do século XIX pode ser entendido como uma tendência da filosofia burguesa reacionária1, embora este seja apenas um dos aspectos desta mentalidade. Outro sentido que podemos indicar para este fenômeno, sem desvincular sua inserção nas tensões histórico-sociais, remete à construção conceitual do projeto filosófico moderno direcionado para a fundamentação da ciência. E, neste caso, a abertura da era moderna tem em Descartes (1997) seu ponto forte. O estabelecimento do sujeito capaz de apreender a natureza (reconhecida como objeto, matéria, substância desprovida de valoração teológica) para dominá-la e, a partir disso, formular as leis gerais como base para o conhecimento racional, lógico e científico, é uma das mais importantes manifestações da razão como epicentro da modernidade. Logo, a era moderna nasce e se desenvolve dentro da crise e do conflito pela disputa do sentido da história e da ordenação social, efetuadas pelas diversas forças sociais e políticas.
Porém, segundo Lukács (1959), este campo conceitual não pode ser entendido apenas por meio de uma abordagem escolástica, na qual os problemas levantados e suas respectivas respostas permanecem resumidos a construções intelectivas sem maiores contatos com os condicionantes sociais que lhes sustentaram. Não se trata, assim,
1 O conflito entre racionalidade e irracionalidade que se manifesta no século XIX pode
ser compreendido dentro do mesmo processo, isto é, como desdobramento da filosofia burguesa. Segundo Coutinho (2010, p.21): “Na história da filosofia burguesa, é possível discernir – com relativa nitidez – duas etapas principais. A primeira, que vai dos pensadores renascentistas a Hegel, caracteriza-se por um movimento progressista, ascendente, orientado no sentido de uma racionalidade humanista e dialética. A segunda – que se segue a uma radical ruptura, ocorrida por volta de 1830-1848 – é assinalada por uma progressiva decadência, pelo abandono mais ou menos completo das conquistas do período anterior, algumas definitivas para a humanidade, como é o caso das categorias do humanismo, do historicismo e da razão dialética. Essa descontinuidade da evolução filosófica corresponde naturalmente à própria descontinuidade objetiva do desenvolvimento capitalista. O antagonismo entre progresso e reação, que marca desde as origens a evolução da sociedade burguesa, apresenta, a partir de 1848, um novo aspecto: as tendências progressistas, antes decisivas, passam a subordinar-se a um movimento que inverte todos os fatores de progresso (que certamente continuam a existir) ao transformá-los em fonte do aumento cada vez maior da alienação humana.”
simplesmente de ideias filosóficas em sentido puro e abstrato, tampouco do impulso genial de seus autores, mas de concepções de mundo que emanam do desenrolar das forças produtivas, da sociedade de massa, do desenvolvimento social urbano e industrial, do conflito gerado na luta de classes, ou seja, dos elementos que englobam a produção destas ideias. De outro modo, a análise da questão do irracionalismo poderia se fixar, pela via de uma filosofia auto-referente, em uma deformação idealista, em função da qual não se retiraria nenhum progresso da investigação. Conforme acentua Lukács (1959, p.04), o caminho para uma investigação profunda do problema das concepções que expõem o irracionalismo no auge da modernidade iluminista está em que
(...) partiendo de la vida social, conduce nuevamente a ella el que da al pensamiento filosófico su verdadera envergadura y el que determina su profundidad, incluso en su sentido estrictamente filosófico. Y así enfocado el problema, es cuestión puramente secundaria el que los distintos pensadores sean o no conscientes de esta su posición, de esta su función histórico-social, y hasta qué punto lo sean.
Não obstante, a modernidade construída, pelo menos naquilo que diz respeito ao discurso responsável pela produção de um projeto, tem em seu epicentro a razão como elemento de articulação de diferentes etapas. E, em seu sentido oposto, os elementos irracionais emergem voltados para a suspensão do projeto viabilizado pela razão. Isto implica que a razão, bem como sua face negativa marcada pela irracionalidade, só pode ser concebida em relação com o desenrolar do processo histórico-social. Assim, ambos os momentos (racionalidade e irracionalidade) representam a extensão das condições concretas da existência humana e, devido a isso, não são, analiticamente considerados, desprendidos por uma disposição neutra e imparcial.
