A valorização dos padrões morais em detrimento de qualquer exclusivismo monetário incentivou o uso recorrente das palavras caridade, compaixão e mesmo pobreza ou esmola como forma de ação também no universo político. Se as virtudes essenciais de um bom cristão passariam fundamentalmente por um temperamento compassivo e liberal em contraposição ao espírito avaro e egoísta, o rei deveria encarnar a figura máxima de uma visão benevolente com os mais fracos.58 A ideia de que quem dá um presente deve logo esquecê-lo e quem o recebe deve sempre lembrá-lo,59 confirmava o desinteresse como valor e ressaltava a justiça e a caridade como os dois principais esteios do equilíbrio social, pois “dar ouvidos ao poderoso e negá-los ao pobre; pesar em diferentes balanças as causas de um e de outro, medi-las com regras diferentes é agravo da justiça e abominação para Deus”.60 A justiça realizava-se na
medida em que dava a cada um o que era seu por direito. A esmola, por sua vez, cumpria um papel aliviador, de benemerência. Segundo São Tomás de Aquino:
A justiça é dar o devido, a misericórdia é remediar a miséria. E, assim, tanto a justiça como a misericórdia pressupõem algo de prévio [um padrão, uma ordem] para operar. A criação, por sua vez, não pressupõe nada. Por isso, na criação não há nem justiça nem misericórdia. Porém, contra isto, diz o Salmo (Ps., 24,10): todas
as estradas do Senhor são de misericórdia e de verdade.61
Como fonte de liberalidade da monarquia, o rei era o símbolo máximo da misericórdia, que segundo António Manuel Hespanha, baseando-se em Tomás de Aquino, seria um “tipo especial de graça suscitado pela tristeza que nos causa a situação daqueles (os miseráveis) a quem a fortuna (...) tirou os seus direitos”. Os miseráveis eram “aqueles cuja natureza nos move a sentir pena”, ou seja “forasteiros, estrangeiros,
58 Ver HESPANHA, António Manuel. Imbecilitas – as bem-aventuranças da inferioridade... p. 233-273. 59“The liberal man, said Bouchet, must keep himself from reminding the recipient about all the good he has done for him, „for the law of benefits is that he who gives a pleasure must soon forget it and he who receives it must always remember it‟”. Citado em DAVIS, Natalie. The gift in sixteenth century France…p. 18.
60 MENDO, Andrés (S.I.), Principe perfecto y ministros ajustados... p. 7.
27 cativos, saídos da cadeia, enfermos, comunidades, hospitais, agricultores, rústicos, meretrizes, expostos, mercadores em viagem”.62
Assim, a caridade cristã aparecia como um grande investimento simbólico para o monarca. A utilização do termo esmola também imputava a obrigação moral de cumprir os preceitos caros à monarquia católica. A imagem de um monarca compassivo permeou os discursos políticos, tornando-se um atributo – o de rei “misericordioso” – disputado, por exemplo, entre os reis de Portugal e Castela.63 As ações de misericórdia régia procuravam a identificação do rei com os valores mais caros ao povo, atributos também reivindicados pelas elites para a manutenção do bem comum nos círculos microanalíticos: “a vida do príncipe é um censura rigorosa da de seus vassalos e seu exemplo é império que nunca se resiste (...) é sol um rei e seu povo é sombra e assim o segue sempre”.64
Desde fins da idade média, a esmola individual vinha sendo duramente criticada em favor das doações para instituições encarregadas de gerir a ajuda aos pobres.65 Manteve-se como prática habitual ao longo de toda a época moderna, embora fosse cada vez mais rechaçada, sobretudo nos meios laicos, e reiteradamente controlada através de ordens régias e das câmaras locais. Curiosamente, uma das formas mais recorrentes de utilização do termo esmola foi, por exemplo, na documentação administrativa. Poderia fazer parte também de cartas trocadas entre iguais, ou mesmo, solicitações ao rei que pretendiam exaltar o estado de precarização e humildade do solicitante e a liberalidade do doador. A utilização desse vocabulário mostrava que caridade e pobreza não eram palavras exclusivas de determinadas ações, mas faziam parte de um discurso pretensamente universal, no intuito de valorizar um conjunto de atitudes que ultrapassava o escopo das instituições de assistência, constituindo-se num modo de vida.66
Constantemente presente nas requisições ao rei, o termo esmola procurava demonstrar o misto de humildade e necessidade, típicos para a boa imagem do requerente. Os exemplos são inúmeros, indo desde demandas para obras pias, até um corriqueiro pedido de ajuda financeira. De fato, a esmola era mais comum entre as solicitações de natureza religiosa: reconstrução de capelas, dotação de órfãs, ajuda a
62 Citado por HESPANHA, António Manuel. A mobilidade social... p. 142. 63 HESPANHA, António Manuel. A mobilidade social... p. 388-389.
