duas obras literárias emblemáticas, que mostraram a face contraditória da sociedade americana da abastança econômica, intenso controle social, segregação étnica e sexista, a partir do ponto de vista dos marginalizados. Apesar das manifestações contrárias ao status quo sempre presente através dos tempos: “os movimentos sectários e contraculturais têm tido geralmente dois aspectos, o ativismo radical dos que buscam revolucionar politicamente a sociedade e a boêmia dos que a abandonam para viver em isolamento”102, como defende E.Digby Batzell103. A Contracultura, nas décadas de 1950 à 1970, caracterizou-se, assim, por manifestações em várias linhas de atuação, exatamente em oposição ao contexto cultural tradicional, com o objetivo de contestar, criticar ou polemizar na reivindicação de caminhos alternativos, pondo em xeque valores morais, comportamentais, religiosos e políticos e promovendo uma ruptura ou “brecha”104 histórica.
As contradições da sociedade industrial avançada, que a Geração Beat apresentava em seus livros, foram objeto de estudo da Escola de Frankfurt105 de M.Horkheimer, T. Adorno e H.Marcuse,
exilados nos EUA. Estes autores desenvolveram sua Teoria Crítica analisando a cultura da “sociedade
totalmente administrada” a partir de temas fundamentais do marxismo ocidental106, conceituando a
“indústria cultural” (Kultur industrie) e seu vínculo estreito com o mercado consumidor e a “sustentação das estruturas de dominação”107.
100 Jean-Louis Lebris de Kerouac (1922-1969) nasceu em Lowell, Massachusetts. Seus pais eram trabalhadores franco-canadenses que imigraram para Nova Inglaterra. Até os seis anos de idade Kerouac falava,apenas, o dialeto joual que considerava sua língua mãe.
101 KEROUAC, op. cti.,p. 59. 102Ibidem.
103E.Digby Batzell autor do verbete contracultura. Cf. OUTHWAITE. W.; BOTTOMORE, T. 1º.ed. Dicionário do pensamento social do século XX.Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1996.
104Ver nota 43.
105 O Instituto de Pesquisa Social de Frankfurt foi fundado em 1921, por um rico comerciante de grãos para homenagear seu filho, estudante de ciências sociais na Universidade de Frankfurt. Com a Segunda Guerra, o Instituyo se transferiu para Genebra e depois Nova York e seus colaboradores eram bolsistas e seus principais membros foram: Max Horkheimer (1930-1969) que quando assumiu a direção do Instituto em 1930, introduziu o programa de Teoria Crítica da sociedade que foi a diretriz das pesquisas até 1941; o crítico literário Walter Benjamim (1892-1940) que não emigrou para os EUA; Theodor Wisengrund Adorno(1903-1969), filósofo, sociólogo e musicólogo e o filósofo Herbert Marcuse (1898-1979), além do cientista político Friedrich Pollock, o pisicanalista e psicólogo Erich Fromm, o cientista político especialista em estudos sobre direito Franz Neumann, o cientista político Otto Kirchheimer, o estudioso da cultura e literatura popular Leo Lowenthal, o economista Henryk Grossman e o economista e sociólogo Arkadij Gurland. Em “Dialética do Esclarecimento”, de 1947, Adorno e Horkheimer concluíram que o “processo civilizatório assumiu a forma de uma espiral de crescente reificação”, quando o feitichismo da mercadoria atinge seu ponto máximo nas sociedades industriais avançadas e tudo se coisifica, inclusive os seres humanos. Em “Crítica Cultural e sociedade”,de 1949, Adorno discute o papel do crítico cultural frente ao poder totalitário e o quanto este mesmo inconscientemente, pode colaborar para a manutenção do “status quo”. Cf.HORKHEIMER, Max; ADORNO, Theodor W. A indústria cultural: o Iluminismo como mistificação das massas. In: ADORNO, Theodor. Indústria cultural e sociedade. São Paulo: Paz e Terra, 2002, p. 70. Cf. HORKHEIMER, Max. Teoria Crítica I: uma documentação. São Paulo: Perspectiva, 2006, p. 2. GABNEBIN, Jeanne Marie. Walter Benjamim: os cacos da história. São Paulo: Brasiliense, 1982, p. 10.
