Da adolescência como a idade de todos os possíveis à adolescência como a idade do encontro com o impossível, Stevens (2004) optou por precisar sua exposição sobre a adolescência tratando-a como um sintoma da puberdade, uma vez que “todos os possíveis é a vertente da resposta ao encontro com o impossível” (p.28). A partir das exposições de Freud e Lacan, podemos pensar no encontro com o impossível do sexo, o impossível de simbolizar do sexual, que Moritz nos indica muito bem ao dizer que não há respostas, apenas palavras. É o que Lacadée (2011) nomeia como “mancha negra” (p.78), referindo-se ao indizível que alguns adolescentes podem achar insuportável.
O encontro com o real na puberdade não é o encontro apenas do ponto de vista biológico em relação ao surgimento dos caracteres sexuais secundários, nem em relação ao surgimento hormonal precipitado. É uma relação com o órgão marcado pelo discurso, “ou seja, há uma irrupção, uma emergência de alguma coisa sobre a qual as palavras falham um momento antes de poderem, a partir da ‘mudança dos sonhos’, recolocar-se progressivamente.” (Stevens, 2004, p.33). Dizer a uma jovem, por exemplo, que ela está se tornando mulher não lhe protege do desconhecimento que o surgimento da coisa lhe causará. As palavras que o púbere tinha até o momento não correspondem ao que agora lhe acontece. O que está em jogo é mais o surgimento do novo, sobre o qual há uma falha do saber, que terá repercussões na vida e no discurso do adolescente, do que simplesmente as mudanças biológicas em si.
Stevens (2004) no lembra que, em seu Seminário XI, Lacan remete o real ao encontro com algo novo, Tyché, articulando-o diretamente à ideia de eclosão. Já no final de sua obra, o real é remetido à inexistência da relação sexual, que é a inexistência de um saber pré- constituído sobre a relação entre um homem e uma mulher, representada pelo conjunto vazio (ϕ). Podemos constatar isso no ato de Melchior, que após o encontro sexual com Wendla, foge para a mata, angustiado e chorando. Melchior, vale lembrar, buscava no saber uma tentativa de articular o não saber sobre o sexual, chegando até a escrever uma manual sobre o assunto. Frente ao não saber preestabelecido, portanto, resta a cada um a invenção de uma resposta.
Lacadée (2011) complementa que este enunciado ‘não há relação sexual’ poderia ter o seguinte correlato: ‘mas há o gozo’, conforme também propõe Miller (2000). No entanto,
o gozo é, no fundo, ideal e solitário, não estabelecendo nenhuma relação com o Outro. Mesmo quando o sujeito acredita ser possível a experiência da relação sexual, o gozar do corpo do Outro se depara com um impasse, um impossível, uma não relação. (p.74)
Por outro lado, esse não saber instintual sobre o sexual abre um lugar para a invenção simbólica pelo sujeito.
O autor aponta que nenhuma palavra responde ao que se modifica no corpo púbere, nem ao encontro com o Outro sexo. “Esse real, no entanto, suscita o despertar de fantasias e sonhos que conduzem o sujeito a certo exílio.” (Lacadée, 2011, p.75). O que o autor propõe aqui é que, ao mesmo tempo em que os sonhos são necessários para que o encontro com o Outro sexo seja possível, ele não viabiliza a relação sexual, pois “esse real suscita, em nome da causa, o gozo das fantasias que afastam tal possibilidade” (p.75).
Antes do exílio do adolescente, temos que lembrar, primeiramente, do exílio fundamental do sujeito que, ao se situar como falasser na linguagem, exila-se da natureza do ser vivo e renuncia ao gozo primitivo, para poder entrar na linguagem. Sobre o exílio adolescente, Lacadée (2011) aponta:
Devido ao real da puberdade, o sujeito é exilado de seu corpo de criança e das palavras da infância, sem poder dizer o que lhe acontece. O paradoxo com que se defronta em seu encontro com o Outro sexo é dado, então, pelo exílio de seu próprio gozo, que em vez de se relacionar com o Outro, exila-o ainda mais numa solidão que não pode traduzir em palavras. (p.75)
Zanotti e Besset (2007) acrescentam que o encontro com o sexual, além de despertar o adolescente dos sonhos, o desperta para o mal estar, pois este será sempre marcado pelo desencontro. Isso aponta, para cada sujeito, seu desamparo fundamental e a não completude. O estranhamento com o próprio corpo também é um dos aspectos para esse despertar do mal estar, pois “com as transformações do corpo, é possível o acesso à realização das fantasias - incestuosas - relacionadas ao encontro com o sexual.” (p.53). As autoras indicam, então, que a escolha de objeto implica a re-vivência do complexo de Édipo, portando um mal-estar inerente. Elas utilizam o “troumatisme”, neologismo forjado por Lacan para dizer do trauma na puberdade. O troumatisme é a junção do trou, que significa buraco (em francês) com o traumatisme – trauma. É um trauma que surge frente ao encontro com esse vazio, esse buraco de significação.
