• Sonuç bulunamadı

Propomo-nos, nesta pesquisa, a fazer uma análise das trajetórias sociais de militantes catadores a partir de seus relatos ou narrativas de vida. Devemos, então, explicar alguns aspectos metodológicos que vemos como centrais para a execução deste procedimento.

Especialmente no que tange ao “espírito” com que vamos às entrevistas, cabe destacar que a abordagem clínica confere um papel diferenciado à escuta e à relação de horizontalidade entre pesquisador e entrevistados. Conforme nos lembra Levy, “o sociólogo clínico se concebe pois como ‘um ator à escuta da palavra e do sofrimento social’.” (Levy, 2001, p. 71) Para tanto, é preciso estar aberto à escuta do sujeito que fala – e sofre. O objetivo da escuta na sociologia clínica é liberar uma fala que leve em conta a dimensão social da história individual. O procedimento privilegiado nessa pesquisa são as narrativas de vida (ora também chamadas de histórias de vida ou relatos de vida). Para Legrand, a abordagem biográfica é tanto objeto quanto método, ela é uma abordagem da biografia pela biografia. É uma abordagem da história de vida pelo relato desta história, e ainda mais, pelo relato daquele que é tanto ator quanto autor de sua história. (Legrand, 1993, p. 11).

Ao se concentrar na análise de trajetórias individuais e não na explicação de estruturas macrossociais, a grande contribuição da sociologia clínica se dá na interface entre indivíduo e sociedade. Nesse âmbito, a força analítica da sociologia clínica se encontra nos princípios fundamentais do procedimento clínico, quais sejam: uma atenção aos fatos concretos, a serem analisados em sua totalidade; seu contexto empírico; os sentidos que os sujeitos imputam às ações e representações; e sua singularidade própria. Nesse procedimento, é mister a atenção aos menores detalhes.

Apesar do foco na singularidade do fenômeno e de seu significado, ao analisar essa significação, os resultados da análise podem ser generalizados, tendo em vista a profundidade com que foi feita e as ferramentas teóricas utilizadas.

O paradoxo contido em uma concepção da pesquisa clínica querendo-se, ao mesmo tempo, passível de generalização e implicada em uma intervenção pode assim, em certa medida, ser ultrapassado, sob a condição de ampliar sua significação e encará-la como um processo multidimensional. Deste ponto de vista, ela liga três momentos: o ato (ou a ajuda) – o trabalho de teorização – a transmissão, que relacionam sucessivamente atores sociais, pesquisadores e destinatários potenciais. (Levy, 2001, p. 98)

Nos relatos de vida, pretende-se compreender o vivido em grupo social pedindo a alguns dos indivíduos que dele fazem parte para narrar sua própria história. Nesse método, pretende-se “dar a palavra àqueles que nunca podem ou ousam tomá-la e contribuir, assim, para quebrar em pedaços as representações e as ideias recebidas que confirmam o status quo social”. (Levy, 2001, p. 93)

Por se pautar pelo interesse na profundidade dos relatos e dos aspectos simbólicos das falas dos sujeitos, a abordagem metodológica da sociologia clínica se interessa mais por se valer de poucos interlocutores, porém significativos, do que por uma investigação estendida a uma ampla amostra representativa. (Levy, 2001, p. 85)

Na coleta de dados, nossa preocupação foi, além de compreender como se tece a narrativa, tentar fazer emergir elementos de significação novos, cujo sentido foi procurado em um segundo momento, a partir da comparação entre os diferentes relatos e entre as hipóteses levantadas e sua verificação junto aos seus autores. Nesse sentido, foi necessário um amplo quadro de análise a fim de que não se perdessem dados potencialmente relevantes. Como bem relata Levy, tal procedimento pode parecer, às vezes, ineficiente, uma vez que podem decorrer vários encontros com o entrevistado sem que nada “revelador” seja percebido, e, em um encontro específico, um relato altamente significativo permite que os “fios se atem” e que se avance na análise de questões até então sem respostas. (Levy, 2001, p. 86)

Em alguns casos, vários encontros foram necessários para que se estabelecesse um vínculo de confiança entre entrevistado e entrevistador e para a fluidez e profundidade nos relatos apresentados. Tudo isso para

desencadear um relato significativo e para que os diversos fios das experiências vivenciadas pudessem ser relembrados, atados e compreendidos. Se a entrevista clínica é utilizada de maneira privilegiada no quadro de pesquisas efetuadas nesta perspectiva, é porque ela julga que é levando pessoas a explorar e a rememorar sua experiência passada – lembranças, observações, impressões, acontecimentos... – e a comunicá-la, no quadro privilegiado de uma entrevista, que se é capaz de ter acesso a uma compreensão aprofundada e precisa das situações sociais em relação às quais essas experiências tiveram lugar. (Levy, 2001, p. 89-90)

Cabe destacar também a importância que observamos nos relatos de determinados momentos particularmente importantes na vida dos entrevistados. Referimo-nos ao que nas abordagens biográficas é conhecido como acontecimento (événement, em francês). Legrand (1993) confere ao “acontecimento” o status de categoria biográfica, em contraposição a outras categorias não biográficas – como habitus e capital, por exemplo. O acontecimento é aquele momento, possivelmente inesperado e surpreendente, que provoca algum sentimento particularmente importante no sujeito e/ou que muda o curso provável de determinada história. De acordo com Roger Bastide é o acontecimento que quebra a “monotonia do cotidiano, que se destaca no acinzentado uniformizante” (Bastide, 1968, p. 822 apud Legrand, 1993, p. 131).

Nas narrativas, os acontecimentos exercem importante papel de transformação, mas eles “acontecem” porque existe uma estrutura social que permite esse acontecimento – mesmo que haja estruturas sociais que ajam na direção contrária – e também são frutos de ações humanas. Os acontecimentos ocorrem em uma mistura de acaso e de necessidade, ou seja, são ao mesmo tempo frutos da determinação e da indeterminação do social. E se eles são relatados pelos narradores de determinada história, é porque provocaram não apenas transformações em geral, mas porque possuem um significado particular para aqueles sujeitos.

Benzer Belgeler