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O banco de dados sobre o qual nos debruçamos apresentou um grande número de variáveis, entretanto, por ter sido originado a partir dos prontuários médicos, há muitas lacunas, mas isso não compromete os resultados de nossa investigação, pois consideramos somente os dados presentes para a análise dos aspectos qualitativos.

Em nossa análise privilegiamos o teste dos agrupamentos CID F10-19 (Transtornos mentais e comportamentais devido ao uso de substâncias psicoativas), CID F30-39 (Transtornos do humor/afetivos) e CID F40-48 (Transtornos neuróticos, transtornos relacionados ao estresse e transtornos somatoformes), conforme o Código Internacional de Doenças (CID–10).

Nosso interesse em investigar se há associação entre a ocupação profissional e os transtornos somatoformes, surgiu a partir das indagações de Le Guillant (2006) a respeito da influência dos conflitos decorrentes da relação homem-meio social sobre a eclosão de transtornos psicossomáticos. Esse autor se interessava em demonstrar, de forma efetiva, como se dá a relação entre o meio em que sujeito vivia e a sua atividade psicofisiológica, pois considerava não haver uma rígida separação entre o psiquismo e a fisiologia humana.

Conforme o CID-10, os transtornos somatoformes (F45) caracterizam-se pela presença repetida de sintomas físicos, múltiplos, recorrentes e com duração variável no tempo, apesar de não se encontrarem uma base orgânica que justifique sua presença, sugerindo origem psicogênica. Nesse agrupamento encontramos também os transtornos de somatização (F45. 0), geralmente associados a uma alteração do comportamento social, interpessoal e familiar do sujeito.

Ressaltamos ainda que, entre os distúrbios que fazem parte do agrupamento CID F40-48, encontramos os transtornos de despersonalização (F48.1) que, conforme Codo (2002), estão entre os principais fatores que caracterizam a síndrome de burnout9.

Além disso, na análise epidemiológica dos prontuários de pacientes das clínicas e hospitais psiquiátricos de Barbacena, realizada por Lima (2004) foram identificados, entre os principais diagnósticos encontrados, os transtornos mentais relacionados ao uso do álcool e os transtornos de humor. Como nossa proposta consiste também em dar prosseguimento a essa investigação, justifica-se o nosso interesse em verificar como se apresentavam essas variáveis na nossa amostra.

Desse modo, ainda na primeira etapa de nosso estudo - que consistiu da análise do banco de dados com o objetivo de identificarmos as ocupações que apresentassem maiores chances de diagnósticos em distúrbios mentais, foram calculadas as chances para a ocorrência dos distúrbios relacionados ao uso de substâncias psicoativas (CID 10 a 19), aos distúrbios de humor (CID F 30 a 39) e aos transtornos somatoformes (CID 40 a 48). Comparando os indivíduos de uma dada ocupação com todos os demais indivíduos da amostra, tentamos identificar se pertencer à profissão considerada poderia revelar alguma relação com os diagnósticos identificados nos prontuários, conforme o Código Internacional de Doenças (CID -10).

Observamos que 82,1% (23 professores) apresentaram diagnósticos pertencentes ao agrupamento CID F30-39 e 28,6% (8 professores) apresentaram diagnósticos do agrupamento CID F40-49, reforçando o nosso interesse em estudar essa categoria profissional.

9Codo (2002) considera a síndrome de burnout como um transtorno mental caracterizado por uma atitude de

Tabela 1 - Percentual de pacientes com diagnóstico por agrupamento conforme o CID 10 e por ocupação

F10-F19 F30-F39 F40-F49 APOSENTADO 0,0% 33,3% 0,0% ARTISTA 62,5% 37,5% 12,5% AUTÔNOMO 29,4% 52,9% 23,5% COBRADOR DE TRANSPORTE URBANO 0,0% 66,7% 0,0% COMÉRCIO 48,8% 53,5% 7,0% CONSTRUÇÃO CIVIL 71,4% 23,8% 9,5% EMPRESÁRIO 53,3% 40,0% 16,7% ESCRITURÁRIO 22,6% 41,9% 19,4% ESTUDANTE 20,0% 80,0% 0,0% INFORMÁTICA 28,6% 28,6% 28,6% MECÂNICO 41,7% 16,7% 16,7% METALÚRGICO 50,0% 44,4% 33,3% MOTORISTA 51,6% 25,8% 3,2% NR 0,0% 0,0% 0,0% OUTROS 40,6% 34,4% 9,4% PROFESSOR 10,7% 82,1% 28,6% SEGURANÇA 20,0% 60,0% 20,0% SERVIÇOS GERAIS 41,2% 5,9% 5,9% SERVIDOR MILITAR 50,4% 46,9% 22,1% SERVIDOR PÚBLICO 36,4% 45,5% 0,0% SUPERIOR DE HUMANAS 27,3% 81,8% 0,0% SUPERIOR DE SAÚDE 45,8% 58,3% 8,3% SUPERIOR EXATAS 37,5% 56,3% 6,3% TÉCNICO DE SAÚDE 36,4% 27,3% 27,3% TRABALHADOR RURAL 35,7% 28,6% 0,0% Total 41,9% 44,2% 14,7% Grupos de CID10 Ocupação

