Como Vilela (2012) aponta, sob o domínio português, quase nenhum investimento foi feito no Brasil Colônia no sentido da formação cultural da população, sendo a única exceção os colégios religiosos, em particular dos jesuítas. As condições sob as quais o Brasil colônia era mantido pela coroa portuguesa é, para Furtado (2012), um dos principais determinantes do atraso no desenvolvimento intelectual e na organização tardia das profissões no país nascente. Como o autor aponta, somente com a transferência da corte portuguesa para o Brasil, em 1808, a Colônia experimentou um mínimo desenvolvimento com a criação da imprensa, a abertura ao comércio com outros países (VILELA, 2012) e a implantação das primeiras faculdades dos cursos de Medicina e Engenharia, por conta das necessidades da elite, como ressalta Furtado (2012), que já não podia contar com os cursos de Coimbra ou de outras universidades europeias. O autor situa neste momento o surgimento das primeiras profissões universitárias brasileiras, marcadas pela inconsistência, precariedade, elitismo e baixa qualidade de ensino. No entanto, mesmo com as dificuldades de comunicação com o restante da Europa, geradas pelas demoras das viagens e as questões políticas envolvidas, o modelo europeu de organização e institucionalização do saber adentrava a Colônia, influenciando no que era então produzido.
Conforme Vilela (2012), somente com a consolidação do Estado Imperial, tornou- se possível o surgimento de uma classe média intelectualizada, conhecida, segundo a autora, como Geração 70, que representava uma parcela irrisória da população, cujos ideais estavam pouco vinculados às oligarquias e aos grandes proprietários rurais, relacionava-se muito mais aos ideais liberais e ao desejo de divulgação do conhecimento científico, o qual se elevava, por conta do cientificismo oitocentista, em uma nova metafísica. A ciência desenvolvida no Brasil, nesta época, como ressalta Vilela (2012), foi construída pela medicina, fortemente influenciada pelas teorias europeias, já que os médicos eram, geralmente, filhos de latifundiários formados na Europa, a despeito das faculdades brasileiras. Destarte, no contexto das universidades de medicina, principalmente, segundo Vilela (2012), iniciou-se a utilização do conhecimento psicológico advindo da Europa e dos Estados Unidos, empregado com status de ciência, em caráter complementar à formação dos médicos.
Também o Capitalismo, como sistema econômico predominante, chegou mais tardiamente no Brasil, levando um tempo para se consolidar. As profissões que aqui se instituíram apareceram inicialmente como ofícios e ocupações realizadas no dia-a-dia das cidades recém urbanizadas, surgidas das necessidades da sociedade elitista da época. Assim,
[...] as profissões de formação universitária passam a ser chamadas, aqui no Brasil, de profissão e logo depois de profissões liberais, e as que não exigem formação universitária e são adquiridas na prática do ofício passam a ser designadas de ocupação. (FURTADO, 2012, p. 71-72, grifos do autor).
Desta afirmativa do autor, se expressa o acentuado enfoque no modelo de atuação liberal das profissões, que se perpetuou como forma de trabalho predominante durante muito tempo, tendo ainda hoje forte expressividade (BOTOMÉ, 2010). Entretanto, esta oferta de serviços não encontrava um mercado consumidor, pois este somente estruturou-se por volta de 1870, com a melhor urbanização das capitais das províncias, quando as condições sociais tornaram possíveis a estruturação de um mercado consumidor dos serviços de médicos, engenheiros e advogados, por exemplo, profissionais que passaram a ter rendimentos de destaque.
Desta maneira, Furtado (2012) ressalta que, no que tange ao desenvolvimento das profissões no contexto brasileiro, pode-se afirmar que
Essa é a nossa matriz profissional, tanto do ponto de vista econômico, a partir da venda de serviços de forma liberal – que significa diretamente ao público interessado – ou na forma assalariada – como ocorreu principalmente com os engenheiros e também com os advogados e com os médicos – quanto do ponto de vista do prestígio, na forma como subjetivamente as profissões são valorizadas socialmente. (FURTADO, 2012, p. 72).
Segundo o autor, todas as profissões universitárias desenvolveram-se a partir da mesma matriz, o que proporcionou um valor agregado às profissões imperiais, ou seja, àquelas que se organizaram durante o Período Imperial, como a medicina, engenharia e direito. Entretanto, o contexto onde as diferentes profissões se desenvolveram foi substancialmente diferente, pois com o avanço da organização social do país, profissões como a Psicologia encontraram, como terreno para seu desenvolvimento, um mundo muito mais profissionalizado.
Segundo Furtado (2012), no período de ditadura militar foi ampliado o ingresso nas universidades, o que era visto como uma forma de impulsionar o desenvolvimento econômico e social do país, ainda que o sistema almejasse um ensino alienante, que servisse não a questionar o modelo de governo, mas sim fortalecê-lo. Entretanto, este incentivo do ensino superior não foi condizente com os investimentos realizados no setor público de ensino, trazendo como consequência, especialmente na década de 1970, o intenso crescimento das faculdades privadas, sendo a Psicologia um dos cursos contemplados nas novas Instituições de Ensino Superior (IES), fazendo aumentar consideravelmente o número de psicólogos, os quais transformavam a Psicologia em uma oportunidade profissional, dilatando o mercado de trabalho e contribuindo para a expansão da profissão.
