Além do Planejamento, embasado no Programa para o Ensino Fundamental, os Parâmetros Curriculares Nacionais também foram referenciados nos Encontros de Metodologia e Filosofia do Ensino Religioso. Nem sempre ficavam claras se as citações por parte da coordenação diziam respeito às diretrizes curriculares do Ministério da Educação ou aos parâmetros elaborados pelo Fórum Nacional Permanente do Ensino Religioso (FONAPER). À pesquisa foram remetidos quatro documentos, semelhantes a fascículos, divididos em 16 páginas, para conhecimento e análise do material trabalhado nas reuniões56,
nos quais foram expostos dispositivos referentes ao Ensino Religioso, como a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (nº9394/96) e a Resolução nº02/1998 da Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação, que trata das diretrizes curriculares nacionais para o Ensino Fundamental, com destaque para elaboração de propostas pedagógicas. É nesse dispositivo que consta o Ensino Religioso como área do conhecimento juntamente a outras disciplinas do currículo da educação básica.
Pode se observar claramente que a proposição do material foi fomentar no professor a consciência e a participação na elaboração de proposta pedagógica dentro da escola, com a inserção do Ensino Religioso, considerando que a disciplina não possui Parâmetros Curriculares estabelecidos pelo MEC. Estes são mostrados ao leitor dentro do contexto dos Parâmetros do FONAPER, mas sem deixar explícito que a entidade é uma organização civil, com vinculações acadêmicas e confessionais, que ocupou uma lacuna deixada pelo Estado. Enquanto outras áreas do conhecimento - Língua Portuguesa, Língua Materna (indígena e migrantes), Matemática, Ciências, Geografia Estrangeira, Educação Artística e Educação Física, tiveram parâmetros estabelecidos, o Ensino Religioso foi a exceção, o que motivou a apropriação por parte da entidade.
56 Não foi possível identificar se o material fazia parte de algum periódico. Muitos dos documentos
O fascículo57, ao reproduzir os Parâmetros do Ensino Religioso, expõe que as
diretrizes constituem um marco histórico para a educação brasileira, como fruto da ação de pessoas de várias tradições religiosas na construção de uma proposta educacional, que tem como objeto o transcendente. Como tradições religiosas, os Parâmetros do Fórum Nacional compreendem a sistematização do fenômeno religioso a partir das raízes orientais, ocidentais, africanas e indígenas (FONAPER, 2009, p.13). A entidade parte do pressuposto de que na busca do ser humano em sobreviver e dar significação à sua existência, desenvolve-se as mais variadas formas de relacionamento com a natureza, com a sociedade e o transcendente, na tentativa de superar a provisoriedade da vida. Defende o Fórum que, com perguntas existenciais (Quem sou, De onde vim e Para onde vou?), o ser humano desenvolve conhecimentos que possibilitam interferir no meio em que vive e em si próprio, conforme a capacidade de deparar-se com o que lhe é exterior, com problemas e de rebelar-se contra eles.
[...] a ação humana consiste em tornar a Transcendência sua companheira de todas as etapas de aventura como origem de projetos, enquanto desejo e utopia. A recusa à Transcendência é trágica para o ser humano, pois o torna resignado em sua mediocridade. Assim, na raiz de toda criação cultural está a Transcendência, resultando daí um processo ininterrupto de ocultamento - desvelamento: quanto mais este insiste em continuar a se manifestar, exigindo novas decifrações. (FONAPER, 2009, p.32).
A perspectiva defendida pela entidade é que a reflexão do conhecimento possibilita uma compreensão de ser humano como finito e que o conhecimento religioso deve estar disponível a todos o que queiram ter acesso porque todo conhecimento humano é patrimônio da humanidade. Para isso, o FONAPER (2009) alerta para a necessidade de o educador ter uma formação específica, ele ser alguém que naturalmente vive a reverência da alteridade, colocando seu conhecimento e sua experiência pessoal a serviço da liberdade do educando, considerando que família e comunidade religiosa são espaços para a vivência religiosa e para a opção da fé. Nesse sentido, o profissional da educação deveria ter formação específica em pelo menos cinco conteúdos que o Fórum classificou como eixos organizadores: culturas e tradições religiosas, que permitiram o estudo do fenômeno religioso estabelecidos com base em filosofia, história, sociologia e psicologia da tradição religiosa; escrituras sagradas, como meios de transmissão de uma mensagem do transcendente, conforme a fé dos seguidores,
57 Considerando que os fascículos alertam o leitor que determinados assuntos foram tratados em um determinado
módulo, compreende-se que o material fornecido à pesquisa é um fragmento de um documento mais amplo, haja vista a citação dos módulos 11 e 12. Para causar prejuízos à interpretação e análise do material, com base nesse momento trabalhar-se-á com o livro Parâmetros Curriculares Nacionais do FONAPER.
perpassando pela revelação, história das narrativas sagradas, contexto cultural e exegese; teologias, por meio dos conjuntos de afirmações e conhecimento elaborados pela religião e repassados aos fiéis sobre o transcendente, com o estudo sobre divindades, verdades de fé e vida além da morte; ritos, como série de práticas celebrativas das tradições religiosas formados por rituais, símbolos e espiritualidade; e, por fim, ethos, por meio do estudo sobre alteridade, valores e limites.
Na mesma proporção, pode-se dizer que a proposta do Fórum Nacional Permanente do Ensino Religioso "conflita com filosofias de vida e tradições religiosas que não têm um Deus como o seu horizonte último, ou tradições que não têm uma teologia elaborada que defina uma identidade para este Sagrado" (DANTAS, 2002, p.102). Para o autor, tal pressuposto, como base no dado da fé que apresenta como indiscutível a existência de um transcendente, precisaria ser revisto, pois desconsidera demandas e características do cenário religioso das últimas décadas, que se ampliou para além dos códigos, símbolos e discursos institucionais, embora, em sua visão, continuem tendo uma grande procura e influência na sociedade. Para Dantas, os conteúdos não devem atender as necessidades de grupos religiosos, mas objetivos do projeto educativo escolar. Por outro lado, ele reconhece que os pressupostos defendidos pelo Fórum Nacional Permanente contribuem para a elaboração do projeto de vida pessoal do aluno, desde o respeito pela diversidade de crenças existentes no Brasil até a sua participação cidadã no meio social, do ponto de vista de uma educação que se pretende integral.
Enquanto Dantas (2002) compreende os pressupostos do FONAPER (2009) como modelo inter-confessional, na abordagem do transcendente como um dado inequívoco, João Décio Passos (2013, p.65), ao falar sobre o modelo ciências da religião, afirma que ele está embutido em recomendações mais atuais de fundamentação, como na proposta do Fórum Nacional Permanente. O ponto de referência seria o estudo dos fenômenos religioso e o conhecimento da religião como parte da educação geral e contribuição para a formação do cidadão.