Dentre os modelos de certificação por ONGs, destacam-se as iniciativas de comércio justo (Fair Trade) e a certificação de produtos orgânicos, tratada no presente trabalho como “pública + privada”. A escolha de tratar a certificação orgânica como “pública + privada foi feita com base na classificação usada no documento da FAO “Summary Analysis of Relevant Codes, Guidelines, and Standards Related to Good Agricultural Practices - Background Paper for the FAO Expert Consultation on Good Agricultural Practices”, de Novembro de 2003.
2.10.1. Comércio Justo (Fair Trade)
Comércio Justo é definido pela International Federation of Alternative Trade (IFAT) como “uma parceria comercial baseada em diálogo, transparência e respeito, que busca maior eqüidade no comércio internacional. Ele contribui para o desenvolvimento sustentável através de melhores condições de troca e a garantia dos direitos para produtores e trabalhadores marginalizados – principalmente do hemisfério sul”.
A preocupação de consumidores e instituições de apoio ao desenvolvimento rural em relação aos efeitos do sistema econômico existente resultou no surgimento de uma aliança inovadora: consumidores, ONGs, agências de cooperação e instituições de caridade realizam as primeiras iniciativas do movimento Fair Trade (Sebrae, 2004).
A nova lógica é: o pequeno produtor deve vender o seu produto o mais diretamente possível para o consumidor esclarecido e assim desligar-se do convencional sistema de comércio. Do lado dos produtores nasceram entidades de beneficiamento e soluções de logística próprios. Dentro de pouco tempo, pequenos produtores e organizações do mercado Fair Trade controlaram sua própria rede de produção, comércio e distribuição. Os pioneiros deste movimento, como a Traidcraft da Inglaterra, inspiraram inúmeras outras iniciativas na Europa, Estados Unidos, Canadá e Japão (BSD, 2007).
2.10.2. Objetivos
Esta iniciativa tem como objetivo principal estabelecer um contato direto entre o produtor e o comprador e tirá-los da dependência de atravessadores e das instabilidades do mercado global de commodities, evidenciando que a relação comercial entre eles precisa obedecer a princípios precisos para que possa ser considerada justa. Os princípios mais relevantes são: Transparência e co-responsabilidade na gestão da cadeia produtiva e comercial; Relação de longo prazo que ofereça treinamento e apoio aos produtores e acesso às informações do mercado; Pagamento de preço justo no recebimento do produto, além de um bônus (premium), que deve
beneficiar toda a comunidade, e financiamento, quando necessário; Produtores organizados democraticamente, (por exemplo, em cooperativas); Respeito à legislação e normas (por exemplo, trabalhistas) nacionais e internacionais e crianças freqüentando escola; Respeito ao meio ambiente (Sebrae, 2004)
A meta de todas estas atividades é o acesso facilitado a mercados e financiamentos de produtores para o melhor desenvolvimento social e econômico das comunidades rurais no mundo todo. Os consumidores, por sua vez, recebem produtos com garantia de origem, conhecendo assim as condições de produção e o processo de desenvolvimento dos produtores. Critérios para o funcionamento deste mercado foram elaborados pelas organizações de comércio alternativo (ATO - Alternative Trade Organizations) e pelas entidades certificadoras de produtos do mercado solidário (FLO - Fairtrade Labelling Organizations International) (BSD, 2007).
Os critérios mais importantes são:
• Contato direto entre produtores e mercado consumidor • Transparência dentro da cadeia produtiva e comercial
• Transferência de informações do mercado para os produtores • Preço mínimo para o produto
• Produtores reunidos democraticamente
• O beneficio do comércio atingindo toda comunidade produtora • Leis (trabalhistas) nacionais e internacionais respeitadas
2.10.3. Controle
As certificações são concedidas pelas Iniciativas Nacionais, presentes em 17 países, sendo 14 na Europa e 3 nos EUA, Canadá e Japão. Em 1997 elas criaram a entidade internacional de certificação FLO – Fair Trade Labelling Organizations International, que certifica os produtos vendidos e seus respectivos produtores, além de ser responsável pela harmonização dos critérios e da criação do selo unificado. Atualmente, o único selo de Fair Trade que corresponde a padrões internacionais de certificação com monitoramento externo é o da FLO. Este padrão tem recebido dois tipos de crítica: críticas à prática de certificação externa (em contraposição à
autocertificação ou certificação participativa) e críticas à certificação de produtos (em contraposição à certificação de organizações) (Sebrae, 2004).
Além dos procedimentos adotados por IFAT, FTF (Fair Trade Federation) e pela FLO para buscar garantir a prática de comércio justo, há organizações que utilizam seu próprio nome no mercado como garantia de suas práticas. Organizações como The Body Shop possuem linhas de produtos que incorporam práticas de comércio justo e que são vendidas aos consumidores com base na credibilidade da própria instituição (BSD, 2007).
O conceito de Comércio Justo divulgado pela FLO é fundamentado na Certificação por uma terceira parte independente, chamada FLO-CERT. A FLO-CERT certifica as associações de pequenos produtores e comerciantes, sendo que tais produtos podem ser reconhecidos pelo consumidor através do selo Fair Trade.A marca Fair Trade é um selo independente que aparece nos produtos finais, sendo a única garantia para os consumidores de que os produtores receberam um preço que cobre os seus custos de produção e foram orientados a utilizar o Prêmio Fair Trade na melhoria das suas condições socioeconômicas, sempre com respeito ao meio ambiente. As partes envolvidas na produção e comercialização recebem inspeções anuais para garantir a transparência das transações comerciais Fair Trade, assim como para monitorar o impacto efetivo no desenvolvimento socioeconômico das comunidades beneficiadas (FAIR TRADE BRASIL, 2007).
Para que um produto apresente o selo Fair Trade, é obrigatório que todos os elos da cadeia de produção estejam conformes com as normas internacionais de certificação do comércio justo, as quais são determinadas por especialistas em certificação internacional da FLO (FAIR TRADE BRASIL, 2007).
2.10.4. Fair Trade no Brasil
Um mercado interno de Comércio Justo, seguindo a definição da IFAT, praticamente não existe. Mesmo do lado da produção local de alimentos, destinada a compradores internacionais, o Brasil tem apenas 10 grupos de produtores certificados pela FLO, representando menos de 4,5% do total dos 229 produtores da América Latina, ficando atrás de países como
Bolívia, Peru e Colômbia (Sebrae, 2004). No Brasil, uma alternativa que tem sido discutida é a garantia dada por redes de organizações que adotam a certificação participativa, como a rede de agroecologia Ecovida (BSD, 2007).
Há um movimento tomando corpo no Brasil hoje para promover o reconhecimento do comércio justo por parte do comércio varejista e do consumidor, isto é para desenvolver um mercado interno para produtos de comércio justo no Brasil (BSD, 2007).