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No mesmo boletim citado anteriormente, pode-se ler uma notícia de título “USF negocia flexibilização do ajuste de mensalidades com os estudantes” (BOLETIM USF, abri/1999, p.3) informando que, em conseqüência ao fim da filantropia, a instituição negociava com os estudantes um aumento de 16,02% no valor das mensalidades.

Em junho de 1999, o Informativo USF noticia as dificuldades que as instituições educacionais e assistenciais vinham passando em virtude do fim da filantropia, e relata as ações promovidas por diversas entidades contra a lei do fim da filantropia, bem como contrárias ao recém-criado FIES – Fundo de Financiamento ao Estudante de Ensino Superior, dentre elas a ABRUC – Associação Brasileira de Universidades Comunitárias. O principal motivo, de acordo com Frei Constâncio Nogara, reitor da USF à época, para tal posicionamento, era por que consideravam:

o novo programa é inútil aos estudantes carentes. „Esse programa acaba com as bolsas e cria um financiamento que não interessa aos alunos e nem às instituições. [...] Prevê juros altos, torna as instituições devedoras solidárias se o aluno for inadimplente e acaba com o prazo de carência‟ (INFORMATIVO USF, junho/1999, p.3).

Outros problemas atingiriam a USF em 1999. Em novembro deste ano, o reitor Frei Constâncio Nogara sofre um AVC – acidente vascular cerebral – e permaneceria afastado do cargo até sua morte em setembro de 2002. Seu adoecimento e morte tiveram forte impacto sobre a comunidade da USF, e ao mesmo tempo encerrou um período da história da USF, em que Frei Nogara, juntamente com Frei Fábio Panini e Frei Caetano Ferrari, permaneceram à frente da instituição desde a transferência do

IESRB aos franciscanos em 1976. Em virtude do afastamento de Frei Nogara e a reorganização da USF sob novos enfoques, em outubro de 2000 a nova reitoria toma posse. O Frei Altair Anacleto Lorenzetti torna-se reitor com apenas 30 anos; mestre em Ciências da Educação, propõe-se a adotar uma gestão colegiada e mais dinâmica para a instituição. “Os quatro pilares de sua administração seriam: identidade, proximidade, delegação e avaliação” (INFORMATIVO USF, out/nov, 2000, p.7). Na verdade, adota- se a partir daí uma administração de caráter gerencial, rompendo com a gestão mais familiar, adequando a instituição aos modelos de gestão em voga a partir dos anos 1990, que passaram a influir inclusive sobre os governos, instituindo a gestão pública gerencial.

O novo reitor passa a reorganizar a instituição nos moldes da Gestão de Mudanças e apoiando-se em conceitos emergentes da administração de empresas com foco no „cliente‟. No Boletim INFORMAÇÃO USF, de junho de 2002, Frei Lorenzetti afirma que:

... após 15 anos de Universidade, a São Francisco também precisou iniciar seu processo de evolução [...] reestruturação acadêmica para otimizar a educação [...] remanejando professores [...] após praticamente 2 anos na gestão da mudança começam a aparecer os frutos: nota A para a Pedagogia em Itatiba [...] No mestrado obtivemos excelentes pontuações [...] Essa é a responsabilidade dessa administração. Adequar a Universidade São Francisco no padrão de excelência e administrativa para continuar cumprindo nossa missão [...]

O que se nota é uma ruptura (com continuidade) entre a história construída ao longo de mais de vinte anos e uma alteração radical na forma de administrar a universidade, antes num modelo quase de gestão familiar para a gestão empresarial, apoiada nas emergentes estratégias de reengenharia, avaliação interna, planejamento estratégico e foco no cliente. Para a professora M, esta nova reitoria, seja pelo modelo adotado ou pela pouca idade do reitor e, conseqüentemente, pouca experiência, acabou por se tornar uma gestão desastrosa para a USF. Para a professora este foi um período que, aparentemente, buscava resolver um problema financeiro da instituição, mas, para ela, tratou-se de uma mudança de mentalidade.

Novamente aqui cabe citar o trabalho de Silva Jr (2006) considerando que a contradição posta na USF (tal como na UNIMEP, estudada pelo autor) se mostra entre os objetivos da confessionalidade e os da empresa privada que se põe na atualidade, de forma ainda mais evidente e problemática. A forma como o Estado passa a se organizar e ser gerido após anos 1990 no Brasil, contrariando o pacto que lhe deu origem, de acordo com Locke (1973), exige das instituições de educação superior, especialmente as confessionais, como no caso da USF também sua reorganização alterando a forma de ser gerida. Caso contrário, é quase certo que estará fadada à falência ou será adquirida por grupos estritamente de interesse particular.

Parafraseando Silva Jr. (1992, p.68), o que foi exposto até o momento nos mostra o movimento institucional da USF enquanto processo próprio de escola privada com preocupações de natureza pública que, em função das condições históricas e institucionais, verá suas preocupações se tornando mais concretas ou não na instituição.

