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O objetivo deste sub-item não é realizar uma análise do livro A Formação do

Rio Grande do Sul, mas oferecer ao leitor uma descrição geral da obra que foi “o”

empreendimento bem sucedido da reconversão de Salis Goulart.

O livro está dividido em dez capítulos. Nos sete primeiros, Salis analisa propriamente a “formação” do Rio Grande do Sul. Nos três últimos, ele arrisca algumas “previsões” para o futuro do estado.

Na introdução Salis Goulart lança as bases teóricas da sua obra. Ao tempo de Salis e de suas formulações intelectuais, dois conceitos eram fundamentais para explicar as sociedades: raça e geografia. A par das teorias racialistas que diziam que o caráter de um povo é determinado pela raça, e das teorias do determinismo geográfico que, ao contrário diziam que é o meio geográfico que dita a índole de uma população, Jorge Salis em seu projeto de explicação dos processos históricos e sociais presentes na formação do RS, ao modo cientificista, elaborou leis sociológicas – na esteira das teorias da física social então dominante84 – chamadas

“leis da combinação e oposição da forças” para conciliar essas duas formas de explicar o sentido do caráter de um povo: a raça e o meio geográfico. Introduz um terceiro conceito a ser levado em conta na formação das sociedades: as forças sociais (mas que às vezes se confunde com o conceito de raça). Assim enuncia suas “leis sociológicas”:

I – quando as forças sociais ou raciais atuam no mesmo sentido que as possibilidades geográficas, a sua influência se torna real e máxima.

II – quando as forças sociais ou raciais são antagônicas com as possibilidades geográficas, podem dar-se dois resultados: a) as forças sociais ou raciais anulam totalmente as possibilidades geográficas; b) as forças sociais ou raciais não anulam as possibilidades geográficas e do seu encontro se origina um fato que participa tanto das forças raciais como das aludidas possibilidades. (Goulart, 1978, p. 9)

Desta forma, para ele, uma sociedade pode sofrer influência do meio (geográfico) potencializando as tendências sociais ou raciais; ou as condições ambientais se confrontam com as propensões sociais, sendo anuladas por estas, ou

84 Entretanto, Salis marca distância em relação a Auguste Comte referindo que estas „leis‟ propostas

gerando um fenômeno híbrido. Todo o discurso sobre a identidade ou o caráter da formação do RS estará apoiado na tese exposta nestas “leis” e assim sintetizado pelo próprio autor: “do entrechoque das forças sociais e das possibilidades do meio

resulta a formação gaúcha” (p. 100).

Salis recusa a idéia do determinismo geográfico para, como Vidal de La Blanche,85 admitir que tão somente existem “possibilidades da geografia para influir

sobre os acontecimentos históricos”, convencido de que se o poder da ação do

homem não consegue vencer totalmente a natureza, pelo menos cria um fenômeno social no qual participam elementos oriundos destas duas matrizes: a humana e a geográfica. Portanto, há de sua parte a pretensão de inscrever um discurso “científico”.

No primeiro capítulo, intitulado “O Povoamento”, Salis demarca sua posição entre os lusitanistas que ressaltam a participação dos açorianos na formação do Rio Grande do Sul:

Quando o Rio Grande do Sul estava nos primeiros estágios da sua evolução social, sob os estrondo das batalhas travadas corpo a corpo entre duas nações secularmente rivais – Portugal e Espanha – eternamente em luta para a conquista dos mais afastados recantos do mundo; entre a correria dos aborígenes que viviam à solta pelas agrestias cerradas da nossa terra, desde o Uruguai ao Chuí; na vida agitada e heróica dos acampamentos militares que a previdência lusa espalhava em diversos pontos da fronteira meridional do Brasil, é a colonização açoriana que

coloca num campo, aonde se entrecruzavam incessantemente o espírito belicoso e a idéia de aventura, a nota inicial do trabalho organizado e da vida calma e operosa, preparadora de um grandioso futuro econômico. (p. 15) (grifo meu)

Ainda no primeiro capítulo, o autor aborda questões como o “caráter

dispersivo do litoral”, “a colonização açoriana e alemã”, “as três zonas de

povoamento: florestas, estepes e litoral”, “as zonas geográficas e as classes sociais:

agricultores e fazendeiros”.

