O Programa Escola Ativa além de possuir uma metodologia diferenciada para trabalhar com classes multisseriadas, também traz, em sua essência, módulos de capacitação para os professores em processos de formação inicial e para aqueles iniciantes no programa, assim como a formação continuada para os que já atuam e precisam inovar e renovar suas práticas.
Os cursos de formação de professores-multiplicadores e de educadores ocorre em cada estado e no DF oferecidos pela SECAD sob a responsabilidade de uma Instituição de Ensino Superior (IES). Sendo que as IES oferecem formação e orientação para os multiplicadores, que são técnicos das secretarias municipais de educação. Por sua vez, os multiplicadores ficam encarregados da formação dos professores das classes multisseriadas. Já os técnicos das secretarias estaduais de educação ficam encarregados de realizar o monitoramento e supervisão de todo o processo de formação. (D‟AGOSTINI; TAFFAREL; SANTOS JÚNIOR, 2012).
Esses cursos de formação continuada têm uma carga horária de 240 horas, dividida em 06 módulos de 40 horas cada uma. Essa formação é destinada aos professores formadores das IES, através da SECAD. Como metas a serem alcançadas, os cursistas seguem as seguintes orientações: planejar a formação de cada módulo, antes do seu início; apresentar, ao final de cada módulo, uma proposta de formação a ser desenvolvida com educadores da rede; realizar a formação dos educadores imediatamente após a formação dos professores multiplicadores, em cada módulo; apresentar, a partir do 2º módulo, o relatório da formação dos educadores das escolas inseridas no programa; cada módulo de formação, garantirá o estudo dos conteúdos definidos para o módulo. (BRASIL, 2010).
No quadro seguinte, encontra-se discriminado, por módulo, o processo de formação dos professores formadores.
QUADRO 3 - Processo de formação do programa Escola Ativa
Módulos/CH Conteúdos
Módulo 1 – Metodologia do PEA (40 h)
Concepções e conceitos em Educação do Campo; Classes multisseriadas; Organização do Trabalho Pedagógico; O currículo e o cotidiano da sala de aula; Estratégias do Programa Escola Ativa: Cadernos de ensino-aprendizagem, Cantinhos de aprendizagem, Espaço interdisciplinar de pesquisa, Colegiado estudantil, escola e comunidade; Planejamento; Avaliação; Gestão: acompanhamento e formação de professores nos microcentros. Elaboração de proposta para a formação dos educadores no módulo.
Módulo 2 – Alfabetização e Letramento (40 h)
Concepções de desenvolvimento e aprendizagem que subsidiam a Educação do Campo (Psicologia histórico-cultural; Wallon). Ensino fundamental de 9 anos e suas implicações para classes multisseriadas; Principais teorias de alfabetização e seus respectivos métodos; Letramento e alfabetização; Aspectos psicolinguísticos da alfabetização (desenvolvimento da escrita); Agrupamentos significativos; Estratégias de leitura e de produção de textos; Os diferentes gêneros textuais no processo de alfabetização; A leitura do professor e a leitura do aluno; Apresentação, pelos cursistas, do relatório da formação dos Educadores no 1º módulo; Elaboração de proposta para a formação dos educadores no módulo.
Módulo 3 – Introdução à Educação do Campo (40 h)
Concepções e conceitos em Educação do Campo; Educação do Campo; Desenvolvimento Sustentável; Trabalho e Educação; Características sociais, políticas e econômicas do Campo Brasileiro; Heterogeneidade e características sociais, políticas, econômicas e culturais das populações do Campo; Educação do Campo, como direito humano, no contexto da política de desenvolvimento com igualdade social; Movimentos Sociais do Campo; História e lutas pela Educação do Campo (Encontros e Conferências do Campo); Políticas educacionais para o campo (Diretrizes e programas em andamento); Apresentação, pelos cursistas, do relatório da formação dos Educadores no 2º módulo; Elaboração de proposta para a formação dos educadores no módulo.
Módulo 4 –
Práticas Pedagógicas em Educação do Campo (40 h)
Fundamentos e princípios da Educação do Campo: trabalho como princípio educativo, pesquisa como princípio formativo, escola formadora do ser humano articulado com um projeto de emancipação humana; Organização do trabalho pedagógico: práticas pedagógicas em sala de aula e na comunidade; Estrutura pedagógica dos cadernos de ensino e aprendizagem; Cantinhos de aprendizagens e o uso de diferentes materiais didáticos; Interdisciplinaridade; Planejamento e avaliação; Apresentação, pelos cursistas, do relatório da formação dos Educadores no 3º módulo; Elaboração de proposta para a formação dos educadores no módulo.
Módulo 5 –
Gestão educacional no campo (40 h)
Organização da educação nacional; Competências e responsabilidades dos entes federados em relação à Educação do Campo; Conselhos de Educação no âmbito dos Sistemas de Ensino; Políticas de Educação do Campo (Diretrizes e Programas em andamento); Gestão educacional: Financiamento e gestão orçamentária da Educação do Campo; Gestão de recursos materiais (relação da infraestrutura escolar e condições de funcionamento das escolas para a qualidade do ensino); Gestão democrática; Gestão pedagógica da educação escolar no campo; Gestão de pessoas nos sistemas de Ensino e nas Escolas do Campo: formação e valorização dos profissionais da Educação na LDB e nas diretrizes e metas do PNE; Aspectos legais do Programa Escola Ativa – Projeto Político Pedagógico e Regimento Escolar; Apresentação, pelos cursistas, do relatório da formação dos Educadores no 4º módulo; Elaboração de proposta de trabalho para a formação dos Educadores no módulo.