64 MENDO, Andrés (S.I.), Principe perfecto y ministros ajustados... doc. IX. p. 43-44. 65 Ver ROSH, Jean-Louis. Le jeu de l'aumône au Moyen Âge... p. 505-527.
66 DAVIS, Natalie Zemon. The gift in sixteenth century France…Especialmente o capítulo 6: „Gifts,
28 hospitais. Tratava-se de uma das ritualizações discursivas mais presentes na documentação da época que procurava ressaltar o rei como distribuidor de graça67 e
misericórdia.
Tal como a mercê, a esmola era uma ação que não pretendia a alteração da ordem social, mas deveria primar pela manutenção da justiça. Sua natureza paliativa e conservadora buscava ressaltar e legitimar a interdependência dos corpos sociais. O gesto gracioso fazia surgir uma série de direitos tácitos, na verdade, tirando a espontaneidade das relações sociais: tal como os amigos que deveriam entre si graças mútuas, por meio de favores, por exemplo; os ricos deveriam esmola aos pobres; “e alguns – como o rei – pela especial dignidade em que estão colocados, [deveriam] tudo isto numa forma superlativa (magnanimidade)”.68
Contudo, convém ressaltar, que esse jogo de favores imputava um caráter incerto à graça, abrindo um espaço infinito de retribuições que não se resumiam à sua natureza financeira. A amizade desigual, tal como advertem Hespanha e Xavier, ressaltava essa indefinição que fazia surgir uma série de direitos vazios, porque implicava retribuições desiguais. Em última análise, uma rede interdependente que unia pobres a ricos, de valor discursivo relativamente homogêneo, mas de efeitos sociais abertos e irregulares. Tal como defende Giovanni Levi, com base em Polanyi:
Um sistema de reciprocidades não é, pois, o pózinho dos atos de reciprocidade, de dom e contradom, que „tem lugar em ocasiões diferentes, segundo um cerimonial que impede qualquer noção de equivalência, porque com frequência as atitudes individuais carecem de efeitos sociais‟. Só em um ambiente organizado simetricamente, as atitudes de reciprocidade darão lugar a instituições econômicas de certa importância.69
Foi justamente a possibilidade do surgimento de direitos vazios, ou melhor, assimétricos, que tornou compreensível a distância entre a liberalidade exemplar do príncipe e a miséria crônica dos povos ao longo da época moderna. O exercício da
67 “Num mundo concebido como estando sujeito a uma ordem constitucional, os atos gratuitos têm que
ser considerados como coisa rara e excepcional. Sobretudo se alteram substancialmente o estado das pessoas ou a distribuição dos bens e das vantagens, operando mudanças dos equilíbrios sociais equiparáveis, no plano da natureza, aos milagres de Deus. Estes milagres de engenharia social e política, quando não cabem a Deus, cabem aos seus vigários no mundo – os reis, cuja graça é um aspecto menos recordado das suas capacidades taumatúrgicas. Por meio da graça, eles operam autênticos milagres sociais e políticos: legitimam filhos bastardos, enobrecem peões, emancipam filhos, perdoam criminosos, atribuem bens e recursos.” HESPANHA, António Manuel. A mobilidade social... p. 138-139.
