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A aldeia comunal camponesa, caracterizada por João Batista Libânio155, gira ao redor de três eixos que organizam a vida comunal e a visão de mundo de seus habitantes. Ele diz:

[...] O centro-fazenda continua a ser um espaço de habitação e trabalho da família do fazendeiro. Fora dela, cria-se a cidade pequena. Em geral, num lugar alto, bem visível, ergue-se a igreja. Lugar da religião. A seus pés está a praça, espaço da vida pública, social. No entorno levantam-se as casas de moradia. Eis três centros que configuram três espaços de natureza diferentes. O trabalho ainda não se caracteriza como um lugar à parte, ora está ligado à habitação com pequenos plantios, ora à praça com o comércio, ora ainda ligado ao antigo espaço da fazenda, onde se vai trabalhar156.

Nesta sociedade comunal camponesa, as diferenças sociais na vida comunal estão marcadas pelo respeito às hierarquias sociais, afirmadas nos aspectos simbólicos do vestir e

154 BAUMAN, 2009, p. 22.

155 LIBANIO, João B. As lógicas da Cidade: o impacto sobre a fé e sob o impacto da fé. São Paulo: Editora

Loyola, 2001. p. 27 a 40.

nos gestos de arrogância ou submissão . Assim, numa mesma geografia, conviviam os diferentes status sociais.

Na realidade da grande urbe, os interesses do mercado imobiliário e a lógica capitalista redimensionam esta lógica de representações sociais (e suas correspondências simbólicas) do coletivo urbano; o espaço será redefinido, assim, o espaço geográfico, marcado pela igreja, a praça da comunidade e o local da feira comunal, não mais serão os centros de referência comunitários e de convivência pública.

Agora, na grande urbe, os espaços geográficos que definem a vida são reconfigurados pelos ‘interesses’, dessa forma, existirão tanto espaços quanto interesses, pois “A cidade gira em torno de interesses. Nesse movimento, valoriza-se a pessoa como sujeito de suas atividades e não tanto a geografia condicionante”158, definindo as formas culturais urbanas que serão ‘pluriespaciais’.

O fluxo urbano, determinado pelo capital, desloca os antigos centros da vida pública (praça, mercado, Igreja). Enquanto isso, os outrora bairros centrais são corroídos pela degradação e tornam-se marginais. Outras áreas são valorizadas e tornam-se objeto de grandes investimentos urbanísticos: aquelas que possuem recursos econômicos ou têm condições de deslocar-se159.

Por haver-se constituído a cidade no espaço que afirma a liberdade e a autonomia160, ela configura-se em ilusão da privacidade e destruição do comunitário (entendido como a participação sustentada em longo prazo do indivíduo no coletivo e deste no indivíduo), o que se manifesta numa procura de afirmar a privacidade individual.

De fato, a ausência da vigilância da sociedade rural permite ao urbano o anonimato tolerante para extravasar sua liberdade e viver opções impensadas no âmbito comunal camponês. Mas a cidade também promove a solidão ao transformar o indivíduo num pária, e afirmando o axioma de ‘solidão no meio da multidão’, multidão esta massificada e formatada pelos meios de comunicação ao serviço do mercado e do consumo, o qual não visa ao bem-estar dos cidadãos, e sim a circulação da produção dos bens de consumo.

Porém, o adensamento populacional e a promiscuidade (dos espaços privados no transporte público, a residência estrita, superlotação e aglomeração habitacional),

157 LIBANIO, 2001, p. 33. 158 Ibid. p.32.

159 BAUMA Zygmunt.Confiança e medo na cidade. Tradução Eliana Aguiar. Rio de Janeiro: Zahar Ed. 2009.

p.8, 9.

160 Veja-se a descrição de: COMBLIN, José. Viver na cidade: pistas para a pastoral urbana. São Paulo:

paradoxalmente destroem a capacidade dos indivíduos de se relacionarem em coletividade solidária. As pressões exercidas pela comunidade sobre os valores, os papéis e as tarefas diluem-se no anonimato. Este, por sua vez, é fortificado pela valorização da privacidade e da individualidade.