O ex-professor R nos fala deste período de forma visivelmente desconfortável ao trazer à tona suas memórias, parecendo não desejar retomá-las. Embora o excerto que se segue da entrevista ao ex-professor seja longo, ele nos traz elementos que confirmam as afirmações que fizemos anteriormente, bem como nos permite perceber a ruptura e início de novo período na história da USF. São elementos importantes para apreendermos a cultura da organização que passa a se forjar, sem a possibilidade de negar o passado, mas construindo sobre este outra perspectiva.

Então, a administração da universidade, ainda que ela fosse uma universidade e estivesse crescendo ela tinha características de administração familiar e por quê? Porque na verdade eles eram uma família. Aquele grupo inicial [...], eles moravam juntos e, eu que convivi com esse grupo, até porque em determinado momento eu exerci [determinada função] me aproximou do grupo de cúpula lá. Mas percebia que aquele núcleo duro ali poderiam durante o dia discutir, ouvir propostas etc. mas as decisões mesmo eram tomadas no jantar, [...] na mesa do jantar familiar. Que no caso lá o que eu estou chamando de família é o grupo de freis que era o reitor, o vice- reitor, o pró-reitor administrativo, o que eles nunca abriram mão, [...] Eu só sei que as coisas começaram a mudar e aí começaram a chegar novos freis. Se deflagrou um processo de transformação não só estrutural. Se transformou aquilo, se extinguiu as faculdades, se criaram centros. Houve uma mudança em cuja implantação também se mudou as figuras. [...] os

doze diretores de faculdade foram dispensados; pró-reitor que não fosse frei foi também dispensado [...]

Então eu não tive que passar por esse processo. Nos primeiros tempos eu encontrava gente na rua e aí diziam: “você viu que dispensaram trinta professores do Direito, 20 professores da Odontologia, trocaram o diretor da Medicina. troca daqui, dali”. Isso eu acompanhei assim, de longe, e só sabendo genericamente das coisas. [...] eu fui demitido no final de junho de 2000 [...] se instaurou um regime de terror por que eles renovaram muito; renovaram muito, o corpo docente até para poder, digamos reduzir custos [...] Por que aí, o frei Fábio já estava com uns setenta e poucos anos, já tinha passado por uma cirurgia muito grande, já tinha um tempo que estava com a saúde muito debilitada....é....ou seja, limparam o caminho e aí veio, antes do frei Gilberto [atual reitor] teve um outro reitor muito jovenzinho, mas jovenzinho mesmo, esse eu conheci, mas também não lembro o nome [frei Altair Lorenzetti] ele chegou antes mas numa posição absolutamente subalterna lá. Um frei, jovenzinho, mas quando ocorreu o impedimento do frei Constancio quem foi alçado para o cargo de reitor foi esse jovenzinho que circulava lá, não tinha cargo nenhum, era uma espécie assim de aprendiz de feiticeiro. Estava lá e de repente o cara foi ser reitor. Eu já não estava mais lá, mas soube também que o cara fez muita besteira [...]

As informações contidas na fala do ex-professor confirmam a hipótese da professora M, que considera que havia neste período mais que uma mudança de estratégia administrativo-financeira, mas uma mudança principal que era ideológica. A demissão dos diretores, de pró-reitores “leigos” denuncia esta possibilidade, bem como, ao afirmar que “limparam o caminho”, o ex-professor nos oferece a expressão que na cultura brasileira define muito bem as estratégias administrativas para mudanças maiores em uma instituição. Para se imprimir uma nova forma de gerir a universidade, sob novas idéias, era preciso afastar dela os que representavam a cultura construída e instituída até aquele momento.

No entanto, pouco antes de completar dois anos como reitor da USF, o Frei Altair Lorenzetti é substituído pelo atual reitor, Frei Gilberto Garcia. Embora documento algum faça referência aos motivos da substituição ou críticas à gestão do Frei Altair, os relatos citados anteriormente são suficientes para percebermos a necessidade de nova alteração na reitoria. Frente à longa história do Frei Constâncio Nogara, a estada do Frei Altair na reitoria foi extremamente curta.

Neste sentido, o raciocínio elaborado por Silva Jr. para descrever o período pré-1964 nos serve aqui para compreendermos o que ocorreu na USF neste

interstício entre uma fase e outra da história da instituição. Afirma Silva Jr. (1992, p.78) que

... uma vez esgotado o modelo de industrialização denominado „substituição de importações‟, a industrialização brasileira, que unia classes antagônicas, estava consolidada e assim a contradição veio à tona. Tratava-se de resolvê- la, consideradas as alternativas possíveis às ideologias em conflito: a nacionalização da economia e com ela a descontinuidade socioeconômica ou o contrário – a ruptura política para a continuidade socioeconômica.

Se neste caso a saída foi o golpe militar, optando-se pela continuidade socioeconômica, na USF nos parece que a opção foi a mesma. Rompeu-se com a liderança tradicionalmente mais apoiada na confessionalidade para que houvesse continuidade da instituição enquanto empresa.

O período que se segue então, com Frei Gilberto Garcia como reitor, delimita a mais recente história da USF que se distingue dos dois momentos anteriores.

Benzer Belgeler