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Já era tempo de todo o movimento musical alternativo do universo das denominações mais antigas ganhar centros de legitimação, ou seja, locais onde esse gosto pudesse ser celebrado como prática cultural oficial. Muito rapidamente grandes transformações começam a acontecer no campo religioso brasileiro. Cada vez mais, o espaço de culto passa a ser visto como espaço calcado na relação palco/auditório e o culto passa a ser visto como show. Mais impactante do que isso, é o estabelecimento de um ambiente competitivo entre as comunidades que passam a procurar oferecer o melhor show para atrair o maior número possível de fiéis. O grande crescimento inicial da Igreja Renascer em Cristo, por exemplo,

não é exatamente um crescimento advindo da evangelização, mas, sim, do proselitismo. A força atrativa da igreja reside na música gospel.

Gospel – evangelho em português - é um termo muito antigo no meio musical, ligado à música dos negros norte-americanos e muito característico das igrejas pentecostais. Ele se referia a um repertório repetitivo, extático e empolgante, usualmente cantado como um responsório entre solista e coro, no qual se esperava uma postura improvisatória do solista. Provavelmente a composição gospel mais conhecida no mundo todo seja O Happy Day. No entanto, ao falar da cultura gospel a partir da década de 1990, estamos usando o termo em uma acepção completamente diferente. Gospel tem agora um alcance muito maior, abrangendo uma grande diversidade de produção musical. Segundo Jacqueline Dolghie:

As revistas especializadas entendem por música gospel composições evangélicas – no sentido específico da letra – dos mais variados estilos musicais, tais como rock, reaggae, funk, rap, samba, axé, pagode, balada, sertanejo e assim por diante. Especificamente, o uso do nome “gospel” foi popularizado na década de 90 e teve relação direta com o surgimento e a atuação da Igreja Apostólica Renascer em Cristo (Renascer) (...). A Renascer patenteou a marca no Brasil e criou um contingente de produtos gospel: Gospel Records, Revista Gospel, TV Gospel e outros. A atuação desta igreja foi muito importante para a constituição de um mercado fonográfico brasileiro que abrangesse a juventude evangélica. O mercado firmou-se definitivamente no país, e aqui encontramos a caracterização da música gospel que é exatamente a sua concepção mercadológica. Assumimos o pressuposto de que a música gospel é uma produção do protestantismo e do neopentecostalismo, cuja característica distintiva está na relação intrínseca com o mercado. (DOLGHIE, 2007:195-6)

Tal relação de mercado traria uma grande novidade para a vida das igrejas evangélicas brasileiras durante a década de 1990: a formatação de uma Indústria Musical. Após a Renascer abrir uma série de canais de comunicação, outras igrejas começaram a sentir a necessidade de manter programas de rádio e TV. Outra corrida que rapidamente se instalou foi a de produção de novos bens para o mercado, começando com a produção de CDs e, alguns anos depois, DVDs. Não demoraria para que surgissem grandes eventos incluindo megashows gospel em ginásios e a Marcha Para Jesus, cuja primeira edição aconteceria em 1993. Todo esse projeto, tendo a Renascer como centro, instalou um ambiente profissional de marketing e planejamento no campo religioso, altamente calcado na manipulação de bens simbólicos ligados à música. A importância dessa mídia é ressaltada por Magali Cunha:

A mídia evangélica passou a desempenhar papel central como mediadora no processo de identificação com a sociedade de consumo. Os grupos que a controlam elegeram o mercado fonográfico como o espaço privilegiado para conquista dos fiéis, copiando modelos seculares de apelo popular e transpondo-os à cultura evangélica. Os evangélicos passaram a ocupar mais espaço no rádio e na TV (adquirindo até mesmo redes de TV) e

os programas passaram por uma transformação, ancorados pelo mercado fonográfico. (CUNHA, 2002:18)

