I. BÖLÜM
4.1 SONUÇLAR
Não seria demasiado interar-se de alguns aspectos sobre esses grupos étnicos antes de abordar algumas questões relacionadas com o uso dos trajes. Os Jalq’as estão compreendidos entre os grupos de camponeses considerados mais pobres da Bolívia, e vivem em comunidades autônomas de diferentes tamanhos e demografia, que não desenvolvem estruturas sociopolíticas complexas e tampouco respondem a chefias
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tradicionais comuns a toda a região. É importante ressaltar que muitas dessas comunidades são produtos das antigas haciendas que se instalaram na região e que posteriormente aderiram ao regime de sindicatos campesinos (CEREDA, DÁVALOS, MEJÍA, 2001).
A auto-definição desses povos como pertencentes à etnia Jalq’a é relativamente recente e data do século XIX (CEREDA, DÁVALOS, MEJÍA, 2001). Após o fim da submissão ao domínio espanhol, os indígenas de cultura Yampara em torno da região do Sucre, se reagruparam, dividindo-se em duas culturas distintas: Jalq’as e Tarabucos. Cabendo destacar que ambas as culturas se definiram com trajes, costumes, rituais, danças e música totalmente distintos. Apesar de o fato de essas culturas terem se definido com manifestações culturais distintas, pode-se afirmar que ambas experimentaram influências espanholas diretas que são refletidas, até hoje, por exemplo, nas suas indumentárias típicas e em tradições como o Baile las Libérias, no caso dos Jalq’a.
O acesso à comunidade de Potolo, compreendida entre a zona de cultura Jalq’a, foi estabelecido por meio de um contato prévio com Museu do Centro Comunitário de Turismo (CETUR), onde foi indicado o senhor Juan Arancibia, como líder comunitário do povoado, que se disponibilizou a facilitar o contato direto com a população. É importante mencionar que foram encontradas algumas limitações relativas ao idioma, uma vez que a maioria da população de Potolo fala quéchua e que os que falam espanhol, muitas vezes, fazem uma mescla entre esses dois idiomas, interferindo diretamente no entendimento das perguntas e na elaboração das repostas que foram dadas. Apesar de a conversa com a comunidade haver sido guiada por uma lista prévia de perguntas28 acompanhadas de exibições de imagens dos trajes do museu,
optou-se por seguir uma metodologia flexível de abordagem em que a própria comunidade indicou as pessoas as quais consideravam relevantes para serem entrevistadas.
O trabalho de campo29 buscou coletar informações sobre o entendimento e percepção
acerca dos trajes antigos bem como dos trajes usados atualmente, realizando um movimento de sondagem e de diálogo aberto tanto com pessoas comuns da comunidade quanto com pessoas diretamente envolvidas com essas indumentárias
28 Ver anexos – guia de perguntas para entrevistas.
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(dançarinos e líder comunitário). Por meio de anotações e gravação de áudio de depoimentos orais, gravação áudio-visual e registros fotográficos, foi possível observar alguns aspectos sobre a percepção acerca dos trajes bem como as demandas e carências da comunidade no que diz respeito ao seu patrimônio como um todo.
De acordo com o catálogo Jalq’a: Una Cultura Viva, da fundação ASUR (Antropólogos del Surandino), o Baile Las Liberias, típico dessa etnia, estava em vias de desaparição e foi resgatado por incentivo desta mesma fundação. Com efeito, ao serem questionados sobre as ocasiões em que eram utilizados esses antigos trajes, os entrevistados30apontam, sem nos precisar datas, que este baile era realizado em
diversas festividades no povoado de Potolo, estando listadas entre estas celebrações a Festas de Candelaría, Santa Bárbara, São Lorenzo, sendo destacada, entre todas elas, a festa para o Senhor Santiago. Considerando as entrevistas coletadas e algumas investigações prévias sobre a cultura Jalq’a, pode-se supor que essas manifestações, sobretudo antigamente e mais especificamente o Baile las Libérias, estava relacionado com algumas das festividades que compõem o calendário agrícola dos Jalq’a, como se pode ver a seguir:
Gráfico 1. Calendário agrícola Jalq’a. Fonte: Jalq’a- Uma Cultura Viva. Fundação ASUR
30Entrevistas realizadas no dia 15 de Agosto de 2013 com o Senhor Felipe Yupanq, senhor Luis Cruz e
senhor Juan Arancibia, membros da comunidade de Potolo (ver anexos – transcrição das entrevistas e áudio que acompanha a tese); entrevista realizada no dia 16 de Agosto de 2013 com o senhor Fred Hoffman, funcionário da Fundação Inca Pallay.