Entende Lukács que esta via analítica não recai no relativismo histórico. Antes, é justamente por meio da objetivação histórico-social, a qual gradativamente amplia os domínios da consciência sobre a realidade, que a razão pode ser apreendida em conflito com seu oposto definido pela irracionalidade dentro de um processo mais amplo. Deste
modo, a objetividade a ser alcançada não reside apenas nos limites fixados pela racionalidade, mas na sua averiguação dentro de um horizonte que revela sua parcialidade e seu estágio transitório, ou seja, sua função social em um processo que a engloba.
Neste sentido, racionalidade e irracionalidade se definem mutuamente na manutenção de uma dinâmica conflitante. Ambas se encontram, no auge do choque anunciado no século XIX, enquanto manifestações da mentalidade burguesa, sendo a racionalidade sua primeira forma de afirmação e a irracionalidade seu contraponto reacionário. E, para este quadro, a ideia de progresso serve como referencial para se mensurar os contornos do conflito, bem como seu pertencimento ao mesmo processo histórico-social2. Para Lukács (1959, p.06), “El primer período importante del irracionalismo moderno surge, congruentemente con esto, en lucha contra el concepto idealista, dialéctico-histórico, del progreso.”
Em se tratando da formação de uma mentalidade burguesa voltada para o progresso, tendo este como projeção das realizações científicas no discurso moderno, é possível destacar o positivismo de Augusto Comte como expressão do otimismo engendrado pela racionalidade. O ponto de partida do positivismo está na constatação de que existe uma lei fundamental na história, a qual consiste em que “(...) cada uma de nossas concepções principais, cada ramo de nossos conhecimentos, passa sucessivamente por três estágios históricos:
2 A ideia de progresso é parte fundamental da força motriz da era moderna. Apesar de
seus deslocamentos internos, tal concepção foi responsável por nortear aproximadamente três séculos de pensamento (século XVII – século XIX). Segundo Dupas (2006, p.13-14), “A era moderna emergiu com idéias, planos e propostas futuristas, e com intolerância em relação aos credos da Renascença – sobretudo o culto aos antigos –, que passaram a ser rotulados como antiquados, ao passo que a palavra moderno adquiriu conotação de elogio. As novas descobertas da ciência passaram a ser uma espécie de ‘marcadores’ dessa mudança cultural. Mas houve muita oposição. Durante mais de um século, até a época de Voltaire, a disputa pela primazia entre antigos e modernos envolveu a literatura, a filosofia e a religião, decidindo o destino de obras e autores. Nas ciências naturais, a partir do século XVII, prevaleceu claramente a idéia de que o mais recente é sempre o mais verdadeiro ou o melhor. Enfim, os modernos e sua nova onda cultural prevaleceram impondo maior ‘sabedoria’ como condição para o progresso. A partir da segunda metade do século XVII, e durante todo o século XIX, a idéia de progresso foi dominante no Ocidente.”
estado teológico ou fictício, estado metafísico ou abstrato, estado científico ou positivo.” (COMTE, 1996, p.22)3.
Há como pano de fundo desta concepção histórica o viés evolucionista que apresenta os estágios não apenas de modo sucessivo, mas enquanto uma projeção da história para sua realização na etapa positiva, na qual se dá o predomínio da ciência e, portanto, das condições adequadas para a civilização. Entende Comte que no estado
teológico os homens permaneceram presos às entidades sobrenaturais,
o que se revelou como fantasia em relação ao conhecimento produzido neste padrão. De maneira semelhante, o estado metafísico se apoiou em entidades abstratas, personificando-as e condicionando o conhecimento no engano decorrente da ausência de qualquer correspondência com os fenômenos observados. Em contrapartida, o desenvolvimento da ciência na modernidade forneceu ao ser humano a capacidade de conhecimento verdadeiro acerca da realidade.
