• Sonuç bulunamadı

SONUÇLARIN DEĞERLENDİRİLMESİ

O surgimento de um Terceiro Setor não governamental e declarado como não lucrativo, redimensiona o estado e o mercado, vinculando a sociedade civil às responsabilidades sociais.

É no interior do processo de reestruturação do capital que ocorre um progressivo distanciamento do estado das suas responsabilidades com as questões sociais e se configura o que Montaño (2003) denomina de movimento de refilantropização do social nas instituições que assistem comunidades carentes. Estabelece-se uma nova forma de enfrentamento das questões sociais, pela troca do conceito de justiça pelo de caridade voluntária e altruísta. Fala-se do cultivo de uma co-responsabilidade social, em que as comunidades são capazes de se tornarem agentes da própria transformação.

Atribui-se, então, um novo sentido para o trabalho filantrópico, que procura romper com o caráter funcional do assistencialismo tradicional (prática de doações de bens materiais, paternalismo), mas que dissimuladamente ainda preserva seus efeitos: harmonização e aparente superação dos problemas sociais, investindo nas potencialidades inatas das comunidades acompanhadas/atendidas, criando uma cultura de auto-ajuda e ajuda mútua, crendo que a “própria sociedade que deve encontrar suas soluções”. (BEGHIN, 2005. p. 54).

Refiro-me ao social-assistencialismo, cuja intencão é articular redes de interdependência entre o povo e os seus superiores preocupados com o mal-estar

SETOR PRIVADO ESTADO Sociedade civil Espaço público de negociação e parcerias Trabalho Produção Lucro QUESTÕES SOCIAIS Privatização Terceirização Financeirização Descentralização Má distribuição de renda Exclusão social Problemas sociais SOCIEDADE ORGANIZADA

social. A partir desse novo conceito de filantropia, a pobreza é concebida como um fenômeno natural, inevitável, cujos efeitos podem ser aliviados por uma ação social tutelar de natureza ética, solidária, pontual, mas constante.

O recente ativismo social (BEGHIN, 2005) ancora-se nos princípios da participação, da solidariedade e acredita no exercício da cidadania, não limitado ao âmbito do estado, ou seja, à idéia de que os serviços públicos não são exclusividade do governo, mas também de ações de instituições e indivíduos que se dediquem ao bem-estar da coletividade.

Trata-se de uma nova contratualidade, fundada no discurso de ser solidário, ter atitude voluntária, responsabilizando-se moral e individualmente pelas questões sociais, que contraditoriamente, respalda a ausência do estado como provedor de políticas sociais.

A PCr se inclui nesse processo de redimensionamento das práticas de assistência às comunidades carentes e implementa o que denomina de uma rede de solidariedade, por meio da disposição do trabalho gratuito, atuando nos campos da educação e saúde. Esse pensamento está presente em grande parte dos documentos que publica: “o acompanhamento das famílias e crianças em cada comunidade é um exemplo do que a sociedade organizada é capaz de fazer na busca de soluções para os problemas sociais”. (RESULTADOS..., p. 13, 2005).

A (re)conhecida ação social da instituição “se encaixa perfeitamente no projeto de desmonte da atividade social estatal, de reformulação das responsabilidades sociais no trato da questão social”. (MONTAÑO, 2003, p. 17). Integra, assim, um debate ideológico, produzido para favorecer o processo de reestruturação do capital, iniciado nos anos 1970 e consolidado durante os anos 1990. Realidade essa determinante para a criação de entidades filantrópo-religiosas como a PCr.

É notável a expansão desse novo ativismo social e também os inúmeros questionamentos a respeito dessa ação: até que ponto as instituições socialmente responsáveis atuam no fortalecimento da cidadania e da justiça social? Beghin (2005) comenta que prioritariamente ocorre um grande investimento num marketing social para a promoção dessas instituições.

Será que há intenção real de diminuir a pobreza? Parece que o esforço está em ensinar a melhor forma de convivência, no sentido de aprender a “ ‘geri-la’25 por

meio de uma operação de silêncio, de roubo da fala que se sintetiza na busca da ‘harmonia social’ ou da ‘paz social’ ”. (BEGHIN, 2005, p. 15). Silenciar para ocultar as causas que produzem a exclusão social; motivar um tipo de solidariedade que possibilita a integração da pobreza e nunca sua erradicação; gerir a pobreza, porque a mesma se constitui um entrave à acumulação de capital; uma ameaça ao denunciar as desigualdades sociais; um incômodo ao promover a violência, a insegurança e os conflitos sociais. Trata-se de uma manobra para regular a pobreza frente às desagradáveis conseqüências da miséria. As questões sociais são contornadas, forçando a população pobre a contentar-se com o mínimo para sobreviver. Nesses termos, a miséria “é aceitável e até mesmo exigida”. (BEGHIN, 2005, p. 15). A ideologia que ampara esse tipo de intervenção social, beneficia o mercado no fortalecimento dos mecanismos de concentração de renda.

