• Sonuç bulunamadı

Ainda que essas transações fossem em valores, de extensão e preço, muito maiores, em geral, dos praticados nas áreas próximas de Olímpia e mais ao sul desta, comparativamente, e ainda que esta fosse uma pecuária privilegiada na relação com outras áreas de estados vizinhos, a fertilidade do solo não se mostrava propícia à cafeicultura. Também a ferrovia tardara em se estender por estas áreas.

Um breve exemplo pode elucidar a discrepância entre os preços de terras numa e noutra área, dentro do mesmo município de Olímpia. Assim, o médico de Barretos, Dr. Marcos Candido Martins, comprou 130 alqueires na Fazenda Olhos d’Água, em porção de propriedade de João Victal de Lima, por Rs. 50:000$000, em 13 de novembro de 1920 (CRGHCO, Livro 3, reg. no. 387; fl. 92). Por outro lado, José Telles de Menezes, de Barretos, pagou apenas Rs. 6:050$000 por um total de 288 hectares – portanto, quase o mesmo tamanho –, na fazenda “Bálsamo”, de Icém, a José Bento Maldonado e Jeronymo e Sebastião da Costa Maldonado (CRGHCO, Livro 3, reg. no. 559, 31/3/1921, fl. 128). Outros muitos exemplos desse tipo poderiam ser aqui mostrados, mas nos privaremos da repetição.

A importância do traçado da ferrovia é reforçada pelo relato da Revista Agrícola de Olímpia, feito pelo Dr. Oscar Lisboa, em 1925, que atestava uma limitação aos plantios de cafeeiros atrelada à distância destes até a ferrovia:

141 Comparar as propriedades de Pedro Ricciardi em 1925 e 1929, pela Revista Agrícola de

Olímpia, ver também como se mantém em 1945, pela Relação dos Cafeicultores. As grandes aquisições de terras na “zona pastoril” de Olímpia por empresas inglesas deverão ser analisadas.

“[a] lavoura cafeeira (...) cobre os espigões do sul do município, num raio de 15 kilometros dos trilhos da S. Paulo – Goyaz, desde as divisas de Monte Azul até a Cidade, constituída por cerca de 32 milhões de cafeeiros de 4 a 20 annos142 em plena produção de excellente café, cotado entre os melhores typos paulista, pela sua torração e aroma” (Mori, 1925; 36-37).

Muitos anos depois, conforme a Relação dos cafeicultores do estado de São Paulo (1942; 552-577), em 1940, apenas 32 propriedades cafeeiras em Olímpia estavam mais do que 15 quilômetros distantes da ferrovia, sendo que a distância máxima ali verificada para todas as propriedades era de 30 quilômetros, ainda que apenas 4 propriedades estivessem tão distantes, num total de mais de 500 propriedades produtoras de café. Dessas propriedades mais distantes da ferrovia, nenhuma tinha mais do que 70 mil cafeeiros (apenas uma tinha tanto), a maioria menos do que 10 mil cafeeiros, sendo pois pequenas propriedades. Por outro lado, das 29 maiores propriedades produtoras de café do município, com mais de 100 mil cafeeiros, apenas seis estavam mais do que 10 quilômetros distantes de uma estação da ferrovia São Paulo-Goiás.

A distância para a ferrovia continuava sendo algo decisivo para a produção cafeeira. A relação entre a distância e o tamanho das propriedades também deve ser ressaltada. Verifica-se, antes de tudo, uma parcela relativamente pequena de grandes propriedades cafeeiras no universo restrito do município: trinta para um total de mais de 500 propriedades cafeeiras. Destas, apenas seis tinham mais do que 200 mil cafeeiros, sendo que três eram do Coronel Geremias Lunardelli (Fazendas Nata, Gema e Recreio, a Gema aliás com 477 mil cafeeiros), que já fora considerado o rei do café, nos anos 1920143, depois da decadência do coronel Francisco Schmidt. Nada comparável, portanto, aos imensos cafezais da área de Ribeirão Preto, onde o próprio Schmidt chegou a ter, em 1908, 7.500.000 cafeeiros, e apenas uma das fazendas de Martinho Prado Júnior, a São Martinho, chegou a ter, em 1912, 3.400.000 cafeeiros numa área de 12 mil alqueires (Monbeig, 1998; 141-163). Isso só vem reforçar a noção de como as terras dos espigões de Olímpia eram relativamente escassas frente ao que já fora a realidade da chamada “frente pioneira” da expansão da cafeicultura pelo Oeste Paulista.

142 Essa informação corrobora a noção de que as plantações de café começaram na área nos primeiros

anos da década de 1900, uma vez que o texto publicado em 1925 dava conta de cafezais de 20 anos na área.

143 Porém, o coronel Geremias Lunardelli tinha outras propriedades pelo estado, em Araçatuba

Outras três dessas 30 grandes propriedades eram do Coronel Antônio Gordinho Filho, de São Paulo; outra mais do Capitão Deolindo Joaquim de Souza; outra da tradicional família Franco; outras três eram do Coronel Gabriel Jorge Franco; uma do ex-prefeito de Bebedouro, Dr. Paraíso Cavalcanti; e as demais de fazendeiros que eram, ao mesmo tempo, comerciantes de café. Pode-se, com isso, estabelecer um nexo entre a divisão das melhores terras para a cafeicultura entre aqueles que, de uma maneira ou de outra, personificavam os mecanismos da política e do comércio na área.

