• Sonuç bulunamadı

5. SONUÇLAR VE ÖNERİLER

5.1. Sonuçlar

Enquanto apenas os assinantes do Le Monde podem postar suas opiniões em sua versão on-line, no impresso qualquer um pode enviar uma carta e vê-la publicada, desde que venha assinada e a equipe responsável pela seleção e edição a considere pertinente. Quando uma carta é escolhida para ser publicada ou para ter um trecho citado em uma crônica do/a mediador/a, um e-mail é enviado ao/à leitor/a pedindo que este/a envie seu endereço postal.

Já os termos para publicação das cartas pelo Estado de Minas vêm impressos no alto da coluna: “As cartas devem conter nome, endereço completo, número do telefone e cópia da carteira de identidade, podendo ser publicadas na íntegra ou parcialmente.” Porém, o que se viu em Espírito Santo (2007) é que, na

prática, são raros os/as leitores/as que cumprem esses pré-requisitos, assim como o jornal não os cobra à risca.

Mas pode-se inferir que manter a regra de forma explícita demonstra que o jornal procura isentar-se da responsabilidade por aquilo que for publicado. Porém, como lembra Assunção (2011, p. 671), ...

[…] embora publicados sob identificação, a questão da

responsabilidade, no entanto, consiste no fato de que quem publica é o jornal. [...] Ao impor condições sobre o dizer do outro, os periódicos interferem na produção dos textos e assumem responsabilidade pelo que vão publicar.

Há quem diga que o trabalho de um editor não é escolher o que deve sair no jornal, mas o que deve ficar fora dele. E, com certeza, fica fora dele a maior parte das opiniões de seus/suas leitores/as.

Por isso, aquele/a que escreve aos jornais precisa recorrer a estratégias que visem convencer o/a editor/a da coluna de que sua carta merece ser publicada e, caso consiga, precisa atrair os olhos do/a leitor/a e, quem sabe, ganhar adesão às suas ideias, provocar discussões, interações, reações etc. que ultrapassem as páginas do jornal.

Ou seja, o/a leitor/a que deseja ver sua carta publicada deve antes procurar saber os critérios de seleção utilizados pelos/as editores/as das colunas. Ainda assim, nada impede que o/a leitor/a envie para seu jornal de preferência todo tipo de argumento, de poesias a protestos informais, utilizando linguagem chula e pedidos de interferência divina. Tais cartas apenas serão colocadas de lado e ignoradas mais rapidamente. Porém, ao enviar uma carta a um jornal, o/a leitor/a sabe e espera que suas palavras tenham ao menos um/a leitor/a: o/a editor/a a quem confere competência e credibilidade.

Para convencer tanto o/a editor/a quanto o/a seu/a futuro/a leitor/a, o/a autor/a da carta pode recorrer também a estratégias discursivas como “inclusão das vozes de outros reconhecidos na área [...] uso de palavras de outros para nelas introduzir sua própria orientação” (MACHADO, 2001b, p. 60).

Após passarem pelo processo de seleção, as cartas são editadas, o que quer dizer que muitas vezes chegam a ser reformuladas. Quando isso acontece, o/a editor/a apresenta uma função de co-produtor/a do texto, apesar de não assiná-lo. Na visão de Leite (2008), nesse processo há uma relação de simetria entre autor/a e

editor/a que se debruçam sobre a formulação do texto. Já na conclusão do processo, ...

[…] tem-se, de um lado, o autor, responsável pelo discurso e pela opinião ali em funcionamento e, de outro, o público-leitor, destinatários e leitores do periódico. Nesse instante (re)instaura-se uma relação de “assimetria”, levando em consideração as condições pré-fixadas de participação nesse evento (LEITE, 2008, p. 2).

Para a autora, a relação de assimetria predomina no gênero carta do leitor, pois é a mídia impressa que mantém o diálogo e coordena a interação entre os/as leitores/as e os fragmentos publicados.

A edição das cartas leva, muitas vezes, a um novo direcionamento argumentativo, por isso, afirma-se que o jornal também controla o conteúdo da carta.

O fato de o jornal se reservar o direito de poder modificar a forma de uma carta, cortar trechos, introduzi-la por um título de sua escolha, acompanhá-la de comentários ou de uma resposta a uma queixa do leitor, mostra a assimetria deste tipo de interação. É o jornal que coordena o diálogo entre os leitores. É bem verdade que o leitor também tem o seu poder, pois tudo começa a partir dele, do que ele escreve, daquilo sobre o que lhe interessa escrever, mas seu poder é pequeno quando comparado ao do jornal (MELO, 1999, p. 12).

Em conversa informal52, o editor de opinião do Estado de Minas, Pedro Lobato, informou que entre os critérios de escolha das cartas que serão publicadas está sua relevância, dada pela pertinência com temas da atualidade, a concisão e a clareza das ideias. “Não temos tempo de pegar uma carta muito longa e reescrevê-la de forma que ela caiba no espaço destinado à sua publicação”, confessa. Porém, dessa maneira, o editor acaba por colocar em oposição a concisão e a relevância do texto. Para Assunção (2011), o editor reescreve o texto do autor ao retirar do todo a parte que considera importante e descaracteriza a carta enquanto texto. “As cartas de leitores passam, portanto, por um processo de edição que não se define apenas pela preocupação com o seu tamanho [...] mas define-se também como uma preocupação com o que é dito”. Podemos dizer então que as condições colocadas para a publicação de uma carta podem silenciar o/ leitor/a sob pretextos formais mais que dar a ele/a a possibilidade de divulgar sua própria voz.

