B. CEZAYI HAFİFLETEN SEBEPLER VE ÖZEL CEZASIZLIK SEBEPLERİ
VIII. SORUŞTURMA VE KOVUŞTURMA
Retomando a discussão que iniciamos na “Introdução”, pretendemos aprofundar aqui o conceito de indivíduo, „o qual possui um conteúdo crítico à própria
19 Optamos por utilizar „pseudo-formação‟ ou „pseudo-cultura‟ como tradução para Halbbildung, tal como o
propõe Víctor Sanchéz de Zavala (HORKHEIMER e ADORNO, 1971, p.233). O substantivo alemão seria, literalmente, semiformação ou semicultura, mas tal como este tradutor, nos apoiamos no sentido etimológico
sociedade‟. Nos dias atuais, o termo „indivíduo‟ tem sido empregado para designar apenas o sujeito econômico, afeito ao consumo, ao trabalho e responsável pela própria sobrevivência, tarefa já destituída de qualquer vínculo solidário com a sociedade, haja vista a idéia de que somos, enquanto trabalhadores, empresários de nós mesmos.
Tal como mencionamos anteriormente, a realização do projeto histórico de indivíduo da cultura ocidental está condicionada à existência de condições objetivas para tanto. No entanto, como temos argumentado, o desenvolvimento destas por si só não foi capaz de garantir a emancipação humana. No estágio atual de desenvolvimento das forças produtivas a individuação poderia ser favorecida pela abolição do trabalho, mas o que tem ocorrido é exatamente o contrário: a cultura vigente no capitalismo avançado tem impedido a individuação.
De acordo com Crochík (1998), a cultura deveria ser a realização de uma natureza propriamente humana. A cultura surgiu tendo como primeira finalidade defender os homens das ameaças da natureza, mas não os livrou, em um primeiro momento, da necessidade de produzir os meios para a própria subsistência. A segunda finalidade da cultura deveria ser estabelecer regras para as relações entre os homens, medida necessária por ser o próprio homem também parte da natureza. O desenvolvimento da cultura possibilitaria a existência de indivíduos autônomos, que elevariam seu controle sobre a natureza e não estariam mais voltados apenas para a autoconservação, e aperfeiçoariam as regras sociais, incluindo o autocontrole. Entretanto, segundo Horkheimer e Adorno (1985), no capitalismo avançado, a cultura, que sempre teve como segunda finalidade “[…] domar os instintos revolucionários [...] [tanto quanto os] instintos bárbaros” (p.143), sob a forma de cultura industrializada treina e capacita o indivíduo para a adaptação a uma condição de vida subjugada.
Segundo Adorno (1971), formação (Bildung) nada mais é que a apropriação da cultura pelo sujeito, a qual é responsável pela constituição da subjetividade e possibilita a expressão de anseios individuais, bem como permite a crítica à própria cultura. A formação pressupõe certa adaptação à cultura, mas é por meio dela que a subjetividade pode alçar uma superação da cultura após adaptar-se a ela: “é pela mediação da cultura que o indivíduo pode pensá-la” (CROCHÍK, 1998, p. 79). Contudo, a formação na atualidade já não tem permite a constituição do indivíduo pela apropriação da cultura, inibindo a possibilidade daquele de voltar-se
contra esta. Isso porque a cultura tornou-se um instrumento que concede ao indivíduo - se é que assim este pode ser chamado - uma única alternativa viável, a conformação, que na prática prescreve que o “[…] indivíduo deve aproveitar seu fastio universal como uma força instintiva para se abandonar ao poder coletivo de que está enfastiado” (HORKHEIMER; ADORNO, 1985, p. 143). Trata-se, neste sentido, de uma falsa cultura, de uma pseudo-cultura, bem como de uma falsa formação, ou pseudo-formação (Halbbildung).
Dessa maneira, o indivíduo que pela cultura teria a possibilidade de emancipação, é reconduzido pela pseudocultura à identificação com o todo, à indiferenciação, sob a totalitária lei da cultura de massas segundo a qual só pode haver identidade do particular com o universal. Segundo Horkheimer e Adorno (1985, p.144-145):
Na indústria, o indivíduo é ilusório não apenas por causa da padronização do modo de produção. Ele só é tolerado na medida em que sua identidade incondicional com o universal está fora de questão [...] O individual reduz-se à capacidade do universal de marcar tão intensamente o contingente que ele possa ser conservado como o mesmo.