No segundo capítulo, “A democracia”, Salis versa sobre a “democracia rio-

grandense” – tema presente nas discussões sobre o caráter dos rio-grandenses

desde o final do século XIX – a qual, segundo ele, seria um fenômeno social resultante da combinação de fatores geográficos e sociais, expressos no famoso enunciado: “o meio físico e o trabalho pastoril imposto pela natureza do solo,

irmanando patrões e empregados, eram possibilidades importantíssimas para a

realização da democracia”.86 Salis situa a “estância” como célula social responsável

pela unidade “orgânica” da sociedade rio-grandense e pelo espírito democrático do

gaúcho: “reafirma-se destarte o papel destas [estâncias] como verdadeiras células

sociais em todo o nosso organismo coletivo” (p. 27). Assenta o trato entre o gaúcho

e o seu patrão sobre uma relação de amizade: “o gaúcho é mais um amigo do que

um subordinado do seu patrão” (p. 29). Marca distância entre o latifúndio abordado

por Oliveira Vianna, em Populações Meridionais, e a estância rio-grandense: “é claro

que entre nós não agiram as mesmas causas de concentração do povo em torno dos latifúndios , que Oliveira Vianna menciona nas „Populações Meridionais‟” (p. 29).

Outros temas e postulados abordados no segundo capítulo são “Regime

particularista e espírito comunário”, “Evolução da família”, “Organização social”,

“Inexistência de castas econômicas, sacerdotais, militares, profissionais e

intelectuais”.

No capítulo seguinte, “O sentimento religioso e a religião”, Salis defende que o sentimento religioso do rio-grandense nunca chegou a extinguir-se, mas diminuiu de intensidade, devido em parte ao “insulamento” do “hinterland” (interior) pelas “imposições iniludíveis do fator geográfico”, “falta de transportes”, e ainda:

Acrescente-se a tudo isso, a organização social da terra, imposta pela natureza da indústria pastoril, onde os homens vivem quase sempre insulados em grandes extensões de terra, em verdadeiros desertos, e poderemos, afinal, concluir que esse fato era uma conseqüência direta das próprias contingências de uma colonização que apenas se iniciava em território antes completamente bárbaro (p. 52).

Para apoiar seu postulado afirma: “era na campanha deserta que, pela falta

assinalada, o sentimento religioso mais sofria. Nas povoações, onde existiam as

capelas curadas, a religiosidade era maior - fato esse que confirma a nossa tese” (p.

54). Para Salis, decorria daí o prestígio social do “militar” em detrimento do “padre”: “o rio-grandense nunca imitou o padre, e sim o militar” (p. 56). Especulou que “o

desprestígio do padre proveio talvez em grande parte do fracasso dos jesuítas das

86

Para ver mais sobre o mito da “democracia sulina” ver o livro RS: cultura & ideologia, da série documenta, publicado pela editora Mercado Aberto, do início dos anos 80, que constitui em estudo clássico da história e historiografia sul-riograndense. Nele, artigos como O Gaúcho: o mito da

„produção sem trabalho‟, de Décio Freitas, e Historiografia e Ideologia, de Sandra Pesavento, Jorge

Salis Goulart é citado para ilustrar as idéias e mitos da “historiografia tradicional”, a qual se queria criticar e combater naquele momento.

Missões”, e concluía: “era natural, pois, que o sentimento patriótico e guerreiro do

rio-grandense, a combater por tanto tempo a figura do jesuíta, crescesse em redor

dos chefes militares, diminuindo o prestígio do padre” (p. 58).

No quarto capítulo, intitulado “A Teatralidade”, o autor discorre sobre “A

função social do cavalo”, “Psicologia das batalhas”, a “Diferenciação entre o gaúcho

e o sertanejo do nordeste”.

No capítulo posterior, Salis aborda “A sociabilidade e o individualismo” e ainda, a “Função social da organização militar”, “Causas sociais e psicológicas que

agiram na formação da alma gaúcha: a hospitalidade, a alegria, a generosidade”, “A

força progressista da psicologia gaúcha”, “O pensamento de Nietszche e a moderna

corrente sociológica”.

O capítulo seguinte, chamado “A formação do estado”, dedica-o todo a defender a tese da “diferenciação entre o povo rio-grandense e o platino”. Para Salis, duas causas agiram na diferenciação entre o gaúcho platino e o gaúcho rio- grandense: “o fator social e o fator étnico” (p. 102). Atribui uma suposta “crueldade

do gaúcho hispano” à miscigenação entre espanhóis e indígenas (p.102). Diz que o

gaúcho rio-grandense é superior ao platino por que “a mescla com o elemento

indígena no Rio Grande do Sul foi insignificante” (p. 102). Utilizando as idéias

racialistas do século XIX, Salis exalta a “superioridade” da “raça pura” em detrimento da “fraqueza” dos “mestiços” (p. 105).

No sexto capítulo – “Síntese política da sociologia Rio-grandense” – o autor enfoca “o espírito republicano”, “sentimento federativo”, “formação do partido liberal”, “o caráter rio-grandense e o positivismo”, “Lamennais e Comte”.

Os três últimos capítulos são dedicados ao futuro do Rio Grande do Sul. Neles versa sobre “O problema das raças”, “O crepúsculo das Revoluções” e “A

formação da mentalidade Rio-grandense”.

Benzer Belgeler