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Ao fazer uma comparação entre duas cartas na íntegra enviadas à revista Veja e o texto efetivamente publicado na seção Cartas, Melo (1999) verificou que o editor interveio de tal forma nos originais a ponto de mudar a orientação argumentativa da carta. “A questão é complexa, e mostra que a carta de leitor é um discurso heterogêneo por natureza, onde leitor e jornalista são coautores do texto” (MELO, 1999, p.5). Chamou-lhe a atenção o fato de a crítica a Veja, que figurava na íntegra das duas cartas, ter sido subtraída na hora da publicação, levando a autora a concluir que, na base dessa discussão, estão relações de poder.

O processo de edição deixa claro que nem sempre o discurso do leitor é preservado. Cabe, então, perguntar se o que se publica na seção carta do leitor realmente equivale ao discurso dos leitores. No embate de opiniões travado nesta seção do jornal, qual voz, de fato, prevalece no discurso, a do leitor ou a de quem está por trás do leitor? (MELO, 1999, p. 5).

Acredita-se, então, que a mídia noticiosa de certa forma direcione a pauta e a fala de seus leitores/as escritores/as publicando o que crê ser ou não relevante para a sociedade e sobre o que essa sociedade deve discutir e do que ela deve se ocupar. Em sua análise do discurso de editoriais publicados nos diários Estado de Minas e Folha de São Paulo, Furtado (2008) observou este poder de tematizar o espaço público e propor-lhe uma agenda de discussão através da opinião que emitem. “Enquanto ‘voz’ do jornal, o editorial responde a uma problematização da ética cidadã e, para isso, ajusta sua opinião a partir de uma idealidade social coerente com a imagem criada da cidadania figurada” (FURTADO, 2008, p. 1).

Mas não se pode deixar de considerar, conforme afirma Emediato (2008, p. 74), que, “se a mídia organiza o espaço público como espaço de discussão, ela não é, por outro lado, a fabricante do espaço público e nem possui o monopólio da discussão e da problematização na sociedade”. Para o autor, a toda tematização atualizada pela mídia corresponde uma problematização sobre a qual ela detém pouco poder, pois os quadros de problematização pertencem à ética cidadã53, da qual toda mídia moderna e plural se torna parceira.

Sem dúvida, a mídia é um espaço de discussão capaz de dar visibilidade ou invisibilidade a espaços, tópicos e agentes de discussão, mas ao se enxergar o

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Emediato (2008) chama de ética cidadã a idealidade social, a justiça para todos, a ordem e a segurança pública, a honestidade, o pragmatismo para a cidade, certos valores republicanos etc. e lembra que a ética não é individual, mas coletiva.

discurso como prática negociada, regulada e dialógica seu poder se reduz, assim, a “responder problematologicamente às questões colocadas pela ética cidadã, dando visibilidade e resposta aos temas e fatos que lhe são pertinentes” (EMEDIATO, 2008, p. 76).

Para Emediato (2008), os editoriais e os artigos de opinião, ao responderem à problematização do espaço público, detêm o poder na relação comunicativa e o que faz variar o caráter opinativo desses dois gêneros jornalísticos é certo modelo próprio de opinião, mais ou menos heterogêneo.

Os editoriais, por representarem a voz do jornal, mantêm sua opinião dentro dos limites de uma ética cidadã figurada (crítica das ações do Estado, de suas deficiências em atender às demandas sociais, humanitárias, educacionais, de direito público) e de uma ética econômica, equivalente às posições mais dominantes em uma dada conjuntura (por exemplo, uma posição econômica mais liberal). Já os artigos de opinião podem responder à doxa de grupos mais homogêneos (posições políticas ou econômicas pontuais, por exemplo (EMEDIATO, 2008, p. 77).

O autor completa afirmando que o mais importante não é a informação em si, mas o que ela é capaz de problematizar no espírito do leitor de levantar nele interferências avaliativas.

Já pesquisas relatadas por Traquina (2003) detectaram que a agenda jornalística tem maior efeito sobre as pessoas que participam de conversas sobre questões levantadas pelos meios de comunicação social do que sobre aquelas que não participam nesse tipo de conversa. O efeito de agendamento54 ocorreria também com pessoas que têm grande necessidade de obter informação sobre um assunto e, por isso, ficam mais expostos às mídias noticiosas. Outra constatação coloca a natureza do assunto como elemento-chave para a influência do agendamento. Assuntos que mobilizam a experiência direta do leitor influenciariam menos que aqueles que lhes são distante, menos familiares. Por fim, “a vasta literatura sobre a produção de notícias reconhece o poder do jornalismo não só na projeção social dos assuntos sociais, mas também no enquadramento desses assuntos como fonte de discussão pública” (TRAQUINA, 2003).

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Segundo Antunes e Vaz (2006, p. 49), “agendar significa instaurar processos de convocação e identificação dos sujeitos sociais para uma intensa prosa social e pública. O agendamento implica não dar apenas visibilidade (hierarquizada) a determinados acontecimentos, mas ampliar certa visibilidade e conferir reconhecimento público a determinadas práticas. A ‘agenda midiática’ é, sobretudo, uma arena na qual se digladiam falas presentes no tecido social”.

Sabe-se que o que os textos da mídia oferecem não é a realidade, mas uma construção que permite ao leitor produzir formas simbólicas de representação da sua relação com a realidade concreta. No entanto, “a agenda setting não consegue explicar como algumas tentativas da mídia de gerar uma pauta nem sempre dão certo, ou como outras agendas se formam, mesmo que ignoradas pelos meios” (ALVEZ, 2007, p. 123).

Benzer Belgeler