Apesar de ser um conceito-chave para a crítica literária moderna, a teoria da intertextualidade não está isenta de críticas, das quais destacaremos agora as do já citado Michel Riffaterre, de Antoine Compagnon e de Séan Burke.
Em uma de suas obras sobre estilística, Riffaterre faz uma crítica pertinente aos “formalistas franceses”, isto é, o grupo da Tel Quel. Ele reconhece a importância desses críticos, sobretudo por terem inaugurado uma forma de pensar a literatura dissociada da tradicional "estética das motivações exteriores", da qual é parte o estudo das influências, mas se opõe radicalmente à morte do Autor. Embora encare, como vimos anteriormente, os textos 161 GOULET, A. Les Faux-monnayeurs mode d'emploi, op. cit., p. 129.
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GIDE, op. cit., p. 151.
como estruturas dentro das quais outros textos se comunicam, considera a questão da morte do Autor problemática por enxergar o texto apenas enquanto estrutura, sem levar em conta a função referencial da linguagem, reduzindo-o a um sistema totalmente isento de mensagens. Assim sendo, não se poderia mais falar em:
fidelidade na imitação da realidade através de textos, nem de conformidade ou propriedade moral de uma mensagem; a partir daí, não pode[mos] mais basear [os] julgamentos de valor na verdade da obra de arte, mas apenas na sua validade, ou seja, na coerência de seu sistema interno164.
Parece-nos um tanto ingênuo da parte de Riffaterre falar em imitação fiel da realidade, mas sua apreciação sobre a morte do Autor é interessante porque põe em pauta o problema causado pela concepção de esvaziamento dos textos. Para que servem, se são apenas "sistema[s] combinatório[s] finito[s] de signos dentro dos sistema combinatório da língua"165 e
não transmitem nenhuma mensagem? Com qual propósito os lemos? Estamos todos – escritores e leitores – motivados apenas pela curiosidade em ver elementos deslocados de vários lugares e postos em conjunto, sem nenhuma outra razão? E porque alguém escolhe justamente recombinar certos elementos, e não outros, para construir um texto?
A morte do Autor também está no cerne das discussões propostas por Compagnon e Burke. Segundo eles, seu ponto de partida está no ataque à tese intencionalista, de acordo com a qual é necessário conhecer as intenções de um autor para compreender corretamente seu texto. Esse tipo de teoria inutilizaria a crítica literária – afinal, se podemos encontrar os significados de um texto apenas sabendo o que o escritor quis dizer, não precisamos de teorias. Além disso, os partidários da morte do Autor o identificam à burguesia, ao capitalismo e a Deus:
The death of the author might be said to fulfill much the same function in our days as did the death of God for late nineteenth-century though. Both deaths attest to a departure of belief in authority, (...) intention, (...) and creativity166.
Ou seja, o desaparecimento de uma autoridade, para a qual a linguagem é a substituta. Não existe uma pessoa, um sujeito por trás da escritura, já que a linguagem é impessoal. Portanto, também a escritura não representa absolutamente nada anterior à sua criação. Sendo
164 RIFFATERRE, M. Estilística. São Paulo: Cultrix, 1973. p. 251. 165
Ibid., p. 250.
construída a partir de algo anônimo e impessoal, também ela é impessoal, e não reflete nenhuma subjetividade. E aí entra o intertexto, o "mosaico de citações": se o ato de escrever não "representa" um sujeito, ele só pode originar-se em si mesmo, se reescrevendo sempre, como a serpente mordendo a própria cauda. Cria-se então uma imagem dos textos, e conseqüentemente, da literatura, como um circuito fechado sem nenhum contato com nada além dele mesmo.
Os dois críticos167 são unânimes em declarar que é preciso encarar a morte do Autor
com muitas reservas, porque ela surge em um momento de ruptura na França, na esteira dos acontecimentos de 1968168. Tendo sido somado às instituições contra as quais a época se
insurgia, se criou para o autor uma imagem associada à autoridade e, por que não dizer, a um certo tipo de repressão para que sua morte fosse aprovada e significativa:
Roland Barthes in the “The Death of the Author” does not so much destroy the “Author-God”, but participates in its construction. He must create a King worthy of the killing. Not only in the author to be compared with a tyrannical deity, but also with bourgeois man himself: it is, Barthes writes, z”the epitome and culmination of capitalist ideology... which has attached the greatest importance to the zpersonz of the author” (...). Hence, too, the comparison with the capitalist, and the capitalizations (...) prime for decapitation.169
Em suma, foi criado um tipo de autor que nunca teria existido de fato pois, para Burke, o poder absoluto imputado ao autor por Barthes é real somente na defesa de seu desaparecimento.
Como resultado da morte do Autor, o papel de organizador do texto passa a ser do leitor; nele se produz a unidade da escritura. Mas nem mesmo esse leitor é considerado um
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Ambos também concordam em atribuir às reivindicações pela primazia da linguagem em detrimento do sujeito, feitas inicialmente por Mallarmé, a responsabilidade pela "declaração de óbito" do autor: "The disappearance of the writer, the autonomy of writing the beginning of écriture in an act of textual dispossession, the power of language to organize and orchestrate itself without any subjective intervention whatsoever, the notion of the intertextualising of all literature (...). With Mallarmé, the sublime origin of literature which the romantics sought alternately in imagination, or in the Muse, is now discovered within language itself" (Ibid., p. 9. Grifo do autor).
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"Selon certains, ce serait un problème rendu caduc par la modernité littéraire: lzauteur lui-même nzest quzun personnage du dix-neuvième siècle. Jouissant de droits, exerçant une propriété, bénéficiant dzun prestige, il a sa vie, son œuvre, exprime sa personne privée dans lzœuvre engendrée. Aujourdzhui, lzopposition de lzauteur et de son corrélat, ou de son prédicat, lzœuvre, ferait place à une autre; lzécrivain et le texte. Suivant cette argumentation, lzauteur serait une vieillerie idéologique à remiser au magasin des antiquités, voire une baudruche à tuer. Ainsi, Barthes consacra naguère à la mort de lzauteur un essai quelque peu imprudent dans sa radicalité (czétait une époque où lzon mourait beaucoup: après Dieu, lzhomme, le sujet, lzauteur) (...). Hélas, les fantômes ont la vie dure, et lzauteur, un instant effacé par le structuralisme, réapparaît dans les années 1980, avec le retour au subjectif dans les mœurs, et à lzhistoire dans la littérature" (SCHNEIDER, M. Voleurs de mots. Paris: Gallimard, 1985. p. 35. Grifos do autor).
sujeito, sendo visto somente como uma função, sem história, biografia ou psicologia. Voltaremos à questão do leitor no terceiro capítulo dessa dissertação. Por hora, basta observarmos a afirmação de Compagnon sobre a substituição de papéis operada pelo desaparecimento do sujeito por trás da escritura, e que finalmente se trataria de uma mera transferência. O leitor ganha importância e liberdade de comentário mas, na falta de uma verdadeira reflexão "sobre a natureza das relações de intenção e de interpretação, não é do leitor como substituto do autor de que se estaria falando? Há sempre um autor: se não é Cervantes, é Pierre Ménard"170. E Compagnon levanta ainda um outro problema: a teoria da
morte do Autor confundiria a pessoa empírica e biográfica com o autor, considerando a intencionalidade como critério de interpretação. Para negar o autor é preciso assumir a tese intencionalista como correta, tese contra a qual se opunha a chamada nova crítica, da qual faziam parte nomes como Barthes e Foucault.