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Em 1946, Lina Bo casa-se com Pietro Maria Bardi, marchand e crítico de arte, e viajam ao Brasil. Ela se encantou ao ver o prédio do Ministério da Educação e Saúde - MES, o “grande navio branco e azul contra o céu”, que conhecia através da publicação Brazil Builds. Depois teve oportunidade de conhecer os arquitetos do projeto, em recepção no IAB-RJ, onde estavam presentes: Lúcio Costa, Oscar Niemeyer, Rocha Miranda, Athos Bulcão e Burle Marx, entre outros328.

Durante a estada no Rio de Janeiro e através da ajuda do jornalista Mário da Silva, redator do jornal “Lavoro Fascista” e colaborador da revista “Quadrante” de Bardi329, o casal Bardi montou três exposições na Capital Federal. Na “Exposição de Pintura Italiana Antiga”, no saguão do MES, o casal conheceu o jornalista Assis Chateaubriand330, que convidou Bardi para ir à São Paulo, a fim de instalar uma Galeira de Arte no edifício que construía para a nova sede dos Diários Associados, à rua Sete de Abril:“acho melhor o senhor levar sua mulher junto, porque já que ela é arquiteta, ficará responsável pelo projeto”.331Depois desse convite o casal resolve morar em São Paulo, e em 1947, se instalam no bairro de Perdizes, à Rua Traipu, numa casa projetada pelo arquiteto italiano Daniele Calabi.332

Desde o início de suas atividades em São Paulo, Lina Bo mostrou ser uma mulher independente, mas parceira de seu marido - sem ficar à sombra deste, e juntos inauguraram,em 1947, o MASP. Eram dois pavimentos do edifício da Rua Sete de Abril, com pinacoteca, auditórios, biblioteca e oficinas de tapeçaria, gravura e fotografia. O MASP fora concebido como um “museu vivo”, com exposição, atividades didáticas, dança edesfiles de moda que contribuíram para agitar o cenário cultural paulista nos anos 1950-60. Lina Bo torna-se uma figura de destaque num contexto em que predominavam nomes masculinos - entre eles muitos estrangeiros - realizando vários projetos de arquitetura e arquitetura de interiores tais como: Edifício Diários Associados, 1947 e Edifício Taba Guaianases, 1951, não construídos; restaurante Prato de Ouro, loja Olivetti-Tecnogerale outros projetos de design de móveis em seu Studio Palma. Lina Bo também se dedicava ao desenho de roupas e joias, e, em suas atividades no MASP, incentivou o surgimento de uma moda brasileira333. A

328 Conforme site oficial do Instituto Lina Bo e P.M. Bardi. Ver também: BARDI, Lina Bo. Curriculum literário. In. BARDI, Lina Bo. Lina Bo Bardi. coord. Marcelo Carvalho Ferraz, 3ª. Ed.. São Paulo: Instituto Lina Bo e P.M.Bardi, Imprensa Oficial do Estao de São Paulo, 2008, p. 09-12.

329 Segundo Silvana Rubino, o jornalista Mário da Silva conhecera Pietro Maria Bardi na Itália e teria sido ele quem recepcionou o casal no Brasil. Também através de Brito o casal conseguiu montar duas exposição no saguão do MÊS e outra no Hotel Copacabana Palace. Ver: RUBINO, op. cit. p. 74.

330 O episódio é relatado pelo jornalista Fernando Morais, na biografia de A. Chateaubriand (Chatô), que na época era dono dos Diários Associados, tinha a intenção de inaugurar uma Galeria de Arte na sede dos Diários em construção. Chatô teria conhecido P.M. Bardi na “Exposição de Pintura Italiana Antiga”, inaugurada com 54 telas de pintura do século XIII ao século XVIII, realizada no saguão de entrada do Ministério de Educação e Saúde, por Pietro Maria Bardi, a fim de vendê-las. Chatô comprou uma tela e convidou P.M.Bardi a viajar a São Paulo. Segundo Morais :“[...] No dia seguinte o Jagunço decolava do Rio levando

Lina, Pietro Bardi e Assis Chateaubriand com destino a mais polêmica aventura das artes Brasileiras: a criação do Museu de Arte de São Paulo”. Cf. MORAIS,

Fernando. Chatô o rei do Brasil a vida de Assis Chateaubriand. São Paulo: Cia das Letras, 1994, p. 478-480. 331 Ibidem, ibidem.

332 RUBINO, op. cit. p. 77.

333 O MASP abriu espaço para discussão da moda brasileira, com o desfile de Luiza Sambonet, que publicou artigo na revista Habitat: “O Museu de Arte de São

Paulo abriu um caminho livre a todos os que pensam que não seja utópica a frase moda brasileira num Brasil que se orgulha de estar hoje na vanguarda entre as jovens nações do mundo”. Cf. SAMBONET, Luiza. Uma moda basileira. Revista Habitat, número 9, p.66.

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signora Bardi que frequentava “os círculos de maior capital social e cultural de São Paulo”334sempre se

vestia de modo a se“destacar entre as mulheres”335, uma atitude de quem seguia tendências da moda,

como usar calças compridas336, por exemplo.

