sonhos (enriquecimento fácil com a extração do látex, no boom da borracha) ocorre em condições tempestuosas. Ou seja, com todos os contratempos de isolamento, solidão e até mesmo escravidão por que passaram os nordestinos que fugiam da seca de 1877, conforme vimos em Costa Sobrinho (1992); Souza (2002) dentre outros. Contudo, visualizavam, na Amazônia, um emprego/trabalho fácil e, aquecidos com a abundância da borracha, regressariam para o seio de sua família que ficou em sua cidade natal. Assim, teriam condições econômicas de melhoria de vida. Este era, ao que compreendemos, um sonho, quiçá, a busca da sobrevivência.
Essa é uma história que fala do sofrimento e das dificuldades porque passou essa gente nos rincões da Amazônia, longe da família. Ao partir, tinha a ideia do regresso,
162 sequer sabia do endividamento contraído no ato do recrutamento. Contudo, essa tomada de atitude não deixou de ser uma aposta ou uma escolha, ainda que, possibilitada pelas condições históricas, sociais, culturais vivenciadas naquele momento.
Hoje, no entanto, não se recruta trabalhador para as estradas de seringa até porque a região amazônica não mais produz a riqueza oriunda do “ouro negro”, vivida no ciclo da borracha, na extração do látex, como já dissemos.
O que queremos comparar, aqui, é a busca do emprego/trabalho. Outrora se buscava um emprego braçal/manual, feito à mão, colhendo leite nas estradas de seringa, produzindo borracha. Os instrumentos de trabalho se restringem a uma poronga, um facão e um balde.
No presente, a busca é, também, pelo emprego, contudo, um emprego intelectual: o de professor. E não mais nordestino, mas acrianos da zona urbana das cidades. E quando lá chegam, percebem que, no seringal, no mato, as dificuldades são grandes. E por isso sofrem e lamentam porque passam a viver a aposta atravessada por condições tempestuosas. Diferentemente do trabalho nas estradas de seringa, o trabalho do professor é intelectual, trabalham com a mente, ensinando aquela gente a ler e a escrever, apesar dos relatos ao tudo fazer. E tem uma dinâmica diferente do pretérito tempo antes referido. E que não é nosso objetivo detalhar aqui. Apenas, lembrar essa história porque, a partir dela, formamos as construções simbólicas e representacionais de nosso tempo, do aqui e do agora.
Por essas razões, pensamos que os professores têm um discurso que atravessa essa história, mas não repousa nela, porque, também, se constrói nas circunstâncias atuais da realidade vivida. Questões essas pontuadas em todo o decorrer desta tese, em consonância com o referencial teórico das representações sociais, por nós adotado, e que compreende e identifica seus mecanismos de ancoragem e objetivação a partir da introdução do indivíduo nas tradições culturais do grupo, e na incorporação do novo aos seus esquemas de pensamento. Assim, ancora ideias ao seu imaginário e cria representações simbólicas do ser professor em função de sua atuação pedagógica e da sua relação com a comunidade.
O distanciamento vivido pelas famílias no século do XVIII e XIX, (só os homens iam para a Amazônia), hoje, em pleno século XXI, permanece o distanciamento (só o professor ou a professora vai para as comunidades ribeirinhas). Como dissemos antes, é a busca de um sonho viabilizada por meio do trabalho – o trabalho de professor; a possibilidade do emprego, ainda que a família fique na cidade por algum tempo,
163 divididos pela saudade ocasionada pela situação. Os nordestinos sonhavam com o retorno tão logo conseguissem juntar dinheiro. Mas o sonho fica adiado mais e mais com a contração da dívida nos barracões. Assemelhando-se a esse sonho, vivem os professores, que, no lamento da partida, pensam juntar algum dinheiro e, com isso, ajudar seus familiares. Experimentam, por vezes, as condições tempestuosas porque, num futuro próximo, querem (desejam) a transferência para a cidade. Seja como professor, seja na busca de outro emprego.
Na prática, vão percebendo que residir, nessas comunidades, além das dificuldades apontadas, significa sofrer os custos para ir e vir à cidade. E, no final das contas, com seus vencimentos, conseguem, apenas, ir sobrevivendo, porque, como sabemos, o salário dos professores não são os melhores do Brasil. Ainda mais esses professores que, na sua totalidade, não tinha curso superior. Por isso mesmo, enfrentaram, apesar da idade (para alguns deles), a junção trabalho e estudo (formação em serviço pela qual passaram com o PROFIR). São verdadeiros heróis esses homens e mulheres que constroem essa história, seja da profissão professor ou apenas morador da floresta que já teve oportunidade de conhecer a dinâmica urbana e o mundo da escola.
No passado, segundo estudiosos e historiadores dessa região, como Antunes (2007), Paula (2005), Lima (2001), Costa Sobrinho (1992, 2001), Cunha e Almeida (2002), tratava-se de reais escravos dos/nos seringais. Lembranças gravadas na memória das pessoas que viveram ou que vivem nesses espaços/tempos em que os homens consideravam estar cumprindo uma missão: a princípio, marcada pelas labutas intermináveis nas estradas de seringa.
