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a) Percepções da professora itinerante sobre a postura das

professoras do ensino comum, frente aos horários de atendimento.

Conversando com a professora do ensino itinerante sobre a tabela onde estavam organizados os atendimentos dos professores, obtive uma informação muito importante. Segundo ela, as professoras não a procuravam. Ao contrário, era ela quem tinha que ficar “correndo atrás para perguntar se está tudo bem”. Deste modo, foi possível perceber que a professora itinerante, muitas vezes, precisava ficar contatando as professoras para os agendamentos, mas sabe-se que o ideal seria que o interesse em agendar reuniões com a professora itinerante partisse também das professoras do ensino comum. A professora itinerante revela ainda que não gostava de conversar sobre a criança na porta da sala de aula mas, sim, de forma individual, acrescentando que procurava não incentivar este tipo de postura informal, preferindo valorizar as reuniões destinadas para este fim.

Numa ocasião fomos até a sala dos professores para lanchar, L aproveitou a situação para confirmar as datas das orientações com as professoras do ensino comum. Houve a confirmação de três professoras, A, S, e D, para o dia seguinte. Depois do recreio, ao nos entrarmos na sala, ocorreu o seguinte comentário: “As professoras estão empenhadas, eu já passei o material da apostila para elas fazerem na classe, só que eu passei um pouco de atividade se não elas fazem tudo de uma vez” Só que elas têm dificuldade para fazer mais materiais eu dou alguns de modelo, elas dão tudo e depois ficam sem para se basearem”. Essa colocação da professora itinerante revela que ela tem uma avaliação negativa com relação ao uso de materiais oferecidos às professoras do ensino comum. Destaca ainda que começou a preparar e separar alguns materiais para entregar para as professoras do ensino comum, mas enfatizou que algumas delas não utilizavam o material nem quando ela entrega o material pronto e ainda comentou: “se fosse eu ficaria feliz, porque eu estou dando o material pronto para elas, e algumas nem se lembram de usá-lo ou não quer usar mesmo”.

Ao chegarmos à escola no dia seguinte, a professora itinerante atendeu os alunos I e V. Depois do atendimento, disse que estava no horário de orientação reservado a professora S, mas ela estava atrasada, então a L me disse: “Vamos subir, que ela deve ter se esquecido” Quando estávamos subindo ela comentou que “é assim mesmo, eu preciso ficar atrás das professoras, porque elas marcam orientação e depois se esquecem”!!!!. Os alunos estavam na Educação Física e a professora estava em aula “vaga”. Chegando à sala da professora S ela disse: Ai L! Já tinha esquecido, desculpa! É que eu comecei a corrigir umas atividades e me distraí. Pediu desculpas e teceu um comentário sobre o seu horário de trabalho, pois trabalha os três períodos, e disse que anda com a cabeça cheia, parecendo ter ficado envergonhada. L disse: não tem problema! Esse acontecimento evidencia a ocorrência de um procedimento não institucionalizado, com os horários de orientação que deveriam ser cumpridos de forma mais rigorosa, principalmente quando há a confirmação, no dia anterior sobre o horário de atendimento. Além disso, o atendimento às professoras está previsto para ser realizado mensalmente, no mínimo, ou sempre que surgirem dificuldades.

Além do esquecimento, outro problema que ocorria com freqüência era a falta de agendamento. Certa vez a professora L reclamou que reservou o dia para orientação aos professores e me mostrou a folha de agendamento vazia dizendo: Ninguém marcou! Disse ainda que já havia falado com a coordenadora e que não adiantou. Complementou revelando que “esse problema tem relação com a equipe técnico-pedagógica da escola, porque na outra escola a coordenadora marca tudo. Eu estou cansada, vou levar ao conhecimento da Coordenadora Técnica da Educação Especial, na reunião de sexta-feira”.

Em virtude destas atitudes das professoras do ensino regular, a professora L resolveu mudar sua maneira de lidar com a questão. Foi até a sala dos professores na hora do recreio e escreveu um recado às professoras na lousa com giz colorido, chamando a atenção para a importância da reunião mensal. A professora itinerante demonstrava ficar muito chateada e preocupada com a ausência de interesse das professoras do ensino comum e revelou ainda que a professora que mais se interessava era a professora N.

Essas atitudes de esquecimento, ou falta de agendamento, eram comuns no cotidiano da professora itinerante. Quando ocorria de L reservar atendimento às professoras e ficar sem atender, justamente por estes motivos descritos anteriormente, ela preenchia o horário que havia ficado vago, com atendimento aos alunos. Atitudes como estas por parte das professoras do ensino comum geravam interferências negativas ao trabalho da professora itinerante e dificultavam a interação entre ambas, além de prejudicar o andamento do serviço itinerante.

