5. SONUÇLAR VE ÖNERİLER
5.1 Sonuçlar
Inicialmente, a família de Maria foi escolhida para esta pesquisa pelo fato
de estar no grupo das primeiras famílias que ingressaram no Programa em 1997 e
ser uma das que apresenta o maior número de membros.
No entanto, devido ao nome da bolsista ser homônimo com o de outra, os
endereços registrados estavam trocados e a entrevista aconteceu com a bolsista
Maria, que ingressou no Programa em 2001, e cuja família era formada apenas
de quatro pessoas.
Maria tem 36 anos e nasceu em Belo Horizonte. Ela tem cinco filhos, sendo
três do primeiro casamento e dois do atual casamento. As três filhas mais velhas,
do primeiro casamento, cujas idades são 22, 19 e 17 anos, estão casadas e não
moram com Maria.
Atualmente, ela mora junto com o seu marido (34 anos), com o qual está
casada há cerca de quinze anos, e seus outros dois filhos: um menino de 11 anos
e uma menina de 14. O menino está cursando a quarta série do Ensino
Fundamental e a menina está estudando numa escola especial, pois tem
dificuldade de aprendizagem.
Maria estudou apenas a primeira série do Ensino Fundamental e sempre
trabalhou em serviços domésticos e/ou catando material reciclável para vender.
Atualmente ela não trabalha fora de casa, pois está com depressão e toma
remédios controlados, conforme diz ela: “não posso trabalhar agora porque eu tô
doente, aí né? Nem papelão”.
Sobre a experiência de catar papelão, ela diz que o marido não gosta que
ela faça esta atividade e assim ela expõe: “[...] eu catava papelão, mas escondido
do marido, né. Mesmo assim, quando acho uma latinha na rua eu pego, né. Eu
trago e junto aí”.
Seu marido é o único membro da família que trabalha fora de casa, ele é
gari da Superintendência de Limpeza Urbana de Belo Horizonte. De acordo com
Maria, ele voltou a estudar recentemente e concluiu a oitava série do Ensino
Fundamental.
A renda da família é constituída pelo salário do marido e o dinheiro
repassado pelo Bolsa Escola. A administração da renda é dividida entre o casal, o
marido administra o salário dele e contribui para os gastos com a manutenção da
casa, e Maria administra a renda advinda do Bolsa Escola, investindo nos gastos
tanto com a casa, quanto com os filhos mais novos.
Quando se refere à sua família, Maria sempre inclui as filhas mais velhas e
relata os problemas vivenciados como, por exemplo, o fato de duas filhas estarem
grávidas, a de dezenove anos e a de dezessete. A filha de dezessete anos ainda
constava no controle de freqüência à escola do Programa Bolsa Escola, quando
saiu de casa e casou-se.
Em relação à filha de dezenove anos, ela demonstra muita preocupação
pelo fato de ela ser usuária de drogas. Assim diz ela:
Só que a outra não tem juízo nenhum a de dezenove anos. Eu acho que com ela, vai ter que entrar no Conselho para ficar com a criança, porque ela não tem um pingo de juízo.
Mora com um rapaz, que não tem juízo também. Fuma droga, né? Descabiciado.
Maria relata que, entre seus filhos, esta é a única que se envolveu com
drogas. E, diante desse caso, ela conversa muito com os demais filhos para que
não aconteça o mesmo com eles. Além desta filha, ela também tem uma tia que
tem envolvimento com drogas.
Quanto à filha mais velha, ela a considera como referência para os filhos
mais novos e diz o que espera do futuro deles, remetendo-se à experiência da
filha. Assim ela exprime seus anseios: “Quero que eles formem. Igual a minha
menina, tá fazendo o primeiro ano. A casada. Tá [estudando] e tá trabalhando”.
A rotina de Maria é voltada para as atividades domésticas e o
acompanhamento dos filhos à escola, principalmente a filha de 14 anos, que tem
que ser levada à escola todos os dias. Tanto o filho de 11 anos quanto a filha de
14 anos freqüentam a escola em apenas um turno e não participam de nenhum
projeto social na comunidade no horário extra-escolar.
É nesta dinâmica que a família de Maria se apresenta, marcada por uma
trama de relações, expressada na fragilidade da saúde de Maria, que pode ser
vista como o reflexo dos problemas enfrentados no dia-a-dia, por ela e sua família,
tais como: a morte recente de seu único irmão que fora assassinado, o
envolvimento da filha com as drogas e, ainda, relatado de forma discreta, a
dependência alcoólica do marido.
Tudo isso se passa numa articulação com o espaço onde vivem e convivem
e, nesse sentido, nos propomos a discorrer sobre esses espaços, a fim de
compreendermos os vínculos e relações aí estabelecidas.
2.3.1. Sobre a moradia, o bairro e as relações sociais
Maria mora no bairro Vila Esperança, que fica localizado na região Leste da
Regional Barreiro, situado às margens dos demais bairros desta região. É um
bairro pequeno, composto por casas construídas de forma padronizada, o que dá
um aspecto de um conjunto habitacional.