No presente, vive a história dos afazeres da docência. Quase que uma missão também estar ali no meio da floresta ensinando essa gente. E dizem: “não existe vitória sem sofrimento? Existe? Eu acho impossível. É difícil obter vitória sem sofrimento, tudo é sofrido, ralado” (P2-26). Ao que parece, os professores estão vivendo uma ilusão necessária. Por vezes, conformados com a naturalidade das situações que passam a viver nesses rincões solitários da Amazônia.
Sentir-se herói traduz o sentimento incerto do que é ser professor na perspectiva da profissionalização do ensino. “O professor é praticamente um herói nessas comunidades. Um herói por conseguir alfabetizar os alunos nas classes multisseriadas. Às vezes, por série fica a desejar, imagine multisseriado!” (P2-61). A vida do herói é perpassada pelos sacrifícios e luta, mas fundamentalmente, pela conquista da vitória.
164 Observemos, pois, mais uma definição de herói incitada pelas lembranças do ser professor para os participantes da pesquisa.
Essa palavra herói, eu até considero os professores de zona rural muito herói, sabe por quê? Porque ele está lutando com uma turma multisseriada: 1ª, 2ª, 3ª e 4ª série. Ele tem que ter jogo de cintura para alfabetizar. Tem que ter jogo de cintura para passar os conteúdos para os alunos de 4ª série, por exemplo, e na maioria das vezes sem ter um material adequado para fazer esse jogo de cintura e trabalhar com esse multisseriado porque não é fácil você alfabetizar e trabalhar com o pessoal que está na família silábica, com o pessoal que ler, com o pessoal que já interpreta texto – tudo numa hora só. Então você precisa, também, ser um herói para fazer tudo isso. Alfabetizar, dividir os que já conhecem as famílias silábicas, os que já interpretam texto, aqueles que já escrevem e leem. Então são, posso dizer assim, é uma função muito difícil para o professor trabalhar com multisseriado. Em quase todas as escolas, existe isso. Professor que está trabalhando com todas as séries, tudo no mesmo horário e dento de uma mesma salinha. Então, essa é uma das maiores dificuldades do aprendizado aqui em nossa Marechal (P2-74).
O herói representa ao mesmo tempo sacrifício e vitória. No entanto o ser professor, enquanto uma profissão, não deve ser encarada na perspectiva do herói porque conquistou a vitória em sala de aula (os alunos aprenderam a ler). Enquanto profissional, é esse o resultado esperado, caso contrário, qual o sentido de ser professor? E o que significaria ensinar? Afinal, o princípio fundante do ensinar institucional (educação formal) é a aprendizagem dos alunos; processo esse que deve acontecer em decorrência do ato pedagógico. Portanto, a aprendizagem não deve ser encarada como o troféu de uma batalha. Contudo, se pensarmos na realidade amazônica na qual o professor põe a mochila nas costas e embarca numa canoa para lugares que quase ninguém quer ir, é possível sim, os considerarmos heróis simplesmente pela atitude de desprendimento e coragem, ainda que movidos pelas necessidades, conforme apontam.
As metas do ensino são pensadas para tornar o aluno melhor do que ele é, porque a posse do conhecimento o remete para mudanças de atitude: um homem ou uma mulher melhor. Por isso mesmo, o ato de educar não deve se restringir a uma missão ou mesmo a um lamento que dificulte o percurso.
Observamos, contudo, que essas condições tempestuosas presentes no percurso dos professores estão relacionadas, também, a um chamamento à responsabilidade de tomada de consciência a ser desenvolvida. Por isso mesmo, o conteúdo representacional
165 acreditar e progredir, remete ao ser capaz de encarar a realidade num ato corajoso em que maximiza ousadia e minimiza o medo. Como veremos,
Acreditar. Relacionei aqui porque se o professor não acreditar que ele é capaz de ser um professor ribeirinho, é melhor ele nem enfrentar. Porque se ele não colocar na cabeça que vai dar certo que vai se realizar... Tem que acreditar que vai dar certo (P3-87).
Só o educador se destacar daqui para ir lá para o seringal já é um corajoso. Deixar aqui sua família, ir até as Queimadas que é a última comunidade do Rio Azul que é mais de um dia de viagem só dentro do Rio Azul, então esta pessoa tem muita coragem. Também o aluno que caminha às vezes 40 minutos ou 1 hora. Tem aluno que caminha todo dia que Deus dá. Então ele é uma pessoa muito corajosa que enfrenta. Mas é atrás de progredir na vida (P2-13).
Uma verdadeira troca de conhecimento e a firmação da autoestima em função da aposta: apostar que vai dar certo; apostar no progresso; apostar que eles também são detentores de conhecimento, cuja troca simboliza o aprender mais. “E apesar das dificuldades, mas é prazeroso, você aprende muito com eles” (P2-99).