Nesta direção, o positivismo se reveste de auto-legitimidade ao se pronunciar como uma filosofia do progresso da humanidade. Este progresso se consolidaria pela produção de um sistema das ciências que tem a finalidade de agregar toda a capacidade de conhecimento sobre todos os fenômenos que constituem a realidade. Ou seja, Comte identifica o desenvolvimento na modernidade de quatro grupos gerais de saber, distribuídos em conformidade com os grupos de fenômenos a
3 O positivismo pode ser percebido aqui como catalisador de uma concepção
essencialmente moderna: a Verdade histórica promove a redenção da humanidade. Utilizando-se da obra de Goya como referência, Coli (1996, p.302) esclarece esta questão: “Goya, um pintor que celebra e eleva a razão: os testemunhos disso são números em sua obra. Em 1797, por exemplo, esboça a alegoria: A Verdade revelada
pelo Tempo e testemunhada pela História. O Tempo como entidade capaz de fazer fugir
a Verdade é um velho tema das iconologias. Ele foi muito empregado na propaganda religiosa contra as heresias, por exemplo. Aqui, entretanto, uma dimensão moderna infiltra-se no discurso alegórico. Das iconologias surge também a figura da História. Porém, se o vocabulário simbólico é antigo, a frase alegórica é nova. Ao testemunhar o surgimento da Verdade, o objeto da História deixou de ser o episódico, a biografia dos reis ou o desfilar das batalhas. Ele manifesta agora como a irrupção daquilo que é verdadeiro dentro do fluxo aventuroso da humanidade, que entra numa era sub ratio. Mais ainda, o atributo por excelência da verdade é a luz, que luta com as trevas e seus terríveis habitantes. Goya concebe uma figura irradiante que afasta a noite e seus cúmplices inquietantes. Ora, nesse final do século XVII a luz tornara-se, por excelência, o emblema da razão, que se opunha ao obscurantismo. Essa composição assinala, portanto, o marco inaugural de um período que se inicia dentro da História, plenamente banhado pelas luzes da Verdade.”
serem investigados: fenômenos astronômicos, físicos, químicos e fisiológicos. E, se propõe lançar as bases da ciência responsável pelo estudo dos fatos sociais, ainda não contemplados no quadro das ciências positivas. Assim, o acabamento das ciências fica por conta do estabelecimento da física do social.
Entretanto, segundo Habermas (1987), o positivismo, enquanto
filosofia do progresso, apresenta um paradoxo em sua relação com o
discurso moderno. Qual seja: 1) o positivismo se pretende fechar o sistema das ciências geradas na modernidade, tendo em sua base uma concepção histórico-evolucionista do conhecimento que contribui para a exposição de uma teoria da ciência; 2) ao buscar o acabamento do sistema das ciências, o positivo se retira do debate propositivo que visava a sustentação da ciência por meio do fundamento extraído da razão circunscrita pela metafísica.
Este paradoxo reflete no deslocamento do modelo de racionalidade encontrado a partir do positivismo, o qual não se preocupa com os princípios formulados na Teoria do Conhecimento4 elaborada entre os séculos XVI e XVII e que postulava o fundamento da ciência (diga-se, de ordem metafísica) anterior aos seus próprios procedimentos investigativos. Esta concepção diferenciada de racionalidade trazida pelo positivismo implica, de acordo com Habermas, em dois movimentos integrados. Em um primeiro momento, cabe firmar a exatidão do conhecimento científico pela elaboração de teorias científicas sem o
4 A concepção de Teoria do Conhecimento contribui para agrupar, de modo geral, os
direcionamentos da filosofia na era moderna, conforme destaca Habermas (1987, p.25): “Quisesse alguém reconstruir o debate filosófico dos tempos modernos na forma de um júri, esse teria que ser convocado para decidir sobre a seguinte questão: como é possível adquirir um conhecimento digno de crédito? Foi somente o século passado que cunhou o designativo teoria do conhecimento; o assunto, assim nomeado retrospectivamente, é o tema por excelência da filosofia moderna, pelo menos nos umbrais do século XIX. O esforço inerente ao pensamento tanto racionalista quanto empirista intentava, de modo igual, a delimitação metafísica da área do objeto e a justificação lógico-psicológica da vigência de uma ciência da natureza, caracterizada pelo experimento e por uma linguagem formalizada. Sem dúvida, por mais que a física moderna com a abundância de dados empiricamente domesticados, tenha sido o ideal de um saber claro e distinto, a ciência moderna não coincidiu com o conhecimento enquanto tal. A posição da filosofia moderna diante da ciência caracterizou-se naquela época exatamente pelo fato de um conhecimento filosófico imperturbável conceder, pela primeira vez, um espaço legítimo a ciência.”