Foi durante as três últimas décadas do século XX que o Estado tendeu a apostar na descentralização de suas ações e transferência de responsabilidades das políticas sociais para o setor privado lucrativo e filantrópico, objetivando superar a crise e ampliar os lucros. Trata-se do fenômeno da publicização, o qual consiste na transferência de questões de ação social pública e estatal para instituições privadas ou solidário-voluntárias, consideradas entidades públicas não-estatais. A publicização é uma denominação ideológica utilizada pelo então Ministro da Reforma do Estado no governo FHC, Sr. Bresser Pereira, para justificar o processo de descentralização do estado e um conseqüente diálogo ou parceria com a sociedade civil. (MONTAÑO, 2003).

A decisão de tornar público o privado e privatizar o estatal fundamentou-se em movimento socioeconômico, que buscou esvaziar o Estado de Bem-Estar Social, exigindo outro modo de gestão pública e uma efetiva participação da sociedade no controle social. O receio da proposta do público não-estatal sempre esteve no perigo da omissão do estado em garantir os direitos sociais.

O cerne da questão foi a defesa de estado mínimo, alegando-se forte burocratização, prestação de serviço de má qualidade; máquina administrativa lenta

25 Gerir significa agir para “amenizar as seqüelas e as conseqüências” de um fenômeno. “[...] a sociedade brasileira é atravessada por um ‘pacto conservador’ que vem historicamente buscando as formas de regular a pobreza e não de combate-la”. (BEGHIN, 2005, p. 22 e 42).

e dispendiosa, distante da sociedade desinformada sobre o destino dos recursos públicos.

O ponto de acirramento dessas discussões ocorreu no denominado Consenso de Washington, em 1989. Um encontro entre organismos internacionais como o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), o Banco Mundial (BIRD), que colocou em pauta mudanças necessárias para a América Latina nas áreas de: “disciplina fiscal, priorização dos gastos públicos, reforma tributária, liberalização financeira, regime cambial, liberação comercial, investimento estrangeiro, privatização, desregulação e propriedade intelectual”. (MONTAÑO, 2003, p. 29).

A década de 1980, considerada anos de transição, funcionou como palco para uma política de redimensionamento do capital, pelo maior incentivo ao mercado internacional; e da ação do Estado na sociedade, pela elaboração de programas de reformas institucionais, que apontavam para efetivas privatizações de estatais, política monetária restritiva, corte de gastos públicos, distanciamento do governo dos programas de ação social e credibilidade na política de parcerias com o setor privado e filantrópico no trato das questões sociais.

Até o século XX, o trato com as questões sociais era de responsabilidade exclusiva do estado, fenômeno que ficou conhecido como Estado de Bem-Estar Social (Welfare State). Atualmente, esse exercício está aliado ao desenvolvimento de um sistema de solidariedade universal compulsória, o que significa uma alteração no trato das questões sociais, pela instituição de um setor privado, público, não- estatal, promotor de políticas sociais. Acredita-se que:

[...] a solução dos problemas não está reduzida à questão econômica, mas também se relaciona fortemente à recuperação do tecido social. [...] Neste mundo globalizado da economia, é urgente valorizar as relações humanas e sociais, a criação de uma nova ética de convivência humana, em que a solidariedade e a co-responsabilidade social cuidem prioritariamente das crianças em seu contexto familiar e comunitário. (NEUMANN, 2003, p.131).

Através da dimensão político-econômica, os Agentes Pastorais, a maioria que atua na coordenação, entende que o nascimento da PCr está relacionado à criação e ao fortalecimento de um terceiro setor destinado ao trato das questões sociais nos bolsões de pobreza.

A criação da instituição se deu durante uma reunião internacional em que organismos supranacionais, juntamente com representantes da Igreja Católica,

tomaram a iniciativa. A PCr nasce firmada no processo de refilantropização das instituições de caridade e de publicização do estado. Desde 1987, mantém parceria com o Ministério da Saúde, que tornou-se o principal mantenedor, responsabilizando-se por 70% de seus custos financeiros, equivalente a um montante de 20 milhões de reais por ano. (BATALHA, 2003).

A essa nova forma de fazer filantropia incluem-se as freqüentes articulações por parcerias com instituições privadas, que são firmadas pela eficiente atuação dos organismos internacionais, as quais trabalham na elaboração de ideologias, pactos e projetos de intervenção social. A lógica é expressa no ESQUEMA 8 a seguir:

Ser uma instituição religiosa, porém de natureza subsidiária, aberta à efetivação de parcerias com empresas privadas e estatais foi e tem sido causa de inúmeros debates entre conservadores e progressistas eclesiásticos. De forma que tratar do nascimento da PCr é rememorar os conflitos sempre presentes na vida da igreja, causados pela posição assimétrica de grupos que possuem diferentes interesses e valores. Um grupo mais conservador que alimenta o medo às mudanças, trabalhando mais na defensiva; um outro grupo que, desde 1945, se abre às questões sociais da sociedade, ampliando os debates e reivindicando transformações. (INSTITUTO..., 2003).

PCr

Iniciativa privada Sociedade civil Estado Questões

sociais Questões sociais Questões sociais Políticas sociais de governo Movimentos sociais Filantropia empresarial

Benzer Belgeler