68 HESPANHA, António Manuel. A mobilidade social... p. 140.
69 LEVI, Giovanni. Reciprocidade mediterrânea. In: OLIVEIRA, Mônica Ribeiro de; ALMEIDA, Carla
29 justiça real deveria atingir a todos os vassalos e cabia ao rei o poder de hierarquizar ou mesmo chancelar as posições sociais por meio da concessão de mercês.
Essa fabricação da imagem régia70 podia ser percebida em momentos de grande sentido simbólico, ritualizados em um gestual próprio. Francisco de Monçon, capelão e pregador régio nos reinados de d. João III e d. Sebastião foi autor de uma importante produção quinhentista sobre o príncipe, na qual ressaltava que o rei, embora afável, deveria manter distância em relação à “gente baixa” para que não corresse o risco de perder a majestade devida ao seu estado. De modo semelhante, o contato dos nobres com as pessoas de baixa condição deveria ser o mais raro possível, como forma de preservar a ordem social que se desejava manter.71
Portanto, o simples contato poderia ser entendido como gesto virtuoso. A ação misericordiosa inesperada guardava o caráter de valor natural e, por isso, eram percebidos com parte de ações cotidianas de nobres e monarcas. Em 1722, a Gazeta de Lisboa publicou a História anual, cronológica e política do mundo, cuja notícia sobre os reis de Espanha dá uma boa ideia sobre a imagem pública das ações de caridade régias:
Suas Majestades chegaram a esta Corte em 27 do mês passado [setembro] ao anoitecer e no dia seguinte de tarde indo visitar a Imagem de Nossa Senhora da Tocha, encontraram no cabo da rua de Leganitos ao Coadjutor da freguesia de São Marcos que levava o Santíssimo Sacramento a uma enferma velha e pobre e fazendo El Rei parar logo o coche, abriu com a sua própria mão o estribo e apeando-se com a Rainha fez passar o sacerdote ao coche real, dando-lhe o braço para se segurar ao subir e cerrando outra vez o estribo o acompanhou com a Rainha até casa do Marquês del Valle, onde a doente vivia e dizendo um dos Cavaleiros da Corte que deviam Suas Majestades atender a que podia ser a doença contagiosa, respondeu El Rei: Onde entra El Rei de la glória, seguros van los de la tierra, e a Rainha: En las obras de piedad no tienen jurisdicion los contagios. Entraram sem reparo por um corredor estreito e por uma pobre cozinha até onde se achava a enferma (que era uma pobre velha de 80 anos de idade) em uma cama posta no chão; assistiram a todo aquele ato e porque não podia tomar o lavatório, a mesma Rainha a sustentou e tirando o adorno de gaza que levava ao pescoço, lhe limpou a boca. Para se lhe aplicar decentemente o Sacramento da Extrema Unção, advertiu a mesma Senhora a El Rei e a todos os homens que saíssem do aposento e com admirável caridade estendeu as mãos e pés da enferma ao Sacerdote para lhos ungir, limpando neles com a sobredita gaza o lugar em que se lhe pôs o Santo Óleo. Deixando cada uma das Majestades 50 dobrões à doente, ou para assistência, ou para sufrágios, pegando nas duas velas que estavam no altar, acompanharam a pé, chegados aos estribos do coche ao Santíssimo até à Igreja, edificando com seu
70 O termo é de BURKE, Peter. A fabricação do rei...
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exemplo todos os circunstantes e mereciam justamente por este ato o cognome de Católicos, se não o tivessem por herança de seus avós.72
O trecho acima é pródigo em ações exemplares. A beneficiária do gesto régio reunia elementos caros à sensibilidade caritativa, a saber: era mulher, idosa, moribunda, pobre e doente. Os exemplos de doação e humildade dos reis podem ser percebidos pelo gesto do toque na enferma e pelo acompanhamento do Santíssimo até a igreja. O decoro e a observância da religião ficam claros no pedido da rainha para que todos se ausentassem do quarto onde iria ser administrada a extrema-unção.