suporte da erudição (fundamentada na tradição) e com a afirmação do conhecimento oriundo das experiências, das sucessivas tentativas e erros de compreensão da natureza e da substancialidade das coisas. Em segundo lugar, a ciência é legitimada pela utilidade do conhecimento, pelo bem-estar promovido pelas descobertas e construções técnicas, e pela manifestação da vontade e da expectativa de um domínio cada vez mais amplo dos processos naturais e sociais.
No entanto, antes da oposição declarada entre racionalidade e irracionalidade no século XIX, há uma abertura significativa da razão em duas vias, o que resulta, em linhas gerais, em um conflito desgastante para uma delas: aquela que se pretende una, objetiva e suporte para a
emancipação humana nas prerrogativas do projeto iluminista. Podemos,
com o propósito de identificar inicialmente estas duas vias, fazer uso da terminologia presente no pensamento de Horkheimer (1973): razão
objetiva e razão instrumental. Na relação que cada qual estabelece com
sua aplicação reside uma primeira definição possível delas. A primeira se dirige para fins que não são imediatamente desejados, mas estão colocados em objetivos que não são apenas meios para a obtenção de algo específico. A segunda, de modo distinto, atua na adequação de meios e fins para a realização e/ou obtenção de algo imediato.
Segundo Horkheimer, do ponto de vista da atuação cotidiana da racionalidade, seu referencial está na capacidade de julgar as coisas que são úteis dentro de um quadro formado por leis, costumes e pela tradição. Os atos racionais decorrentes deste uso são atribuídos à capacidade de classificação, conclusão e dedução, sem que seja considerado o funcionamento abstrato do pensamento. Este tipo de racionalidade caracteriza-se de forma subjetiva, adequando meios e fins na realização de atividades cotidianas e, ausentando-se da preocupação com objetivos de maior projeção como, por exemplo, a auto-conservação do indivíduo na sua relação com a comunidade. Com isso, não há no alcance desta forma de racionalidade (instrumental) a predileção por valores que não estejam no campo daquilo que é imediatamente útil, ou para a reflexão acerca da ordem social como um todo.
Por más ingenua o superficial que pueda parecer esta definición de la razón, ella constituye un importante síntoma de un cambio de profundos alcances en el modo de concebir, que se produjo en el pensamiento occidental a lo largo de los últimos siglos. Durante mucho tiempo predominó una visión de la razón diametralmente opuesta. Tal visión afirmaba la existencia de la razón como fuerza contenida no sólo en la conciencia individual, sino también en el mundo objetivo: en las relaciones entre los hombres y entre clases sociales, en instituiciones sociales, en la natureza y sus manifestaciones. (HORKHEIMER, 1973, p.16)
Contudo, a relação entre estes dois modos não é de antagonismo. Antes, são modos coexistentes. O que muda, de fato, é a primazia ocupada entre um e outro modo no processo histórico. E, partindo desta abertura da razão em dois momentos distintos, podemos chegar à concepção de que há até mesmo uma “pluralidade” inerente à racionalidade que desde sua gênese na cultura ocidental produziu obstáculos para sua afirmação enquanto uma unidade auto-referente, o que também pode ser entendido como uma crise sempre presente na racionalidade5.