106No pós II Guerra Mundial há a ascensão do pensamento marxista ocidental, uma linha de pensamento ligada à cultura, sociologia e filosofia identificada, também, como “marxismo da superestrutura”. O marxismo ocidental tem sua origem associada às obras seminais: “História da consciência de classe” do filósofo húngaro Gyorgy Lukács, “Marxismo de filosofia” de Karl Korsch, ambos de 1923; e na obra de Antonio Gramsci “Cadernos do Cárcere” publicada postumamente, a partir de 1958; obras responsáveis pela revisão crítico-filosófica do pensamento de Karl Marx. Ele se disseminou através das obras de J. P. Sartre e Merleau-Ponty editores da revista Lês Temps Modernes; o filósofo estruturalista Louis Althusser; e Henri Lefebvre editor das revistas Arguments e Utopie; de Max Horkheimer, Theodore Adorno, Herbert Marcuse, Walter Benjamim e Jürgen Habermas, membros da Escola de Frankfurt; que realizaram estudos de Teoria Crítica sobre literatura, música, artes plásticas e cultura de massa. Cf.OUTHWAITE. W.; BOTTOMORE, T.1º. ed.Dicionário do pensamento social do século XX.Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1996, p. 531. No Brasil, o pensamento marxista ocidental foi difundido pela Revista Civilização Brasileira, a partir da tradução de textos inéditos de seus principais protagonistas.
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Contemporânea à Geração Beat e ao Team X, a Internacional Situacionista - I.S. (1957-1972) surge como movimento político-cultural na França108 com os integrantes: pintores Asger Jorn109, Giuseppe Pinot, Elena Verrone, Piero Simondo e Ralph Rumney; o arquiteto e pintor Constant Nieuwenhuys110; o músico Walter Olmo, a escritora Michele Bernstein e o escritor e pensador Guy- Ernest Debord 111, membros remanescentes da Internacional Letrista112, grupo CoBRA113 e movimento MIBI114. As ações culturais da I.S. podem ser entendidas a partir do marxismo ocidental enquanto
ideário motivador e a Contracultura, enquanto comportamento e forma de ação e neste sentido um comportamento dentro da “tradição de Livre Espírito”, de cunho utópico, que unifica movimentos culturais díspares, na análise de S. Home115.
Os Situacionistas elegeram a cidade como meio prático para realizar a Revolução, com propostas utópicas, no sentido de H.Marcuse116; lúdicas destinadas ao “homo ludens”, no sentido de J.Huizinga117, engajadas, no sentido de J.Sartre118; tendo como resultados práticos: a “Deriva” que é um
108 HOME, Stwart. Assalto à cultura. Utopia subversão guerrilha na (anti) arte do século XX. São Paulo: Conrad, Editora do Brasil, 1999, p. 25.
109Asger Jorn (1914-1973) pintor dinamarquês trabalhou com Fernand Léger em 1936 e com Le Corbusier , em 1937, na Exposição Internacional de Paris, foi membro da Bauhaus de Walter Gropius, fundador do Grupo COBRA (1948-1951), membro da Internacional Situacionista (1957-1965).
110O arquiteto holandês Anton Constant Niewenhuys (1920-2005), que foi uma liderança I.S. ao lado de Debord, teve participação importante de 1957 à 1965. Quando pertenceu ao grupo artístico COBRA, em 1949, Constat formulou algumas teses: sobre o desejo, o desconhecido, a liberdade e a revolução; e evoluíram para sua proposta síntese New Babylon. Ele se retira do grupo em 1965, por divergências com Debord.
111Guy-Ernest Debord (1932-1994), cineasta, escritor e pensador marxista ocidental francês, membro fundador e líder do grupo I.S. Seu principal trabalho “A
sociedade do espetáculo”, publicado em 1967, seria uma das influências do movimento Maio de 1968, segundo o próprio autor. Entretanto, o texto que teve
mais proximidade com aquele movimento foi: “ A miséria do meio estudantil – Considerado em Seus aspectos Econômico, Político, Psicológico, Sexual e , mais
Particularmente Intelectual”, escrito pelo situacionista Mustapha Khayati, em 1966, o qual teria sido revisado por Debord. Contudo a obra “A sociedade do espetáculo” está inserida num fenômeno cultural de transformações amplo, responsável por aquele movimento. Segundo Marietta Baderna: “se um texto situacionista teve grande importância para gestação do Maio de 68, foi esse”. Cf. Internacional Situacionista: Teoria e prática da revolução. São Paulo: Coleção
Baderna, Conrad Editora do Brasil, 2002.