Módulo 6 – A tecnologia na Educação do Campo (40 h)
O Proinfo Escola @tiva; O campo e a tecnologia; Tecnologias na educação; O uso das tecnologias nas Escolas Ativas; O Ensino e a Aprendizagem com tecnologias na Escola Ativa; Apresentação, pelos cursistas, do relatório da formação dos Educadores no 5º módulo; Elaboração de proposta de trabalho para a formação dos Educadores no módulo.
Fonte: Projeto Base para a Escola Ativa (BRASIL, 2010).
Com base nesse quadro de formação, as IES participantes do processo propuseram alterações nos conteúdos das formações, tendo em vista as dificuldades
encontradas para reproduzir tais conteúdos aos professores. Mas, como sugestão, a proposta deveria pautar-se na formação de professores para o trabalho coletivo, para a construção do projeto político-pedagógico e adaptação autônoma dos currículos escolares, com vistas à adequação a cada realidade. Essas medidas de alteração no processo de formação dos professores pelas IES foram implantadas nos estados da Bahia, Santa Catarina e Minas Gerais. (D‟AGOSTINI; TAFFAREL; SANTOS JÚNIOR, 2012).
Para a realização da metodologia de formação pelo PEA, de acordo com o
Caderno de Orientações Pedagógicas para a formação de educadoras e educadores
(BRASIL, 2010, p. 9), os encontros devem considerar os seguintes percursos formativos: • Atividade Básica – consiste em compreender o processo pedagógico do Programa Escola Ativa por meio de problematizações. É importante trazer um tema ou uma questão pertinente para o debate e para o estudo, tornando esse estudo como objeto de conhecimento e aprendizagem. Já os Cadernos de Ensino- Aprendizagem buscam descobrir, na vida cotidiana dos sujeitos, as múltiplas relações de aprendizagens que são estabelecidas na escola e na comunidade. A Atividade Básica tem como objetivo fazer um levantamento dos conhecimentos adquiridos nas experiências de vida dos sujeitos de forma que não desvalorize os saberes inerentes das comunidades, a fim de obter uma visão contextualizada desses saberes e confrontá-las com a visão elaborada de mundo.
• Atividade Prática - consiste na consolidação e ampliação do conteúdo, incluindo
a pesquisa em acervos bibliográficos, documentais, oficiais, jornalísticos, buscando a relação com as ciências sociais, naturais e humanas, para que se possa levantar um conjunto de conhecimentos científicos e tecnológicos, a fim de possibilitar uma maior compreensão do objeto a ser estudado. Essa atividade oferece ao educador (a) e ao educando (a) estímulo para conhecer, explorar, analisar, expor, discutir, rever e ampliar suas ideias, compartilhando diferentes pontos de vista; contextualizar e problematizar sua vida, fazer previsões que superem as limitações detectadas no debate, possibilitando o desenvolvimento de novas aprendizagens.
• Atividade de Aplicação e Compromisso Social – é de fundamental importância a
realização dessa atividade para o desenvolvimento de ações políticas, didáticas e operativas voltadas para a realidade da educação do campo e para o processo de ensino e aprendizagem na escola multisseriada. Ela tem por objetivo construir condições de mudanças pedagógicas, curriculares e metodológicas na escola do campo; instigar tanto o docente quanto o discente a reafirmar na prática escolar o conhecimento, aproximando-se ainda mais da realidade que se pretende mudar.
Também faz parte do processo de formação dos professores os microcentros, como sendo uma das estratégias do PEA para a troca de experiências entre professores, e a oportunidade para a construção de novos conhecimentos e discussão das dificuldades encontradas no processo de ensino e aprendizagem e à metodologia aplicada em sala de aula.
Segundo o Projeto Base para a implantação do PEA (BRASIL, 2010), os microcentros são espaços para a teorização, estudos, reflexões, trocas de experiências e vivências. Pela proposta, a realização dos microcentros deve acontecer mensalmente,
reunindo os professores das classes multisseriadas da rede, bem como em parceria com outros municípios com a finalidade de ampliar os saberes entre os professores.
É com vista na qualificação do professor, que as formações continuadas devem acontecer, pois proporcionam aos professores momentos conjuntos de troca de conhecimentos que não foram adquiridos nas graduações, mas no próprio exercício da profissão, uma vez que os profissionais precisam estar capacitados para atender às exigências impostas pelo sistema e por sua profissão.
Porém, somente programas não são suficientes para dar conta da formação dos professores, que segundo Marin (1996), referindo-se aos programas de formação de forma geral, são considerados deficitários e com grandes dificuldades de implementação e que esse fato não se dá apenas nos dias atuais, mas é um problema que perdura em vários contextos e em várias conjunturas.
O PEA, mesmo sendo um programa estratégico na formação continuada de professores que atuam nas classes multisseriadas, não substitui a formação inicial que se dá através dos cursos de licenciaturas. Nóvoa (1999, p. 18) diz que:
[...] o desenvolvimento das técnicas e dos instrumentos pedagógicos, bem como a necessidade de assegurar a reprodução das normas e dos valores próprios da profissão docente, estão na origem da institucionalização de uma formação específica, especializada e longa.
Portanto, observa-se a constituição de programas como o PEA, por exemplo, considerado o primeiro programa voltado para as classes multisseriadas, para, de fato, tentar efetivar o processo de qualidade do ensino e formação adequada de professores, por entender que ser professor vai além de ensinar conteúdos em sala de aula, mas, faz-se necessário assumir um compromisso político com a sociedade, a fim de ser um educador capaz de compartilhar conhecimentos e levar seus educandos ao pleno exercício da cidadania.