5 A primazia da racionalidade na era moderna, bem como sua crise endógena, pode ser
percebida tanto do ponto de vista sociológico quanto político. Os reflexos sociológicos da racionalidade no mundo ocidental podem ser indicados, em primeiro lugar, a partir do desencantamento do mundo, ou seja, com base na teoria da secularização formulada por Max Weber, a qual segundo Lechner (1991, p.1.104) consiste que “(...) em certas sociedades as visões de mundo e as instituições ancoradas na transcendência perdem influência social e cultural como resultado da dinâmica da racionalização. (...) as sociedades ocidentais foram as mais afetadas por processos de racionalização, elas se tornaram profundamente secularizadas.” Paralelo a isso, em segundo lugar, a racionalização do mundo social foi responsável pelo declínio da
tradição e a consequente queda dos referenciais absolutos. Este aspecto foi destacado
por Tocqueville (1997, p.67-68) com base na ruptura exposta a partir da Revolução Francesa, a qual “(...) destruiu inteiramente ou está destruindo (pois ela ainda continua) tudo que, na antiga sociedade, derivava das instituições aristocráticas e feudais, tudo que a elas se ligava de uma ou outra maneira, tudo que delas trazia por menor que fosse. (...) mesmo que não tivesse surgido a Revolução Francesa, o velho edifício social teria ruído por toda a parte, aqui mais cedo, acolá mais tarde, mas teria caído, peça por peça, em vez de desmoronar-se de uma só vez. A Revolução resolveu repentinamente, por um esforço convulsivo e doloroso, sem transição, sem precauções, sem deferências, o que ter-se-ia realizado sozinho, pouco a pouco, com o tempo.” As implicações políticas desta transição podem ser entendidas por meio da abertura que impulsionou a disputa pelo estabelecimento do novo sentido da história. Do ponto de vista conservador, Burke empreende uma crítica a um tipo novo de razão surgido na França com a Revolução: a razão política, a qual se contrapõe diretamente com a razão geral própria ao antigo regime. Segundo Chevallier (1999, p.229), há “(...) um novo emprego do processo de reversão do argumento adversário: à razão deles, Burke opõe a sua. Eis também uma nova forma de reabilitação do preconceito. Nós ingleses, escreve Burke, ‘receamos expor os homens a só viverem e comerciarem com o fundo particular da razão que pertence a cada um, porque suspeitamos que esse capital é
Nesta direção, Wolff (1996) considera que há apenas uma via possível para se falar em nascimento da razão: o momento em que se coloca em evidência a razão como sistemas de pensamento articulados e carregados com a própria vivência do período em que surgem e se submetem ao movimento do mundo humano que os circunscrevem. Tais sistemas de pensamento se caracterizam pelos modos de seleção dos discursos socialmente legítimos acompanhados da história das técnicas da verdade.
Diante disso, é possível constatar momentos de ruptura na organização geral do saber e, encontramos como primeira ruptura significativa neste âmbito, a “passagem do mito à razão” que ocorreu por volta do século V a.C. na Grécia. Esta passagem representa o aperfeiçoamento de uma nova ordem de saber que é responsável por organizar novos campos de conhecimento, acentuando novos critérios de validação e reconhecimento dos discursos verdadeiros. Na realização deste movimento, em que a razão pode ser inicialmente percebida, surgem os primeiros sistemas filosóficos. E, aqui, a razão aparece com dois traços característicos. O primeiro deles diz respeito a sua disposição negativa que recusa toda a autoridade que repousa no estágio anterior, isto é, como recusa da tradição6 e busca pelo novo sentido a ser construído. O segundo é de caráter positivo e resulta na sua capacidade de universalização.
No entanto, este estágio revela que já em seu aparecimento a razão, como referencial ordenador dos sistemas de pensamento, repousa sobre a pluralidade. Isto é, sua expressão inicial se dá por meio fraco em cada indivíduo’. Essa razão individual, perante a qual se ajoelha o espírito do século, Burke não a nega, mas lhe atribui pouca eficácia. Ela é, por si só, um fraco capital e os homens fazem muito melhor ‘em tirar proveito todos juntos do banco geral, do capital das nações e dos séculos’, por outras palavras, dos preconceitos gerais, herdados dos ancestrais. Existe, em dado momento do tempo, para uma dada nação, um conjunto de preconceitos nos quais ela vive. Para os pensadores abstratos, à francesa, convém odiar o preconceito, bani-lo, porque a razão individual, que não o escolheu, sente-se chocada em sua presença.”
6 Em uma das musas de Sócrates, segundo Platão, no pensamento dialético de
Heráclito, há transferência do sentido e validade do saber oriundo da tradição e narrado