Com a pressão de viver o direito à individualidade cidadã, os espaços públicos são invadidos como lugares a se exercer a individualidade, transformando-se em extensão do privado e do individual (expressão subliminar do patrimonialismo coronelista rural). É o que acontece, por exemplo, quando um automóvel é estacionado na calçada, que seria destinada ao pedestre. Também é o que ocorre no caso de apropriação corrupta dos bens públicos por parte dos servidores contratados ou eleitos para trabalhar pelo bem comum. No anonimato, ocorre a ilusão de liberdade, e rompem-se os valores morais que ordenam a comunidade camponesa, gerando uma libertinagem que se assume como afirmação do direito à liberdade individual.

Os expulsos do campo, econômica e socialmente fragilizados, não têm suporte econômico do sistema para entrar na corrida da especulação imobiliária, assim, são obrigados a ocupar as encostas e os brejos (ou áreas decadentes e degradadas do centro) que à especulação imobiliária não apetece. A ocupação precária e caótica dessas áreas é carente de espaços verdes e também do arquitetonicamente harmonioso e belo. A essa segregação socioespacial agregam-se a condição da falta de saneamento básico, como esgoto e coleta de lixo, gerando a condição de inmundo com uma grave conotação negativa de padrão social e moralidade, que será ligada à apatia cidadã, desenraizamento social, vergonha e medo, que incidem na segurança subjetiva do homem161 e na sua sociabilidade.

A essas condições agrega-se a violência gerada pelo tráfico. O morador de uma periferia será implicitamente catalogado como tendo uma moralidade suspeita, será violento, ignorante e bandido, “um marginal”. A esse respeito, Wania Mesquita escreve:

[...] pobres, que dispõem de acesso precário à cidade e à cidadania e se encontram cotidianamente submetidas ao poder do tráfico de drogas e à violência policial em seus locais de moradia. O discurso dominante aponta que a convivência com esses grupos criminosos nos mesmos territórios de moradia faria com que esses moradores possuíssem uma “moralidade duvidosa” (LEITE, 2008). Como a insegurança e o medo marcam a construção dessa imagem do perigo representada pelos moradores de favela, a percepção social sobre estes tende a criminalizá-los e a impor-lhes uma maior segregação socioespacial, redefinindo frequentemente as políticas públicas orientadas para esses territórios e seus moradores. Ademais, esta percepção tende a favorecer a formulação de

161 NETO Manfredi, Pascoal. O copo sujo, o lazer e a construção da sociabilidade através da periferia do

uma política de segurança pública que encontra no confronto direto com os grupos de traficantes armados o foco de sua ação, reforçando a “metáfora da guerra” 162.

O habitante é condicionado à lógica da cidade e seu sistema urbanístico, suas avenidas e ruas, seus bairros e centros dormitórios, centros comerciais, industriais que posicionam as pessoas afastando-as pelas distâncias e pela localização geográfica dos bairros e sua densa demografia; porém, paradoxalmente as une (conecta) pela mídia eletrônica acessada na privacidade, assim, as pessoas não conseguem o antigo relacionamento determinado pelo contato face a face.

Nesse árido espaço residual, as interações humanas se reduzem a um conflito entre automóveis e pedestres, possuidores e despossuídos, quer se trate de pedir esmolas e vender quinquilharias no sinal, de colisões entre veículos e pedestres indisciplinados, de furtos cometidos quebrando janelas ou de roubos de veículos. Coligando espaços privados e espaços públicos estão as vitrines das lojas que vendem bens de consumo, ou seja, elaborados mecanismos defensivos destinados a manter as pessoas afastadas: portarias, muros, razor wire, cercas eletrificadas163.

A cidade é formada por suas redes de vias, avenidas e ruas pensadas para possibilitar o trânsito no espaço público. Paradoxalmente, esta circulação, ou fluxo, não permite a proximidade física; antes, as distâncias de espaços onde se comprimem milhares de pessoas estão temperadas pela comunicação eletrônica que garante a privacidade ante a massa que ameaça invadir com suas preferências. Assim, a rua será o espaço público e de ninguém para impedir a aproximação do vizinho (estranho e desconhecido).

Nessa lógica, a casa, o lar, deixou de ser o lugar das relações interpessoais de seus membros para tornar-se mero lugar de pernoite e espaço aberto a todas as incursões externas da telemática radiofônica, televisiva e, cada vez mais, da Internet164.

Benzer Belgeler