Em sua trajetória em São Paulo, iniciada como “signora Bardi”, termina a década como uma individualidade, ao projetar a Casa de Vidro, [Fig.17] talvez a primeira obra de destaque, no cenário arquitetônico paulista de então, realizado por uma mulher. 337

17 - Casa de Vidro, fachada principal Foto: Edite Galote Carranza

334 RUBINO, Silvana Barbosa. Rotas da modernidade: trajetória, campo e história na atuação de Lina Bo Bardi, 1947-1968. Campinas,Tese UNICAMP, 2002, p. 80.

335 Ibidem, ibidem.

336Nos anos 1950 calças compridas representavam uma novidade no guarda-roupa feminino brasileiro. Ver fotos de Lina Bo ao lado de Steiberg, no Rio de Janeiro, 1952; outra ao lado de Flávio Motta, em 1957, e ao lado de G.Rocha e M.Golçalvez, em 1959. Cf. BARDI, Lina Bo. Lina Bo Bardi. coord. Marcelo Carvalho Ferraz, 3ª. Ed.. São Paulo: Instituto Lina Bo e P.M.Bardi, Imprensa Oficial do Estao de São Paulo, 2008, p. 46, 49 e 134.

337É notável que até nos dias atuais a presença feminina no mercado de trabalho seja inferior à masculina . O profesosr F. Segnini em sua tese de doutoramento destacou tal desigualdade, ao pesquisar 91 números da revista Arquitetura e Urbanismo, recolhendo depoimentos publicados, constatou que dos 206 profissionais entrevistados apenas seis eram mulheres “na qualidade de arquitetas, discutem a produção do projeto arquitetônico realizado por elas

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Casa de Vidro, 1951.

A Casa de Vidro [Prancha 1], tornou-se um ícone da arquitetura moderna brasileira, presente em diversos trabalhos acadêmicos, artigos e livros. Há pouco a acrescentar às análises já realizadas338, contudo alguns aspectos ainda podem ser comentados para o presente trabalho, que elucidam a visão de mundo da arquiteta e o prenúncio da Arquitetura que realizará anos depois.

Em sua primeira publicação, na revista Habitat, a casa é classificada pela arquiteta como “polêmica”, em suas palavras:

“Esta casa é, num sentido, polêmica, como, aliás deveriam de ser todas as construções de arquitetos de responsabilidade, especialmente se não existem compromissos com o comitente. Quasi a totalidade da arquitetura contemporânea, mesmo quando executada por arquitétos de responsabilidade, denuncia ‘ideias’ e ‘gostos’ dos proprietários que carecem na maioria dos casos, de base. Se um arquiteto da nova geração erra, isto se deve quase sempre à interferência do comitente. Neste caso, a situação foi outra: o comitente era o próprio

arquiteto.”339

No pátio posterior da Casa de Vidro, com acesso pela cozinha, ou pelos caminhos entre os jardins, há dois fornos [Fig.18] que Lina Bo assim os descreve: “Dois fornos construídos por caboclos, do lado da casa, com barro e tijolo. É este um momento em que a arquitetura popular entra em acordo com a arquitetura contemporânea”340. O ambiente dos fornos contrasta com a cozinha moderna [Fig.19] que foi descrita como “toda mecanizada e tem incinerador de lixo automático”341, cujas “pias e armários

são de aço inoxidável”342, há triturador de lixo na pia e eletrodomésticos sofisticados para a época. O espaço dos fornos é uma referência à arquitetura rural brasileira343com suas “cozinhas sujas”344 localizadas nos fundos dos quintais. O espaço assume importância na medida em que é um precedente de valorização dos saberes da cultura popular, dos “caboclos”, incorporados à arquitetura moderna, atitude que estará presente em outros projetos de sua trajetória.

338 Uma das descrições mais minuciosas é de Olívia Oliveira, que afirma que, nas publicações internacionais, anos 1950 ou mais tarde “jamais mostram a parte de trás da casa”. Cf. OLIVEIRA, Olívia de. Sutis substâncias da Arquitetura. São Paulo: Romano Guerra Editora; Barcelona, ESP: Editorial Gustavo Gilli, 2006, p. 62.

339 BARDI, Lina Bo. Residência no Morumbí. Revista Habitat, n° 10, São Paulo, p. 31-40. 340 Ibidem, ibidem.

341 Ibidem, ibidem. 342 Ibidem, ibidem.

343 Segundo o Dicionário da Arquitetura Brasileira: “Não há casa rural brasileira que não possua um forno, complemento necessário da cozinha roceira, onde são

assados o pão semanal, os biscoitos, as broas e as carnes domingueiras. Na ilustração acima vemos o comuníssimo forno de alvenaria de tijolos em puxado anexo à cozinha. Abaixo, outro forno domiciliar, inteiramente de barro apoiado em estrutura de madeira [...]”. Cf. CORONA, E.; LEMOS, C.A.C. Dicionário da

arquitetura brasileira. 2ª. Ed.São Paulo: Editora e Distribuidora Companhia das Artes, 1998, p.225.

344 Cozinhas ditas sujas devido ao beneficiamento dos alimentos e onde, por exemplo, as galinhas eram mortas e depenadas. Sobre o histórico das cozinhas das casas tradicionais paulistas. Cf. LEMOS, Carlos A.C. Cozinhas e etc. LEMOS, Carlos A.C. Cozinhas, etc.: um estudo sobre as zonas de serviço da Casa Paulista. São Paulo: Perspectiva, 1976.

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Benzer Belgeler