assinavam VEJA, mas ela conta que quase não lia. Durante a adolescência gostava de Super Interessante, Nova e Cláudia. Atualmente diz que “não estou lendo nada além dos materiais do doutorado”, porém aparece com uma “pilha”116 de revistas Lola. Como não é assinante, Bianca relutou um pouco
116 Bianca leu todas as revistas do período de março, abril e maio de 2011 e janeiro, fevereiro e março de 2012.
para reconhecer-se como uma leitora da revista Lola117. A sua babá da infância, que é sua amiga, é quem compra a revista mensalmente e depois repassa para Bianca, que “garante” que lê as revistas que ganha e repassa para as amigas. Ela afirma que sente-se bem lendo este tipo de revista e tem outros motivos:
Ah, é relaxar. É diferente de pegar e ler uma Veja. Veja tem que pensar. E daqui a pouco eu já não sei quem é aquele cara que tão falando da política, que eu não entendo de política, e não leio, e não leio jornal. Então, já me sinto mal por isso. E isso não. Isso me faz eu
sentir bem. Porque o quê eu leio eu entendo. Me mantenho, de
certa forma, atualizada. Ah, tão usando esse tipo de roupa. Dificilmente eu vou comprar uma roupa porque eu vi. Daqui a pouco, ah, aquela roupa que eu tenho eu vou usar, tão usando. Em relação ao passado, essas revistas tiveram uma influência bem forte na
minha adolescência, pra eu me tornar mulher. Que tipo de mulher?
Eu pensava, que legal, por exemplo, a Claudia. Como seduzir, como manter a chama acesa num namoro. Isso é uma coisa que eu acho que teve uma grande influência na minha vida. Isso eu me interessava muito. Coisa de sexo. Ler. Talvez, porque eu não tive em
casa. Eu não conversei isso com a minha mãe. Minha mãe nunca
teve abertura. Sempre sexo foi uma coisa muito velada. E eu acho que eu encontrei nas revistas uma forma de saber um pouco mais.
Sabe que te respondendo agora eu acho que eu matei a charada,
porque eu gostava dessas revistas. E me interessava, a coisa de agradar o namorado, saber o que gostam. Acho que isso tem um
pouco a ver com o meu interesse por revistas femininas. E agora, eu já mais madura, gostei muito da Lola por ser escrita por
pessoas que não são só jornalistas. Eu não posso dizer que são pessoas como a gente porque não são. Mas são pessoas que trabalham em outras coisas. E apesar de serem famosos, de tarem na mídia... Eu achei interessante. Essa coisa mais
descomprometida. Menos tendenciosa. (Bianca, 33 anos,
Fonoaudióloga).
Atualização, prazer, moda e relacionamentos são alguns dos motivos que Bianca relaciona com o seu gosto pela leitura de revistas femininas. Especificamente sobre a Lola, considera uma revista interessante, por ter um estilo diferente das outras. Segundo ela é uma revista descomprometida e menos tendenciosa, e isso se deve ao estilo mais livre, com artistas, músicos, sociólogos e diversos outros colaboradores que fazem a revista ter este diferencial, comparando com outras que possuem editorias mais rígidas, produções mais jornalísticas dos materiais. Bianca cita uma campanha
117 Bianca tem domínio das revistas, sabe apontar temáticas, nomes e matérias ao longo da conversa. Em alguns momentos, por não ser assinante, Bianca “negou” ser uma leitora, justificando a falta de tempo. Porém, espontaneamente, ao longo da conversa ela foi assumindo o seu entendimento e domínio da revista, o seu gosto pela leitura, e a constante periodicidade a qual se proporcionava ler a revista.
realizada com uma modelo negra com forte apelo social “tem umas coisas inteligentes, que inclui o fato da modelo ser negra, não é apenas uma foto com negra. [...] Isso aqui eu acho um exemplo legal, um poder social muito grande esse tipo de reportagem aqui”, reflete.
A leitura da revista é um momento de relaxar, Bianca gosta de ler quando está na chácara da família, deitada na rede, deitada no sofá, ou até no banheiro. Não costuma ler a revista inteira de uma só vez, “eu vou e volto”, segundo ela, lendo, a cada vez que abre a revista, materiais diferentes. Com a revista em mãos, aponta um editorial sobre viagens e diz animada: “Olha aqui, que vontade de viajar que dá. É isso aqui que é show. Dá uma vontade de ficar olhando”.
Bianca vê a mulher em Lola da seguinte maneira:
Ah, eu acho que é inteligente, é bem-sucedida. Eu já pensei no profissional. Autêntica. Essa revista tem pra mim uma coisa de autenticidade. E que não é quem gosta de moda, modinha. A coisa da roupa. Já passou disso. Eu acho que isso aí já passou. Me chama a atenção a foto que tem pouco photoshop. É uma coisa mais natural. Tu vê que tem maquiagem, aparece de efeito e tá aqui pra mostrar que a mulher tem ruga porque é inerente a idade dela. Então, eu gosto disso, é uma coisa verdadeira nessa revista. (Bianca, 33 anos, Fonoaudióloga).
Bianca garante que se reconhece nesta revista, porque se acha inteligente e natural. Segundo ela, a Lola não subestima a inteligência das mulheres, pois publica histórias e materiais não pela beleza das mulheres, mas pelo seu conteúdo, não criando estereótipos de beleza, mas contando histórias. Ela aponta para uma das capas, com a atriz Marieta Severo: “Não são só belezas estéticas que tão aqui. Essa mulher não é perfeita, mas é um show. Ou até é bonita, por ser a atriz que é, pela idade que tem. Mas ela não tem aquele padrão de beleza. Padrão de beleza cansativo.”