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Tabela 1. Festividades relativas ao calendário agrícola Jalq’a. Fonte: Jalq’a- Uma Cultura Viva. Fundação ASUR.
Festividades do Calendário Agrícola Jalq’a
Data Nome Descrição
6 de Janeiro Reyes Agradecimento ao gado pela
ajuda prestada na época de semeadura.
2 de Fevereiro Candelaría Ano novo da produção
Fevereiro Carnaval Ritual agrícola para a
produção
Corpus Christi Agradecimento aos produtos
colhidos
24 de Junho San Juan Cerimônia de Saúde;
Na véspera se faz fogueiras pertos dos currais das vacas, ovelhas e cabras. No dia 24 molham estes animais para que não se adoeçam.
25 de Julio Santiago Agradecimento aos cavalos,
burros e mulas pelo trabalho prestado à semeadura e à colheita.
Agosto Pachamama Todo o mês de Agosto
agradecem à terra
(Pachamama) com ch’allas e outros rituais.
27 de Julio Larca Paleo Dia da água. Toda a
comunidade se reúne, tomam chicha de milho e se dança com sicuris.
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Apesar de o Baile las Libérias ser citado por todos os entrevistados como uma dança típica relativa a algumas festividades religiosas, foi presenciada sua execução em uma festa cívica cuja celebração se dava em homenagem ao aniversário da comunidade comemorado no dia 15 de Agosto - Assunção de Nossa Senhora no calendário de festas religiosas cristãs -, e soube-se que no dia anterior dançaram pela véspera dessa mesma festividade cívica e também por um matrimônio que havia acontecido. Ante esses fatos, fica evidente que muitos aspectos relativos à motivação do uso dos trajes e da execução do deste baile vêm se perdendo; como nos contou o próprio senhor Felipe Yupanq, se referindo à confecção dos trajes antigos, à mobilização da sociedade para fazer comidas para serem servidas nas festividades em que eram usados os trajes e também ao referir-se à trajetória que era feita antigamente pelos dançarinos que visitavam todas as casas do povoado.
Os relatos levantados atestam que este baile, tal como se coloca na atualidade, pode ser entendido como um exemplo de resquícios de manifestações culturais; que embora apresente aspectos residuais, deve ser levado em consideração, uma vez que elas não só contem a projeção dos trajes antigos no presente, mas demonstra de que forma a comunidade de Potolo tem se colocado como responsável pela guarda de seus valores patrimoniais.
Independente da forma como se tem dado as re-significações que essa dança vem recebendo, nota-se um aparente esforço da comunidade não só para a manutenção e continuidade desta manifestação, senão em manter sua identidade cultural em níveis regionais que é evidenciado pela implementação no povoado de um pequeno centro cultural (Centro de Turismo Comunitário conhecido como Museu Jalq’a), por fomento do governo nacional, que, de alguma maneira, trata de difundir sua cultura (seus tecidos, costumes, crenças, danças e rituais) como forma de incentivo ao turismo e de conseqüente fonte de renda para esse povo. Sendo que esse centro, por sua vez, está interligado com instituições implantadas na cidade do Sucre (Inca Pallay, ASUR, CETUR).
Nota-se que as expectativas da comunidade em relação à manutenção de seu patrimônio coincidem com as políticas governamentais de incentivo ao desenvolvimento do patrimônio atrelado ao turismo para Potolo que, além da construção desse centro cultural, tem fomentado a instalação de pequenos mercados
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e feiras regionais não só com o objetivo de criação de fonte de renda para o povoado, mas também como maneira de incentivar que a comunidade siga produzindo seus tecidos originais e que mantenha vivas tradições como suas danças e uso de indumentárias típicas. Sendo que, não há como desvencilhar deste contexto o Baile Las Libérias que também compõem parte das tradições desse povo e que, em níveis regionais, vem sido reconhecido como típico dessa zona.