As casas foram construídas pela Prefeitura de Belo Horizonte e,
originalmente, elas obedecem ao mesmo padrão, elas possuem quatro cômodos
distribuídos em: uma sala, uma cozinha, um quarto, um banheiro, uma pequena
área externa aos fundos e uma de corredor na entrada. Todos os cômodos são
muito pequenos e são distribuídos em dois pavimentos, sendo que no segundo
pavimento fica apenas o banheiro. Ao lado do banheiro há uma área com
possibilidade de construção de dois quartos pequenos, no entanto, as casas foram
repassadas aos moradores sem a construção desses cômodos. Encontramos
casas cujos moradores tiveram condições de acrescentar esses dois cômodos e
outras cuja construção inicial se mantém. O acabamento das casas é simples: as
paredes internas são apenas rebocadas e o chão é de piso grosso. As paredes
externas das casas são todas pintadas de amarelo e o espaço entre uma casa e
outra é delimitado pela própria parede dos cômodos.
O bairro é organizado em grandes quadras, que são delimitadas pelas ruas,
sendo todas asfaltadas. No interior dessas quadras, encontram-se os vários
blocos de casas, que são compostos por extensos corredores que dão acesso às
portas das casas, sendo muito similar aos becos das favelas, cujas construções
não foram planejadas, diferenciando apenas pela regularidade de suas
construções e pelo fato de serem de concreto.
O bairro Vila Esperança é constituído basicamente por casas residenciais, o
comércio local se reduz aos poucos e pequenos botecos. Na entrada do bairro, há
uma escola pública, uma creche e uma igreja evangélica em construção. Não há
posto de saúde.
Em termos de infra-estrutura urbana, há ruas asfaltadas e abastecimento
de água e energia elétrica. Não há uma cobertura completa do bairro em termos
de rede de esgoto, em alguns pontos, podemos encontrar escoamento a céu
aberto. O transporte local é garantido por um microônibus que dá acesso apenas
ao bairro vizinho e o horário de funcionamento deste é reduzido, por exemplo, aos
sábados, só funcionam até as dezesseis horas.
Tanto a população que mora no bairro, quanto a população dos bairros
vizinhos relatam que o Vila Esperança é muito perigoso, que há muita violência
devido às disputas de tráfico de drogas, nas quais há constantes trocas de tiros.
No bairro, há muitas casas com anúncios de vendas e, em relação à população
vizinha, há um temor pelo bairro.
De acordo com Maria, há nove anos que ela e sua família moram nesse
bairro. Antes moravam no bairro Santa Maria, também periferia de Belo Horizonte,
de onde se mudaram para um alojamento, no qual ficaram durante dois anos, e
depois foram para a residência atual. De acordo com ela, o local onde moravam
era considerado área de risco: “lá tinha muito gás, lá era área de despejo de lixo”.
Em relação à mudança, Maria considera os aspectos positivos e negativos,
pois as condições da moradia apresentam-se melhores, mas o bairro onde está
inserida não é visto da mesma forma. Assim ela expõe: “Foi e não foi, né. Porque
isso aqui né. Violência aqui tá demais.”
E ainda relatando sobre as condições de moradia ela diz:
É melhor né, mas só que lá tem um porém de bom. Lá você podia até ir a pé no centro da cidade, pra caçar um emprego, pra catar um papelão, catar um latinha. E aqui, você não pode fazer nada disso, se não tiver dinheiro para passagem como é que vai ao centro?
A casa em que ela mora é própria e possui o mesmo padrão das demais
casas do bairro, conforme descrito anteriormente. No entanto, foram feitas
algumas alterações na divisão dos cômodos: no primeiro pavimento, eles retiraram
a parede que separava o quarto e a sala, transformando estes num único cômodo,
que é utilizado como sala. No segundo pavimento, eles construíram dois quartos
dormitórios. Além disso, eles colocaram cerâmica no chão da casa e pintaram as
paredes internas.
As modificações possibilitaram maior circulação de ar e de luz nos cômodos
do primeiro pavimento, dando um maior conforto aos moradores da casa. Todos
os cômodos são mobiliados com móveis conservados e alguns recém-adquiridos,
assim como os eletrodomésticos: televisão colorida, microondas, fogão a gás,
geladeira, tanquinho e etc. Também possuem telefone fixo.
Contudo, a insatisfação de Maria com o bairro onde mora é explicitada não
só pela localização do mesmo, mas principalmente pela violência vivenciada no
dia-a-dia, o que tem levado sua família a pensar em mudar-se de lá.
Em relação à violência, Maria relatou que seu único irmão foi assassinado
lá no bairro há pouco tempo e que tal situação deixou todos abalados.
Sobre as relações estabelecidas no bairro, Maria diz que conhece algumas
pessoas, mas ao mesmo tempo ela declara que não gosta de muita amizade e diz:
“eu gosto de ficar é quieta, aqui na minha casa”.
Ela relata também que sai muito de casa com os filhos, nos finais de
semana, vai para casa dos parentes que moram em outros bairros da cidade,
hábito que se configura como forma de lazer, conforme podemos verificar em sua
fala:
Saio, saio muito com eles. Ela tem a carteirinha de passe. Saio muito com eles, vou para casa da minha filha, vou para a casa da minha irmã, para distrair. Eu não posso ficar muito tempo dentro de casa, se eu ficar dentro de casa, né. Já fico dentro de casa a semana toda. Aí dia de sábado eu quero distrair para aliviar minha cabeça, né. Aí eu saio assim.