Como nos lembra Bomfim (2003), a tendência da atuação profissional está condicionada às estratégias e diretrizes privilegiadas pelas instituições de formação, deste modo, nas Instituições de Ensino Superior (IES), os psicólogos, por exemplo, são formados com base em um modelo de ensino que, inserido em um contexto social específico, resguarda interesses próprios de alguns segmentos sociais, servindo à perpetuação da dominação vigente ou à transformação social, o que também se aplica às outras profissões. Advém daí o compromisso e a implicação política das instituições de formação e dos próprios profissionais, o que é expresso por Botomé (2010), no âmbito da Psicologia, por meio da seguinte colocação:
As oportunidades de trabalho, as verbas de pesquisa, os tipos de curso ou de estágios que oferecemos, as publicações que decidimos apresentar à sociedade e as situações profissionais que construímos ou viabilizamos para nós ou para outros darão uma direção, orientação ou ritmo ao desenvolvimento da Psicologia. (p. 190-191).
É válido expor que desde a década de 1970 Botomé (2010) chamava atenção para a defasagem dos currículos de formação em Psicologia, os quais não preparavam os profissionais para lidar com a realidade complexa de pobreza, desigualdade e opressão na qual a maioria da população se encontrava inserida. Um dos fatores que influenciavam nesta má formulação dos currículos, segundo o referido autor, era o desconhecimento da realidade popular, desta forma, muitas coisas eram ensinadas nos cursos sem uma reflexão crítica acerca do uso das técnicas, sem a investigação do que era válido ou não das teorias importadas de outros países. Além do que, havia o desconhecimento das reais necessidades da população pobre, para a qual o mercado de trabalho exigia maior atenção, abrindo-se um abismo entre a academia e a realidade social e comunitária. No campo da saúde, para Santos (2003), a medicina é o maior exemplo deste distanciamento entre a produção intelectual acadêmica, a qual se desenvolve em uma “direção vesga”, e os problemas impostos pela realidade, expressando a necessidade de enfoques mais abrangentes. Na proposta do referido autor, teoria e prática precisam caminhar juntas a fim de que uma subsidie a outra.
Concomitante a este contexto, o SUS instituiu-se como um novo campo de práticas para diversas profissões consideradas importantes para o cuidado à saúde da população. Como se pode perceber, não foi somente a Psicologia que se constituiu a partir de um modelo defasado de ensino e de uma estrutura social individualista, voltada para a perpetuação e reprodução dos poderes dominantes, enfrentando, por isso, dificuldades para se adequar ao modelo proposto pelo SUS, no qual se pressupõe posturas que privilegiem a vida, a troca de saberes, a participação popular, entre outros aspectos. Neste sentido, Botomé
(2010) considera importante refletir que, no geral, são os chamados interesses individuais que motivam a escolha pelo curso de Psicologia, o que é válido também para outras profissões, entretanto, como ressalta o autor, estes interesses estão alinhados a uma determinada classe social, ou seja, “[...] esse interesse é formado pelas experiências de uma classe social que tem interesses bem distintos e geral e te co grue tes co os donos da sociedade ou donos do poder no país.” (BOTOMÉ, 2010, p. 185), deixando de lado os interesses das maiorias excluídas, que continuam silenciadas quanto às suas necessidades e direitos.
Concordamos com Witter e Ferreira (2005, p. 15) quando estas afirmam que “A formação de um profissional começa mesmo antes de ele escolher a profissão ou a escola em que irá buscar sua formação acadêmica.”, é preciso considerar que a priori a formação do sujeito está perpassada por seu contexto sociocultural, familiar, educacional, econômico, entre outros atravessamentos. Segundo as referidas autoras, algumas destas influências que incidem sobre a escolha profissional permanecem presentes durante todo o ciclo vital, como as supracitadas, enquanto outras são mais pontuais. Cabe ressaltar também que, ainda que admitamos a influência de um destes fatores ao longo de toda a vida do sujeito, não significa que sejam estáticos e invariáveis, pois seu contexto se modifica e isto repercute também em sua visão de mundo, sua maneira de atuar profissionalmente. Dentre as influências consideradas pelas autoras no processo de formação do psicólogo, não só concernente à graduação, estão, além dos fatores supracitados, as sociedades científicas gerais e específicas das quais participa, a própria legislação que rege a profissão, o currículo, o processo de constituição da área como ciência e profissão, a atuação profissional, a produção pessoal e os grupos de pesquisa dos quais faz parte. Destarte, na análise da formação é imprescindível analisar os macros e os microaspectos que condicionam e determinam as escolhas dos sujeitos em seu exercício profissional. Assim, como Botomé (2010) aponta, uma formação pautada no conhecimento dos experts, como foi o caso da Psicologia durante muitos anos, e a escolha profissional derivada de interesses de uma determinada classe social travestido de interesses pessoais, afasta ainda mais o profissional dos reais interesses e necessidades da maioria da população, dificultando uma atuação condizente com a lógica do SUS.
No que tange à formação para o trabalho em saúde, Dallegrave (2008) reflete que a institucionalização do SUS trouxe a exigência da integralidade, tensionando a reorientação da formação do profissional que iria inserir-se neste sistema. Assim, além da educação formal, ou seja, da formação profissional com uma certificação específica, verificou-se a necessidade de uma educação concomitante à experiência de emprego no setor, a qual recebe diversas denominações nos documentos oficiais, como por exemplo: “[...] educação contínua
ou continuada, educação permanente, reciclagem, capacitação, aperfeiçoamento, treinamento e motivação [...]” (CECCIM; ARMANI; ROCHA, 2002, p. 374).