O canto coral, naturalmente excluído do modelo dessa indústria por sua música complexa, por seus poucos atrativos estéticos26 e pela sua forte ligação com a tradição, agora sim sofreria uma pesada concorrência e os seus moldes se veriam frontalmente atacados pelos advogados do uso da estética gospel nos cultos das igrejas locais. Se o coro protestante brasileiro, na visão de Mendonça, já ocupava um lugar deturpado na liturgia ao não cumprir um papel de comentarista dos momentos litúrgicos e ao insistir em trazer um repertório pietista, o problema tornou-se agora muito mais agudo já que a música pietista achava no gospel traços hegemônicos de muito maior apelo mercadológico, no qual o coro ficou sem um lugar para ocupar. Fatareli ressalta o traço pietista comum a todo esse repertório alegando que

Muito do que é produzido no Brasil nas composições atuais, seja dentro do protestantismo de imigração ou de origem missionária ou ainda proveniente de ambiente pentecostal ou neopentecostal, tem, ainda, fortes vínculos com os hinos do século XIX, especialmente no que diz respeito ao caráter individualista e intimista das canções. Pode- se concluir esse fato pelo vasto número de composições que continuam sendo elaboradas utilizando a primeira pessoal do singular. A razão disso deve-se, em grande parte, não só à influência da teologia presente no primeiro hinário feito no Brasil, como também à constante influência das versões para o português de canções norte-americanas que aqui são gravadas e difundidas. (FATARELI, 2008:137)

Dentro do protestantismo histórico, as igrejas se renderiam à nova liturgia proposta pela Renascer. O antigo momento de louvor passaria a ser o fio condutor da liturgia, tornando-se um show de 60 minutos ou mais completamente conduzido pela equipe de ministração de cânticos das igrejas, ao qual se seguiria o sermão, geralmente de caráter evangelístico. Ao sermão, seguia-se um apelo que, ao menos sonoramente, era também conduzido pelo grupo de louvor. Essa nova estética, ao destruir o que poderíamos chamar de liturgia dividida em partes como adoração, confissão, louvor, edificação, etc., tornou a participação do coro um problema litúrgico. Acreditamos que, também nesse momento, existe uma mudança radical no gosto musical do campo, que favorece as manifestações que melhor se adaptam à pós-modernidade e à cultura do espetáculo. O show gospel como liturgia é assim descrito por Cunha:

26 Sobre a importância da beleza na cultura gospel ver SILVA, João Marcos da. “As feias (e os feios) que

me desculpem, mas beleza é fundamental”: o uso contemporâneo da imagem e sua influência na mudança dos paradigmas estéticos utilizados na música “gospel” no Brasil. Dissertação de Mestrado. São Bernardo do Campo: UMESP, 2010

Passa-se a adotar nas igrejas um modo de expressão cultural próprio da urbanidade: o show. Os cultos passam a privilegiar o espaço da apresentação e da animação de auditório com técnicas que rechaçam a expressão comunitária, o improviso e a espontaneidade. Impõe-se um padrão: as mesmas canções são cantadas/exibidas (as disseminadas pelas rádios e pelos shows evangélicos), os mesmos gestos são expressos, as mesmas palavras são pronunciadas, as mesmas ênfases são oferecidas, nas igrejas de diferentes tradições evangélicas, de diferentes classes sociais, de diferentes regiões de uma cidade ou do país (a “unanimidade não planejada” já é uma característica do protestantismo brasileiro desde os seus primórdios). (CUNHA, 2002:19)

Assim, as grandes molas propulsoras do mercado de bens simbólicos relacionado ao fazer musical nas igrejas protestantes do Brasil tornam-se diretamente ligadas ao marketing e à concorrência nos moldes do mercado gospel. A Renascer deixa de agir somente como igreja e alcança o posto de uma verdadeira empresa cultural que ocupa um lugar recém- criado no campo cultural religioso do país: o de um campo de difusão. A pressão sobre as demais denominações já não se concentra mais na simples produção de bens simbólicos, até porque vários dos grupos musicais atuantes nas denominações mais tradicionais migram para a Igreja Apostólica Renascer em Cristo ou, pelo menos, são distribuídos e representados pela Gospel Records. Devido ao furacão avassalador representado pela Renascer, as igrejas se veem constrangidas a redefinir suas ações de difusão. Mais e mais atividades das mais variadas denominações passam a ser abertamente mercadológicas com o crescimento do número de estações de TV e de rádio, de editoras e gravadoras, de revistas e websites, de astros e estrelas.