O dever da humildade era extensivo a todos, assumindo, portanto, uma condição existencial. Convém lembrar, por exemplo, a iconografia oficial das bandeiras das Santas Casas de Misericórdia em todo o império português. A Virgem do Manto guardava de um lado do manto protetor, reis, nobres e clérigos e do outro, pobres e desvalidos. Embora a iconografia da Virgem da Misericórdia procurasse mostrar justamente a hierarquia presente no interior dessas irmandades, todos eram “pobres” diante da protetora. António Vieira, em 1627, resumiu bem essa condição universal, no sermão pregado na igreja das Chagas de Lisboa: “a Lei de Cristo é uma Lei que se estende a todos com igualdade, e que obriga a todos sem privilégio, ao grande e ao pequeno, ao alto e ao baixo, ao rico e ao pobre, a todos mede pela mesma medida”.73
Além da institucionalização da caridade, observável na expansão paradigmática das irmandades da Misericórdia, atos eventuais e públicos de compaixão cumpriam igualmente o papel de legitimidade junto a todas as esferas sociais. Também na Gazeta de Lisboa de 1722, foi publicada a notícia de que no dia 8 de outubro de 1719, na capital portuguesa havia sido administrado o batismo a Maria Ana Bernarda, filha do conde de São João, cujo padrinho fora “um pobre mendicante que neste ato se achou casualmente, ao qual se mandou vestir e dar uma grande esmola”.74 Observa-se aqui
uma das principais características das sociedades católicas, nas quais o ato público de compaixão assumia um papel pedagógico e, ao mesmo tempo, tendia a reiterar o anonimato dos pobres. No caso citado acima, a esmola cumpria a principal função do momento: espetacularizar o gesto em benefício do doador.
Como visto acima, a esmola, tal como a mercê, implicavam uma obrigação tácita e de legitimação social. Do ponto de vista institucional, os estabelecimentos religiosos
72 História anual chronológica e política do mundo... p. 407-408. 73 VIEIRA, António (S.I.). Sermões... t.2, p. 324.
31 demandavam tendo por justificativa sua pobreza e o fim piedoso a que destinavam os recursos, no entanto, a liberalidade régia tinha limites. Não se tratava de despender tudo em favor dos pobres, mas, dentro das possibilidades régias, fazer a justiça. A liberalidade e o senso de caridade eram também hierarquizados: “a caridade bem ordenada é aquela que primeiramente começa com seus amigos mais próximos”.75
Serafim Leite, ao descrever as práticas de caridade dos jesuítas no século XVI, justificou-se de modo bem semelhante: “a caridade bem ordenada devia começar pelos de casa e constava que os nossos da capitania do Espírito Santo passavam por necessidade, em 1579”.76
Por mais que a tradição jurídica tivesse uma importância efetiva enquanto elemento norteador, ela não esgotava – como qualquer aparato legal – o universo de especificidades das relações sociais. Obviamente, as orientações normativas do antigo regime português previam e reiteravam a enorme plasticidade das vivências da lei, conservando grande flexibilidade, traduzida na imposição do direito local ao direito geral, na prevalência de soluções específicas decididas localmente, em detrimento das leis abstratas do reino.77 Essa mesma flexibilidade deu o tom das noções de caridade e
pobreza, baseada num vocabulário que recorria ao amor como elemento mantenedor da ordem social, e que vigorou nos textos jurídicos, morais e religiosos.
Diante de uma aparente imobilidade das normativas, de certo rigor nos valores e deveres do rei e, por extensão, dos súditos, existiu um sem-número de relações que extrapolavam as prescrições jurídicas e religiosas. Foi justamente nesse universo ritualizado por convenções discursivas, mas aberto a possibilidades e interpretações, que aflorou uma série de soluções um tanto controversas para o exercício da caridade.