Bianca pensa a mulher moderna da sociedade a partir das características apresentadas pela revista. Ela acredita que as mulheres estão ganhando o mundo. Com as revistas diante de si, ela aponta que a revista é verdadeira, ou seja, que conta a história das pessoas e não apenas vende um produto, comparando com as capas da revista Cláudia, misturada entre as outras. Existe, para ela, uma diferença visível entre as revistas: “Aquela lá [revista Cláudia] tá pousando. Fazendo de conta o que é. Tá querendo vender
alguma coisa e ela tá trabalhando pra parecer aquilo. E essa aqui [revista Lola], ela não precisa. E eles fazem questão de mostrar isso”.
Instigada a pensar além das capas, mas nos conteúdos a disposição na revista, Bianca folheia e afirma que o apelo para o consumo é muito forte na revista. Segundo ela as revistas mostram joias, viagens, perfumes, moda, mas ao mesmo tempo contam histórias, mostram questões reais da sociedade, sendo possível identificar vários “tipos de mulher”, abrangendo diversos gostos femininos. Segundo ela, “tem mulheres que compram uma joia da Tyffany com o dinheiro do marido, outras que gastam sete mil reais em um colchão” e outras como ela mesma, que prefeririam gastar o mesmo dinheiro em uma viagem.
Bianca cita os nomes de Ivan Squierdo e Pitanguy como colaboradores da revista, afirma que gosta muito de ler o que ambos escrever. A leitura da revista proporciona, para ela, a sensação de realização, ao ler sobre viagem, por exemplo, Bianca diz que “é uma coisa um pouco, é uma forma de viajar também”.
Quando questionada sobre o uso das informações que lê na revista no seu cotidiano, Bianca diz que atualmente não tem espaço para coisas fúteis no seu dia-a-dia. Em função do doutorado os papos são mais “cabeça” e menos futilidades. Nota-se que, apesar de achar a revista Lola diferente das outras, mais real, Bianca amarra a ideia de revista feminina à coisa fúteis, no sentido do “não produtivo”. Seu mundo hoje é tão “sério”, que até mesmo olhar um filme torna-se um motivo de culpa, por não estar estudando ou produzindo: “Levei uns filmes pra fazenda pra gente assistir. E assistimos dois. E eu não me senti à vontade de comentar com elas [as colegas do doutorado] que eu tinha assistido os filmes. Tava louca pra contar do filme que eu tinha visto, mas eu não vou dizer que eu tô vendo filme. Todo mundo cheia de coisa pra ler, eu cheia de coisa atrasada e me permitindo ver filme”, desabafa. Bianca vê coisas como decoração e moda nas revistas, admite que é consciente, mas não costuma colocar em prática, porque prefere o conforto à moda.
Uma de suas irmãs é Designer gráfico, então Bianca acaba tendo algumas visões mais críticas das revistas, porque costuma conversar sobre isso com a irmã, e também com o irmão, administrador: “propaganda é uma coisa que sempre nos chamou a atenção. E sempre a gente olhando com olhar de bastidores, uma coisa mais crítica, assim. Com os comentários, a gente
acabou desenvolvendo isso”, conta. Muitas vezes, a partir dos comentários com os irmãos, é que Bianca passa a prestar a atenção em determinada propaganda, por exemplo. A partir disso, ela também conta que costuma comentar com alguma amiga, destacando que ela separa amiga de colega. Com as colegas de doutorado costuma mostrar-se mais séria, porém, se julga que algum assunto que tenha lido na revista possa interessar a alguma amiga, costuma indicar a leitura. Assim, admite, que as revistas, os assuntos, as informações, fazem parte do seu cotidiano: “É, é. Tem revistas que eu fico com vontade de fazer xerox e, às vezes, eu tô num consultório também. Leio, que vontade de levar essa revista pra casa. Tenho. Eu acho que sim.”, diz.
Em um primeiro momento em que foi instigada a falar sobre o uso das informações no cotidiano, Bianca logo negou e disse que não tinha mais “tempo” para compartilhar futilidades com as amigas. Instigada a refletir, Bianca reconhece que devido ao seu perfil crítico, o convívio e discussões com os irmãos, principalmente, ela faz usos praticamente constantes das informações que encontra na revista.
Sobre suas referências de feminino ao longo da vida, Bianca cita uma comadre e a mãe. “A mãe por ser mãe” e a comadre porque são amigas desde muito pequenas e, apesar dela ser mais nova que a amiga, nunca foi tratada como criança:
Ela [a comadre] desde que eu era criança, não me tratava muito como criança. Me levava mais a sério. E isso quando a gente é irmã mais nova, a gente valoriza quando alguém leva a gente a sério. A princípio, 4ª filha de uma trupe, última filha de 4, por exemplo, tu acaba sendo só mais uma. Então, quando tem alguém que te leva a sério, tu valoriza. E eu lembro que ela me valorizava. Às vezes, eu tava no meio dela com as amigas e elas conversavam assuntos de adolescente e elas não se importavam que eu tava ali. Tipo, me incluíam na conversa (Bianca, 33 anos, Fonoaudióloga).
A comadre hoje, conta, abdicou da profissão em função dos filhos, e por este motivo hoje não seria mais uma referência feminina. Já a mãe é uma “mulher de verdade”, e reconhece em Lola este perfil. Com relação a outras mídias, a internet dá conta das suas necessidades, quando precisa de receitas ou noções de decoração, costuma consultar alguns blogs para se informar. Além disso, cita ser uma fã dos site de Marta Stewart118 e Olivier Anquier119.
Bianca não costuma assistir TV, mas sempre que liga coloca direto no GNT, seu canal preferido.