Nem todas as grandes propriedades, no entanto, eram grandes produtoras de café, porém é patente a consideração de que todas as grandes produtoras de café eram grandes propriedades. Assim, para essas 30 maiores fazendas, a média de cafeeiros estava em 169, 69 cafeeiros por propriedade, enquanto a média de alqueires das mesmas era de 231,83 alqueires, de acordo com a Relação dos cafeicultores do estado de São Paulo. É interessante, por fim, notar como essas propriedades estavam quase todas nos espigões da área ao sul do município de Olímpia, acompanhando o trajeto da ferrovia (ou o trajeto da ferrovia é que, antes, acompanhava-as).

Desse modo, das 30 propriedades, uma delas estava no limite sul de Olímpia, em Monte Verde; tratava-se da fazenda Boa Esperança, decorrente da divisão da fazenda original Palmeiras, comprada pelos irmãos Arnoldo Bulle e Augusto Medeiros Bulle de João Saborido, em 1918. Cinco daquelas propriedades estavam em Severínia, que à época se chamava Luiz Barreto: uma sendo a fazenda Barrinha do Cap. Deolindo Joaquim dos Santos; outra a famosa Fazenda Nata do cel. Geremia Lunardelli; outra a Ibiúna, do coronel Gabriel Jorge Franco; outra também chamada Ibiúna, de Hermílio Franco; por fim, a fazenda Embé, do também comerciante de café Natal Breda. Todas essas fazendas, em Severínia, eram subdivisões das fazendas originais Palmeiras, Bagagem e Olhos d’Água.

Depois, seguindo o trajeto da ferrovia e dos espigões, outras cinco daquelas maiores propriedades estavam próximas à estação de Álvora, entre Severínia e Olímpia, onde se evidenciava uma concentração da propriedade fundiária ainda maior do que na estação anterior. Três das quais eram as famosas fazendas Santa Ernestina, Santa Maria e São João, pertencentes ao Banco do Brasil, em decorrência das falências principalmente do grande cafeicultor e banqueiro local, Gabriel Said Aidar, por conta das implicações da crise de 1929. As outras duas eram as não menos consagradas propriedades também do coronel Geremias Lunardelli, as fazendas Gema (com seus 477 mil cafeeiros, em 250 alqueires) e Recreio (com 336 mil cafeeiros, em 270 alqueires).

Vale ressaltar que, para estabelecer o elo com a história anterior dessas terras, todas essas fazendas estavam dentro da área da Fazenda Olhos d’Água.

A grande maioria das grandes propriedades cafeeiras estava, dessa maneira, concentrada nas proximidades da estação de Olímpia, portanto dentro do núcleo da antiga Fazenda Olhos d’Água. Eram quinze das 30 maiores propriedades cafeeiras, portanto metade. A média do número de cafeeiros nessa sub-área era, no entanto, menor do que a média geral para as grandes propriedades: média de 136,46 mil cafeeiros por propriedade, contra a média geral de quase 170 mil cafeeiros por propriedade. O mesmo valendo para a média de alqueires: 208,4 alqueires em média por propriedade, contra 231,83 alqueires da média geral. Vemos, assim, que as maiores e mais produtivas propriedades cafeeiras estavam mesmo mais ao sul de Olímpia, ainda que a maioria estivesse próxima à estação de trem desta cidade.

Por fim, em 1940, apenas três estavam mais ao norte, na estação de Ribeiro dos Santos, que também fazia parte das terras originariamente da Fazenda Olhos d’Água, a maior delas pertencente a um conhecido comerciante de café de Olímpia, o italiano Giosué Tonani. Ainda que houvesse na Relação algumas outras propriedades próximas à estação de Ribeiro dos Santos, 15 no total, e outras próximas à estação de Altair, 9 no total, a grande maioria destas era de pequenas proporções, em geral com menos de 20 mil cafeeiros, o que poderia ser tocado por uma família grande de proprietários.

O norte da cidade de Olímpia tinha, de fato, poucos cafezais, na comparação com o sul, ainda que tivesse muitos campos, como procuramos anteriormente apontar. Fica, portanto, clara a ocupação dessas áreas dos espigões, mais ao sul da cidade de Olímpia com a cafeicultura. Porém, mais do que isso, procuramos ressaltar a presença na Relação de cafeicultores da cidade de muitos coronéis e comerciantes ligados à história anterior de concretização dos mesmos municípios e do traçado da ferrovia.

Se as maiores propriedades estão próximas das estações ferroviárias (e estas se tornariam os municípios na área que hoje conhecemos, Olímpia e Severínia, e os distritos de Álvora e Monte Verde), estas propriedades são em grande parte daqueles coronéis que determinaram ambas as localizações (das estações e das cidades), pode-se estabelecer, então, uma determinação do chamado coronelismo sobre o rendimento superior dessas áreas, não só quanto ao critério de fertilidade, porém, especialmente no caso, no critério de localização.

Estas distinções de áreas serão revertidas em preços diferenciados para as mesmas propriedades, na comparação com outras e, quanto a isso, os registros do

cartório proporcionam farta exemplificação. Separada a melhor “fatia do bolo” para as mais importantes personas do capital e da política (notadamente, portanto, as mesmas pessoas praticamente), restariam as áreas menos férteis e pior localizadas para as pequenas propriedades se instalarem. Este processo condiz, mais uma vez, com a autonomização do capital, o que requer uma apropriação da base fundiária:

“Já que essa produção capitalista no início só entra esporadicamente, não se pode alegar absolutamente nada contra a suposição de que ela, de início, só se apossa de conjuntos de terrenos tais que, devido à sua fertilidade específica ou sua localização especialmente favorável, podem, no todo, pagar uma renda diferencial” (Marx, 1986, III, t. 5, cap. 47; 258).

4.2. Fragmentação das grandes posses e pequenas propriedades nas piores terras

Benzer Belgeler