As propostas relativas ao tema Sistema Prisional também apresentam conformidade com as proposições e análises baseadas no contexto do Direito Penal Mínimo, anteriormente apresentadas neste trabalho.66 Os encaminhamentos são para que se diminua o processo de encarceramento, a partir de medidas como limitação máxima de número de vagas nos presídios, penas alternativas e penas menores para os casos de tipificações penais com menor potencial ofensivo, além da elaboração de um Programa Nacional de
Reintegração Social. Há também propostas sobre o acesso ao sistema de
defesa na justiça penal, no caso, a partir da ampliação das Defensorias
Públicas e das instâncias de fiscalização e participação social (este último já
discutido anteriormente).
Como vimos, o Brasil apresenta atualmente uma taxa de encarceramento de 288,14 presos para cada 100 mil habitantes, encontrando- se no 4º lugar entre os países que mais encarceram no mundo. A problemática
65 MARX; ENGELS. Manifesto do Partido Comunista, 2006, p. 23. 66 Capítulo 2, Seção 2.1, páginas 59 a 60.
dos egressos do sistema prisional aparece, portanto, como uma questão a ser enfrentada na ótica de diferentes agrupamentos sociais oriundos da classe trabalhadora (movimentos, coletivos e entidades), pois consiste na reprodução potencializada de marginalização e estigmatização desta parcela da população.
De acordo com os dados divulgados pelo DEPEN67, em média, a cada semestre contabilizam-se cerca de 20 mil egressos do sistema prisional, indivíduos que seriam alvos dessa política de reintegração social e de acompanhamento do egresso. Muitas dessas ações que já ocorrem atualmente se dão num movimento de extensão do controle penal aos indivíduos já libertos de seus grilhões a partir de uma vinculação com centrais de egressos – equipamentos do próprio sistema prisional. As propostas oriundas do GTSPJC, portanto, se contrapõem a esta realidade, na medida em que colocam a necessidade de haver articulação em rede das outras políticas públicas, como assistência social, saúde e educação na atenção ao egresso do sistema penal. Porém, aliado a isto encontramos o fenômeno que Wacquant (2001) denominou de learnfare: o acesso às políticas sociais que se dá a partir da adoção de normas de conduta, e de workfare: a obrigação implícita (e explícita), voltado aos indivíduos que vivenciam os efeitos mais bárbaros da miserabilidade do movimento de autorreprodução destrutiva do capital, de aceitarem emprego ou ocupação precarizados, pois seria a alternativa viável contra o retorno ao “crime”. Novamente, a velha “questão social” se coloca em pauta:
Esses dois dispositivos – workfare e learnfare – estabelecem então, por um lado, uma submissão forçada a qualquer tipo de trabalho precário e sem garantias [...] e, por outro inscrevem as classes subalternas na assiduidade escolar (lembremo-nos do
continuum escola-prisão) e nos ensinos profissionalizantes que,
em vez de profissionalizar, reproduzem ad infinitum as técnicas de trabalhos subalternos e precários que conduziram às suas escolas os trabalhadores desqualificados (BATISTA in: WACQUANT, 2001, p. 10)
67 Disponível em:
http://portal.mj.gov.br/data/Pages/MJD574E9CEITEMIDC37B2AE94C6840068B1624D2840750 9CPTBRIE.htm
As outras propostas, voltadas para o cumprimento da execução da pena, versam sobre as condições dos estabelecimentos penais, a defesa do direito à vida dos indivíduos que estão encarcerados e a diminuição gradativa da ação penal de encarceramento como resposta social frente ao crime. Esta última proposta confronta-se com as diretrizes do PRONASCI, na medida em que este Programa prevê investimento orçamentário para construção de novos presídios como uma resposta ao problema da superlotação do sistema carcerário (inclusive de presídios específicos para a população jovem68).
Em relação às penas alternativas, postas ideologicamente como baluartes da superação do controle penal mais austero em relação à população, verifica-se que, em uma análise mais apurada sobre sua execução, não há como sustentar sua legitimidade até mesmo como uma proposta alternativa de transição de modelo de gestão penal sobre a massa social, pois ela não redundou em diminuição da pena privativa de liberdade. De acordo com os dados oficiais do Ministério da Justiça, temos a comprovação do alastramento do poder e controle penal que se opera também pela via das penas alternativas, já que em 2008 o Brasil contava com
[...] 493.737 pessoas presas (condenados e provisórios) e 498.729 pessoas estavam cumprindo, ou cumpriram no decorrer do 1º semestre de 2008, Pena Restritiva de Direito, popularmente conhecida como Pena e Medida Alternativa (PMA)69.
De fato, há um recorte social evidenciado nas características dos sujeitos alvos das penas alternativas, em que os potenciais consumidores não são, salvo exceções que ganham repercussão midiática e servem como uma
68 De acordo com o manual do Ministério da Justiça que apresenta o PRONASCI, pretende-se
“[...] a criação de quase 38 mil vagas no sistema penitenciário do país [que] atenderá a um público específico: jovens entre 18 e 24 anos”.
(Disponível em:
http://www.mte.gov.br/politicas_juventude/aprendizagem_manual_PRONASCI.pdf).
69 (MINISTÉRIO da Justiça, disponível em: http://portal.mj.gov.br/main.asp?View={47E6462C-
55C9-457C-99EC-5A46AFC02DA7}&BrowserType=NN&LangID=pt- br¶ms=itemID%3D%7B38622B1F-FD61-4264-8AD4-
espécie de sacrifício programado para saciar a vingança social da população que clama por mais penas, na maioria dos casos colocados nos porões nefastos das prisões brasileiras – ali cabem os enjeitados e desassistidos de qualquer possibilidade de se inserirem na esteira da ampliação do círculo periférico de consumo. Como já havia afirmado Vera Malaguti Batista, ao prefaciar o livro de Wacquant (2001), “a nova fórmula seria: penas alternativas para os possíveis consumidores e cadeia para os ‘consumidores falhos’” (p. 8). Esta crítica às penas alternativas é também elaborada por Salo de Carvalho (2010) ao discutir os substitutivos penais na era do punitivismo, quando questiona até que ponto tais artifícios diminuem o controle social pautado pela lógica penal voltado aos grupos vulneráveis de nossa sociedade desigual. Segundo o autor:
Ao cruzar os dados de cumprimento de penas e medidas alternativas com a curva de encarceramento, percebe-se a veracidade dos argumentos da criminologia crítica no sentido de os substitutivos penais atuarem como mecanismos de relegitimação do cárcere, fato que acaba por reduzir a potência do discurso anticarcerário em nome de alternativas político- criminalmente viáveis (CARVALHO, 2010, p. 54).
Contudo, mesmo dentro do escopo do Estado Democrático de Direito Penal, ou seja, dentro das limitações de uma possível emancipação política, os enfrentamentos contra as situações de aviltamento da dignidade humana que se dão no interior dos cárceres é pauta importante para a práxis política, na medida em que, no limite, estamos tratando da neutralização e até mesmo do extermínio programado da camada mais precarizada dentre os trabalhadores, artífice, inclusive, de um controle maior dessa classe como um todo. Não é por acaso que o enfrentamento à criminalização dos movimentos sociais entra como questão fundamental a ser defendida pelo segmento da sociedade civil na 1ª CONSEG, pois representa uma das expressões possíveis, dentro dos limites do Estado burguês, de organização popular de resistência às mazelas provocadas pela reprodução do capital e às ações de gestão da miséria travestidas de políticas públicas de segurança.