A atitude de heroísmo na ação docente e a convivência pacífica com a comunidade são lidas pelos próprios participantes a partir de uma relação de amor e amizade, consequentemente, no prazer que dizem ter. Não visualizamos, desse modo, um prazer em ensinar, ou pela profissão professor, esse prazer parece muito mais aliado ao convívio social do que mesmo à realização da docência enquanto entrega e doação. E são enfáticos nessas afirmativas,
O professor está nesse trabalho porque sente a necessidade. No meu caso, eu sinto a necessidade desse emprego. Então, ele está nesse barco por causa disso. Eu sou da cidade e fui trabalhar lá. Se tivesse emprego na cidade eu não teria ido. Eu pretendo ingressar noutro ramo. Não quero morrer como professor não (P3-70).
Nessa profissão, acumulam outras funções como vimos. Ao mesmo tempo que lecionam em turmas multisseriadas, tem que fazer a merenda, limpar a escola, e depois, se envolver nas atividades corriqueiras da comunidade. Até para ter suas plantações ou buscar no rio ou na mata os elementos que compõem o cardápio alimentar. Nesse movimento em que juntos tudo fazem para sobreviver, lembram do prazer que está sempre aliado a uma necessidade, seja da comunidade ou do próprio professor. Que prazer então seria esse? Vejamos, pois, essas justificativas:
166 Se nós vamos fazer uma coisa sem prazer, certamente esta coisa não vai sair bem feita. Então, por isso, que nós temos que ter prazer naquilo que estamos fazendo. E a necessidade. Às vezes, fica até assim, meio contraditório entre o prazer e a necessidade. Por quê? Porque muitas vezes você não faz por prazer, faz por necessidade. Acredito que eu, que na minha área, tudo bem, que a necessidade inclui também, mas eu trabalho na educação por prazer (P2-27). O educador tem uma missão difícil de trabalhar. No entanto é prazeroso porque quando nós estamos conscientes de que estamos ajudando alguém, é um prazer. É uma tarefa difícil porque aquilo que você consegue educar e ensinar no caso a aprendizagem dos alunos: uns vão mais lentos, outros mais rápidos aí o educador precisa saber lidar com tais situações. Por isso é uma tarefa difícil. Usei a palavra competente porque o educador precisar ser competente. Na verdade, se ele não tem capacidade de desenvolver tal conteúdo dentro da sala de aula, no convívio escolar, ele tem dificuldades e finda não tendo sucesso (P2-71).
São quatro coisas que o educador tem que ter. Ele tem que saber colaborar com as pessoas, principalmente as pessoas da comunidade. Ele tem que ser competente. Ele tem que ser um bom transmissor. E ele tem que ter prazer no que faz, apesar de muitas vezes, a gente não ter prazer total naquilo que está fazendo, mas estas coisas eu acho que o cidadão que está apto a trabalhar na educação ele tem que ter pelo menos alguma coisa disso. Para oferecer um bom trabalho. Hoje quando a gente trabalha na zona rural, você não está oferecendo um trabalho só para as crianças, você está oferecendo seu trabalho para os alunos e para os pais dos alunos. A comunidade toda está envolvida. As pessoas se envolvem, as pessoas respeitam, as pessoas passam a acreditar na gente. Tá entendendo! Então, você tem que dá o máximo. Fazer o melhor de si, para que aquelas pessoas, cada dia que passa, acreditem mais, mais e mais (P2-79).
Se a representação social é um sistema de valores, ideias e práticas e tem a função de orientar os indivíduos no seu mundo e facilitar a comunicação entre os membros do grupo; se as representações sociais são pontos de balizamento e de referência que permitem a orientação e interpretação do mundo social e físico, podemos então afirmar que os participantes da nossa pesquisa têm sim uma representação social do ser professor em comunidades ribeirinhas. Dados os elementos do conteúdo representacional trabalhados desde o capítulo I quando trazemos as evocações da TALP, até as análises aqui apontadas, percebemos que é, pelo convívio social, que esses participantes constroem seus guias de ação. Uma representação social em que se revelam os elementos técnicos e afetivos do fazer docente como fundamentais à ação pedagógica nesses contextos.
Desse modo, construímos a tese de que todo o sofrimento e as dificuldades elencadas ocorrem devido às peculiaridades locais (distância, isolamento), bem como
167 pelas construções negativas subjacentes à carreira docente. Os discursos negativos da profissão não se localizam na fala de um indivíduo, mas na coletividade desses participantes, tal como as justificativas sobre a mobilização das relações de amizade e solidariedade – fatores de positividade que se constroem no próprio ato de fazer ou na relação que estabelecem com os membros da comunidade. Falam do ser educador como alguém que compartilha o conhecimento e interage para além da sala de aula.
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Figura 11: O porto: Marechal Thaumaturgo – AC. Fonte: A autora (2009)