Hoje, o mercado gospel é, sem sombra de dúvidas, o maior mercado musical do Brasil e parece ser o mercado que melhor se preserva dos estragos causados pela pirataria. Uma das maiores estrelas do gospel brasileiro, Aline Barros, coleciona cinco prêmios Grammy Latino e tem uma carreira internacional. O feito mais recente da indústria gospel, finalmente vencendo o preconceito do mercado musical secular, foi alcançado pela Igreja Batista da Lagoinha em finais da década de 2000, ao conseguir distribuir seus produtos pela Som Livre, gravadora do maior conglomerado do mercado de bens simbólicos do Brasil: a Rede Globo. Nessa empreitada, os astros da Batista da Lagoinha já estavam sendo precedidos pelos padres cantores da Renovação Carismática Católica, principalmente o padre Marcelo Rossi, um fenômeno de mídia no Brasil desde seu primeiro disco, lançado em 1998. Em trabalho sobre a Igreja Batista da Lagoinha, Reinaldo Arruda Pereira ressalta a visão estratégica de marketing do seu ministério musical – Ministério Diante do Trono – que, em um intervalo de 13 anos, lançou 25 CDs variados no mercado ressaltando que

Uma igreja para produzir vários álbuns musicais ou CDs por ano tem de estar o tempo todo dialogando com o mercado. Ela, com seus cantores, se apresenta como uma organização versátil e muito atenta aos interesses de seus seguidores. Numa outra visada, significa que a Igreja Batista da Lagoinha está anualmente entrando em evidência na cultura musical gospel e que fez, no campo musical uma descoberta interessante: o inédito é o que disputa mercado. (PEREIRA, 2011:288)

O mercado gospel, por fim, apesar de ter se iniciado com as ações da Renascer, se mostrou maior que aquela instituição que, após os escândalos de evasão de divisas e da prisão de seus líderes nos EUA em 2007, sofreu uma grande retração. A lógica do uso do marketing achou novos adeptos e, hoje, uma plêiade de denominações, grupos e empresas concorrem diretamente dentro do campo da música gospel. O espectro dessas instituições é amplo e inclui igrejas neopentecostais como Igreja Mundial do Poder de Deus, Igreja Universal do Reino de Deus e Igreja Internacional da Graça; igrejas ligadas de alguma forma ao protestantismo histórico – a Igreja Batista da Lagoinha é o exemplo máximo; comunidades pentecostais como Comunidade da Graça; e empresas alternativas de face mais moderna como o Movimento Vineyard.

É interessante ressaltar que algumas denominações optaram por competir no mercado com todo o peso institucional possível, apresentando-se com seu nome claramente exposto. Esse é o caso das já citadas Igreja Batista da Lagoinha e Igreja Internacional da Graça, mas, também da Igreja Adventista do Sétimo Dia que mantém um canal de televisão 24 horas no ar, gravadoras e editoras e da Igreja do Evangelho Quadrangular que também mantém uma editora e gravadora ativas. Em contraposição, alguns artistas do mercado gospel – talvez a maioria – preferem manter discrição quanto à sua filiação denominacional. Aline Barros, por exemplo, não costuma divulgar o nome de sua igreja nos seus produtos lançados no mercado.

Independentemente da forma como o marketing é conduzido, o que nos interessa perceber é que a influência do mercado Gospel é tão grande no campo protestante brasileiro deste século XXI, que a caracterização do campo como “mercado” deixou de ser privilégio dos estudiosos e críticos. Hoje, o próprio campo de consumo, formado pelos crentes e fieis que frequentam igrejas cristãs as mais diversas e que consomem os produtos culturais advindos dos campos de produção, independentemente das linhas de consumo que adotam, já assimilaram o termo e a designação do meio de produção e consumo de bens simbólicos no protestantismo brasileiro como “mercado” já se tornou hegemônica.

Benzer Belgeler