O patrimônio boliviano, no geral, ainda enfrenta alguns problemas como, por exemplo, a carência de sistematização e documentação como apresentado pelo documento “Estado Del Arte del Patrimonio Cultural Inmaterial: Bolívia”. Para se ter uma idéia, até pouco tempo os bens culturais imateriais na Bolívia não eram levados em conta 31,
e não há, ainda, um orgão exclusivo no país que se dedique ao manejo dessa tipologia de bem cultural. E essas deficiências se fazem claras, ao se considerar que a Bolívia, um dos países membros do CRESPIAL (Centro Regional para la Salvaguardia Del patrimônio Cultural Inmaterial de America Latina)32, apresenta apenas três categorias
de patrimônio imaterial reconhecido; o que é pouco quando se pensa que esse páis conta com 36 grupos etnolinguísticamente diferenciados, cada um deles com manifestações culturais materiais e imateriais próprias33. . Em outros países da
América Latina, a situação não se apresenta de forma muito diferente: tanto o patrimônio cultural, assim como o contexto social em que essas manifestações culturais estão inseridas ainda é pouco discutido quando se desenvolve políticas de salvaguarda de bens culturais.
Retornando à questão da Bolívia, sabe-se que as carências no que tange à proteção do patrimônio boliviano são reflexos dos problemas econômicos, políticos e sociais que o país viveu e tem vivido, os quais dificultam o estabelecimento de políticas de salvaguarda de bens culturais. Por isso, o interesse e iniciativa por parte do governo boliviano de dar autonomia aos povos originários e, ao mesmo tempo, integrar cultura e patrimônio à atividade turística com a finalidade de contribuir para o desenvolvimento
31 Estado Del Arte del Patrimonio Cultural Inmaterial: Bolívia, p.69. Disponível em
<http://www.crespial.org/es/Content2/index/0006/NF/2/bolivia-estado-del-arte-del-pci>
32 O CRESPIAL é uma instituição internacional autônoma a serviço dos Estados-Membros da UNESCO,
responsável por apoiar as atividades de Salvaguarda do Património Cultural Imaterial da América Latina cujo objetivo é contribuir para a formulação de políticas públicas nos países da região, a partir da identificação, avaliação e divulgação de sua cultura viva, ações que resultarão no enriquecimento da diversidade cultural da América Latina, e estão em conformidade com o espírito da Convenção para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial (2003).
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econômico e social, uma vez que essa integração é utilizada como ferramenta importante para lutar contra a pobreza, aumentar da qualidade de vida, consolidar de fontes de emprego, coadjuvar em programas de desenvolvimento e auxiliar para solucionar a carência de serviços básicos (DE LA VEGA, 2005).
É evidente que, em muitos casos, a atividade turística influência negativamente na preservação do patrimônio e, por essa razão, pergunta-se em que medida vincular o turismo ao patrimônio pode afetar as tradições jalq’as e, mais especificamente, a manutenção do uso dos trajes? E se, para além disso, tal atividade oferece algum risco para essa manifestação? Entre as relações humanas, estão presentes demandas políticas, sociais, econômicas e etc. e nesse sentido, não há como falar de bens culturais, sobretudo bens etnográficos, sem levar em conta sua relação com as pessoas e, conseqüentemente, seu contexto social; em que estão incluídas todas essas demandas. Ilustra esta realidade, a existência de protocolos de conservação como, por exemplo, as Normas de Quito34, que levam em conta não só os valores
culturais e históricos do patrimônio, mas também seu valor econômico, abordando questões relativas ao turismo e desenvolvimento social.
Figura 29. Representação gráfica do traje de Potolo. Fonte: Jalq’a- Uma Cultura Viva. Fundação ASUR.
Sabe-se que a atividade turística pode influenciar negativamente na manutenção de sítios arqueológicos bem como de outras formas de manifestações culturais, no geral. Porém, acredita-se que o incentivo ao turismo atrelado ao patrimônio, no caso dos
34 Ver CURY, Isabell. INSTITUTO DO PATRIMONIO HISTORICO E ARTISTICO NACIONAL. Cartas
trajes bolivianos, traria benefícios uma vez que pode contribuir para di
o uso dessas indumentárias e, conseqüentemente, a identidade desse grupo atendendo também suas demandas sociais e econômicas, porque, aparentemente, não há uma relação direta entre o uso dessas vestes com economia. E nesse contexto, preservar os trajes antigos é também preservar e entender essas manifestações recentes com trajes similares considerando os interesses da própria comunidade.
Mapa 3. Mapas do povoado de Potolo com localização de onde se realiza o Ba