Com relação à avaliação do serviço itinerante, L disse que este faz mais do que precisava, já que segundo ela “o certo seria orientação para a professora”. Neste ponto de sua fala pode-se perceber que a professora itinerante revela que, na sua concepção, o papel do ensino itinerante seria o de oferecer orientações aos professores do ensino comum. Destacou que o serviço itinerante fazia além do seu papel de orientação, quando ofertava paralelamente, atendimento aos alunos “a gente dá atendimento e ainda oferece atividade e ainda parece que faz pouco”. Nota-se na fala da professora itinerante um certo descontentamento com relação ao modo como o serviço de apoio pedagógico especializado é utilizado, enfatizando que poderia ser melhor aproveitado pelas professoras do ensino comum.

b) Orientações da professora do ensino itinerante às professoras do

ensino comum. Metodologia do atendimento.

É importante desatacar que quando a professora do ensino comum não ia até a reunião, a professora do ensino itinerante ia até ela. Além disso, é importante enfatizar que a professora itinerante procurava atender as professoras de forma individual, o que personalizava o atendimento e o deixava mais específico, pois atuava essencialmente nos pontos mais relevantes.

Observa-se que, apesar dos dados de campo ficarem restritos aos participantes selecionados para a pesquisa, é importante salientar que mesmo não constando em forma de dados, devido à necessidade do recorte mencionado anteriormente, a professora itinerante também atendia outras professoras e outros alunos do ensino comum. Porém, o que se evidenciou foi que esta professora realizava todos os atendimentos com as mesmas características, mantendo assim a mesmo sistemática de trabalho.

Atendimento à professora S.

Em reunião de atendimento à professora S a professora itinerante orientou que ela trabalhasse com a apostila, seguindo a seqüência ali prevista. Pediu também que reforçasse as atividades de consciência fonológica e discriminação visual, porque a pesar do IAR demonstrar que G tinha prontidão para a alfabetização, ela ainda estava em um nível bastante primitivo de alfabetização. A professora, muito atenciosa, ouviu as explicações e disse que faria isto então, e que até achava que G estava melhorando, mas acrescentou: Só que é

devagar! A L procurou tranqüilizá-la dizendo que é assim mesmo, para ela não ficar preocupada, que é o ritmo da G.

Pude constatar que a professora demonstrou muita boa vontade e pareceu estar aberta para as sugestões dadas pela professora L.

Atendimento à professora N.

Como estava marcada orientação com a professora N do ensino comum, subimos até a sua sala, uma vez que as crianças estavam na educação física e ela tinha uma aula vaga. Ao chegarmos, vimos que ela estava conversando com o policial do projeto de combate às drogas PROERD15. Ela fez sinal para deixar para depois, justificando que, além de estar ocupada, havia se esquecido da reunião. Interrompeu a conversa e pediu para L deixar para depois do recreio, pois ela iria pedir para a agente educacional ficar com sua sala. Como ela era a única professora que havia marcado, L não viu problema e acertou um novo horário, que seria depois do recreio. Recorrências deste mesmo problema, apesar de momentaneamente solucionado, são a expressão de uma postura pouco comprometida das professoras do ensino comum, como quando se esquecem da reunião. Além de ser mensal, L sempre que pode confirma a reunião no dia anterior.

Depois de reorganizar o horário para a professora N, foi possível realizar a reunião. Nessa ocasião a professora questionou a quantidade de crianças na sala e pediu para a L levar esta queixa para a Secretaria Municipal de Educação, em razão da justificativa de que na classe há três inclusões, apesar do elevado número de alunos, e aproveitou a oportunidade para descrever algumas características da sua classe. Reclamou do aluno W que não apresentava um bom rendimento, porque não fazia as atividades propostas, demorava o dia todo para fazer uma atividade simples e, quando fazia, deixava pela metade. A professora itinerante ouviu atentamente suas reivindicações e tentou tranqüilizá-la, porque ela estava desanimada, pensando que não estava conseguindo trabalhar corretamente com ele. L disse que, nos atendimentos, ele também era disperso, demorava e não se concentrava.

Tal colocação fez-se necessária pelo fato de L julgar que as manifestações das professoras de classe comum precisavam ter um espaço no qual pudessem ocorrer. Contudo, ao procederem desta forma por fragilidade na formação, os temas deixavam de ser analisados em profundidade. E lamentou dizendo: é uma pena!

Benzer Belgeler