Não se trata, tão somente, da alienação do tempo de trabalho e de eliminar dos que trabalham a consciência de classe, como parecia pretender, por exemplo, a administração científica do trabalho que surge em um momento em que parecia haver alguma racionalidade na cultura. Trata-se de integrar totalmente os indivíduos – o que nos remete às estratégias de gestão no pós-fordismo – a um todo social falso por meio de um sistema que, ciente de sua irracionalidade, não se coloca mais em questão, mas força a adaptação dos indivíduos pela obliteração de suas possibilidades de reação.
A pseudo-individuação emerge como a forma possível de manter a ilusão da particularidade na atualidade, uma vez que há uma dupla determinação na negação do particular: objetivamente ele não é mais necessário e não há mais mediação social que o permita. Falta ao mesmo tempo a demanda de uma individuação efetiva, bem como sua possibilidade a partir da formação.
Neste sentido, na equação de valores que mencionamos inicialmente como própria dos “trabalhadores de altas rendas‟, a idéia de „formação‟ é bastante cara, mas fica evidente que esta se reduz a uma necessidade constante por cursos de „atualização‟ ou de „reciclagem‟. O que está em voga é uma „formação‟ que
prepara o trabalhador para que ele esteja aberto às novidades, para que ele saiba lidar na prática com as novas tecnologias, para que ele saiba adaptar-se bem a elas. Não se pretende, neste sentido, de uma apropriação da cultura, mas de uma adequação à realidade, que remete, portanto, não ao conceito de formação, mas apenas ao de pseudoformação.
Se a possibilidade histórica da emancipação da humanidade fosse concretizada, poderíamos dizer que os homens são „donos de si mesmos‟, portanto, isso em um contexto no qual se faz presente a sujeição de cada um ao trabalho para garantir a autoconservação é reforçar o que chamamos de „ilusão de particularidade‟. A idéia fomentada na cultura atual de que cada indivíduo seja „proprietário de si‟, só se sustenta na medida em que, enquanto „proprietário‟ o sujeito coloque sua „propriedade‟ a venda, ou seja, não lhe resta a possibilidade de não vender nada, o que nos indica que ele não seja „proprietário‟, mas, no máximo, „inquilino‟. Levando a metáfora às últimas conseqüências, o indivíduo está obrigado a pagar o „aluguel‟ de sua existência com sua „força de trabalho‟, o que evidencia sua sujeição à ordem dominante. No entanto, a idéia de estar submetido é repugnante a qualquer um e, neste sentido, a cultura contemporânea, apoiando-se em suas teorias científicas20, fornece uma racionalização que atenua este mal-estar: chama o „inquilino‟, que é passivo no processo de sujeição, de „empresário‟, que remete a uma atitude ativa, embora o seja apenas no processo da própria sujeição. O „empresário de si‟, tem assim a ilusão de que é diferente do todo e certeza de que está emancipado, efetivando o que chamamos de pseudo-individuação.
O mundo irracional reconstruído por meio de uma racionalização torna- se tolerável e se reduz a possibilidade de reflexão acerca deste hermético processo de produção e reprodução. Desta maneira, a conformação com as regras do mercado se apresenta como uma paradoxal saída e as esperanças de que haja alguma outra possibilidade histórica são reprimidas. O realismo elevado ao extremo procura reduzir a esperança ao conformismo, ou seja, à aceitação da anulação do eu e da dominação como próprios da condição humana. Segundo Horkheimer e Adorno (1985), a vida na sociedade industrial se tornou uma constante aceitação da dominação, de condições sociais cristalizadas forçosamente apresentadas e representadas nas telas dos cinemas como naturais. Os indivíduos precisam mostrar
a todo momento que se adaptam integralmente a um sistema do qual “não cessam de receber pancadas” (HORKHEIMER; ADORNO, 1985, p.144).
Justamente por ser uma possibilidade impedida de realização, o conceito de indivíduo nos possibilita a crítica à cultura e evidencia o processo de pseudoformação. Ao nos voltarmos para os programas trainee, temos ciência das forças presentes no processo de „formação‟ dos futuros executivos e das tendências que elas representam, mas entendemos que estas não eliminam a tensão entre indivíduo e cultura. Conhecer as atitudes dos trainees frente às exigências das corporações explicita a atuação de tais forças, bem como os movimentos individuais de adesão e resistência.