hegel às regras do pensamento formal, como condição de razoabilidade, trai o seu projeto por inteiro. A rigor, seria mais razoável rejeitar o projeto hegeliano, relegando a dialética para a imensa galeria dos erros filosóficos. A alternativa a essa rejeição, contudo, exige suspender regras e hábitos do pensamento, acompanhando ao contrário a lógica do autor, à cuja luz então se poderá formular um juízo que não seja a simples sobreposição externa de uma concepção sobre a outra.