112Internacional Letrista (1952-1957), formada por doze membros dissidentes do Movimento Letrista de Isou, dentre eles: Guy-Ernest Debord e sua futura esposa Michele Bernstein, Gil J. Wolman, Mohamed Dahou, André-Frank Conord e Jacques Filon.
113 O grupo artístico COBRA (1948-1951) - cujo nome foi formado a partir das iniciais das cidades Copenhague, Bruxelas e Amsterdã, teve cerca de cinquenta membros entre pintores, escultores, arquitetos teóricos, etnólogos de dez paises diferentes, no final dos anos 40 realizaram reuniões,exposições, intercâmbios e a publicação da revista homônima COBRA. Entre seus membros destacam-se: Appel, Constant, Corneille, Jorn, Novier, Dotremont (poeta), Alechinsky, Atlan, Jocoben entre outros. Cf. ARGAN, Giulio Carlo. Arte Moderna. São Paulo: Cia das Letras, 1992.
114O MIBI- Movimento Internacional por uma Bauhaus Imaginista, formado em 1954, a partir da iniciativa dos artistas: o dinamarquês Asger Jorn e os italianos Eurico Baj e Sérgio Dangelo.
115Stwart Home defende esta tese em seu libro Assalto à Cultura, onde analisa os movimentos artísticos do século XX: COBRA, Movimento Letrista, Internacional Letrista, MIBI - Movimento Internacional por uma Bauhaus Imagista, Fluxus, Arte Autodestrutiva, Provo, Yippies, Mail Art, Punk, Neoísmo Spectro- Situacionista e I.S., além dogrupo Dada, Surrealismo e Futurismo. Para Home, são todos movimentos de cunho “utópico” ou de uma “tradição vinda do Livre Espírito”; ele defende a hipótese de que há uma “tradição” que liga os movimentos do século XX estudados por ele às personagens históricas: Gerrad Winstanley (séc. XVII) comerciante inglês, líder de movimento contra a igreja e a propriedade; Abiezer Coppe (1619-1672) membro do grupo ranter que pregava a recusa das religiões; Marques de Sade (1740-1814) escritor; Charles Fourier (1772-1837) socialista utópico francês; Conde de Lautréamont (1846-1870) poeta francês; William Morris (1834-1896) artista gráfico, arquiteto, pintor e poeta inglês e um dos principais fundadores do Movimento das Artes e Ofícios britânico; Alfred Jarry (1873-1907) dramaturgo francês revolucionário. Home considera que esta hipótese pode ajudar a compreender esses movimentos do século XX, “tão díspares” que se situam em oposição ao “establishment” do “capitalismo consumista”, contudo emergiram neste contexto de sociedade. Cf. HOME, Stewart.
Assalto à cultura. Utopia subversão guerrilha na (anti)arte do século XX. São Paulo: Conrad, Editora do Brasil, 1999.
116 MARCUSE, Herbert. Liberation from the affluent society. In. MARWICK, Arthur. The cultural revolution of the long sixties: voices of reaction, protest, and
permetion. The International History Review, vol. 27, no. 4, dec. 2005, p. 780-806.
117Johan Huizinga (1872-1945) historiador e professor holandês. Entre seus principais trabalhos está o livro Homo Ludens, de 1938, o qual discute o elemento jogo – entendido como diversão ou brincadeira - como um dos principais elementos formadores da cultura humana: “Brincar é fundamental para uma necessária
geração de cultura”. J. Huizinga será uma das principais referências para a Internacional Siituacionista. Cf. HUIZINGA, Johan. Homo Ludens: o jogo como elemento da cultura. São Paulo: Perspectiva, 2010.
118Jean Paul Sartre (1905-1980) é considerado o exemplo de intelectual engajado com as ações políticas de sua época. Cf. SARTRE, Jean-Paul. Que é
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