Frente a isso, cabe ao adolescente inventar, pela linguagem, um modo de nomear o que lhe acontece de forma singular, sendo sua tarefa inventar esse enlace, orienta Lacadée (2011). Ele aponta também que a puberdade apresenta todas as características de um sintoma. Trata-se do que Stevens (2004) forja ao dizer que a adolescência é uma resposta sintomática à puberdade, a partir de um seminário em que Jacques-Alain Miller situa o sintoma como resposta metafórica à inexistência da relação sexual:
Ʃ Adolescência ϕ Puberdade
Assim, os autores fazem uma diferenciação entre a puberdade, que consiste nas transformações corporais, e a adolescência, que será a resposta criada pelo adolescente para responder às essas transformações para as quais não há uma resposta pronta. Stevens (2004) expõe sete possibilidades exemplificativas de respostas sintomáticas que o adolescente pode dar.
A primeira resposta é em relação ao saber, havendo aí duas posições que podem ser assumidas: uma seria a posição positiva, quando o adolescente põe-se a estudar, buscando no saber sobre o mundo uma substituição ao não saber sexual. A segunda posição seria negativa, quando há um abandono do saber, visto que ele não responde à única questão realmente em jogo. A segunda possibilidade apontada por Stevens (2004) são as identificações simbólicas ou imaginárias que fundamentam os grupos, que podem aparecer na adolescência como resposta. Temos ainda a passagem ao ato e o acting out10, que podem surgir como respostas à falha na fantasia construída na infância frente às novas problemáticas púberes. Retomando Lacan no Seminário X sobre a angústia, Stevens relembra que o que faz barreira à angústia é o sintoma, e que, quando ele falha, temos o acting out e a passagem ao ato como a última barragem a ela.
A quarta possibilidade de resposta é o pai como sintoma. Remetendo ao Homem mascarado como uma das figuras do Nome-do-Pai, Stevens (2004) aponta que “é um pai de substituição sólido, como se pode encontrar sob a forma de um professor e que serve como sintoma. É o pai como sintoma” (p.36). Aqui, o autor remete-se a Melchior, que estava quase sendo levado para a morte por Moritz, mas que não passa ao ato após a intervenção do Homem mascarado. No mundo atual, entretanto, o declínio da função paterna é de estrutura, uma vez que na lógica do “para todos” do mundo globalizado, não há mais o lugar da exceção. Essa forma de organização contemporânea que busca que todos sejam iguais gera, no entanto, seu oposto, que é a própria segregação. Com isso, tem-se um ciclo de violência, que é um misto do declínio da função paterna na contemporaneidade com a recusa em responder a isso, a partir do declínio da virilidade. A esse declínio da função paterna, temos a ascensão da religião como forma de resgatar o pai simbólico da lei, e o fundamentalismo, que
10 Acting out e passagem ao ato são dois tipos diferentes de resposta. Lacan (1962-63/2005) afirma que o acting
out é o oposto da passagem ao ato, pois ele é orientado para o Outro, “é, em essência, a mostração, a mostragem, velada, sem dúvida, mas não velada em si.” (p. 138). Ao contrário, a passagem ao ato, que tem como paradigma o suicídio, é a saída de cena, sem endereçamento, quando o sujeito é totalmente apagado.
é uma tentativa de buscar um pai gozador, senão até o pai da horda, diríamos. Esta tem sido, também, uma resposta construída por alguns adolescentes.
A bulimia e a anorexia, sintomas orais da demanda de amor, são outras duas respostas sintomáticas que levam principalmente as moças a corpos esquálidos, sem forma, e à interrupção da menstruação numa tentativa de recusar a sexuação.
Por último, Stevens (2004) traz a toxicomania como uma forma por meio da qual o sujeito adolescente pode encontrar o gozo fora do sexo, não precisando assim, embaraçar-se com a sexuação. Este é um sintoma bastante sólido, pois além da relação com um gozo solitário, ele dá ao sujeito uma identificação como toxicômano.
Com isso, concluímos que cada adolescente terá que dar sua resposta singular a esse momento tão precioso que é a adolescência como uma solução sintomática à puberdade. No entanto, como vimos com Freud (1905/2006) e com Lacan (1957-58/1999) há uma diferença na sexuação feminina e masculina. As meninas, Freud nos mostrou, precisam de um esforço a mais, e por isso dedicamos a próxima seção às especificidades do tornar-se mulher.