Ao realizarmos o teste qui-quadrado10 para a ocupação exercida e o CID F 30 a 39 verificamos que há associação entre essas variáveis, com p-valor indicando diferença

10 O teste qui-quadrado é um teste de hipóteses que se destina a comparar o valor da dispersão para duas

variáveis qualitativas, avaliando a associação existente entre elas. Busca-se comparar as possíveis divergências entre as freqüências observadas e as freqüências esperadas para certo evento. Como hipótese a ser testada, temos que a hipótese nula é: as freqüências observadas não diferem das freqüências esperadas, ou seja, não existe associação entre os grupos. A hipótese alternativa é: as freqüências observadas diferem das freqüências esperadas, portanto existe diferença entre elas, ou seja, há associação entre os grupos. Pode-se dizer que dois grupos se comportam de forma semelhante se as diferenças entre as freqüências observadas e as esperadas em cada categoria forem muito pequenas, ou seja, próximas à zero.

significativa entre a frequência observada e a frequência esperada (p<0,001). Desse modo, calculamos o risco relativo11 (RR), comparando os professores com cada uma das outras categorias profissionais da amostra, a fim de identificar se o exercício da profissão tem relação com os diagnósticos do agrupamento CID F30-39. Os resultados do cálculo do risco relativo mostraram que os professores têm 77,17% de chances a mais de apresentar distúrbios com CID F 30 a 39 (transtornos de humor/afetivos) do que as outras categorias profissionais da amostra do HEAL.

Além disso, o teste qui-quadrado para ocupação e o CID F 40 a 49 revelou que também existe associação entre essas variáveis, com p-valor indicando diferença significativa entre a frequência observada e a frequência esperada (p<0,049). Desse modo, a partir do cálculo do risco relativo, observamos que os docentes apresentam 87,63% de chances a mais de serem diagnosticados com distúrbios que compõem o agrupamento CID F40 a 48 (transtornos neuróticos, transtornos relacionados com o estresse e transtornos somatoformes). Vale ressaltar que, na amostra estudada, os professores não aparecem entre os profissonais que teriam chance significativa para os transtornos relacionados ao uso de substâncias psicoativas (CID F 10 a 19), apesar do teste de hipóteses ter revelado que existe associação entre as variáveis ocupação e CID 10 a 19 (p<0,003).

Os prontuários analisados também contêm informações a respeito dos principais sintomas apresentados pelos pacientes. Alguns desses sintomas podem ser destacados uma vez que são mais presentes em determinadas categorias profissionais.

Como nosso objetivo, nesse estudo, é conhecer o trabalho do professor, ressaltamos os sintomas cuja frequência é igual ou maior que 10% na amostra da categoria dos professores.

Verificamos, após análise do banco de dados, que 100% dos docentes de nossa amostra apresentaram sintomatologia de atenção dispersa, sugerindo indícios de alterações qualitativas na atividade mental dos sujeitos. Esses resultados também reforçam as evidências do caráter patogênico do trabalho em docência, conforme podemos verificar no quadro a seguir.

11Medida de associação que se baseia na observação de que nem todos os sujeitos têm a mesma probabilidade (risco)

de sofrer um dano e que para alguns, esta probabilidade é maior do que para outros. Desse modo, permite também avaliarmos a chance de risco para um dado dano nos indivíduos expostos ao fator de risco, comparado com os que não estão expostos a ele.

QUADRO 2

Frequência dos sintomas na amostra

Sintoma Frequencia Alterações de humor 10,13% Ansiedade 22,20% Atenção dispersa 100,00% Atos compulsivos 16,67% Delírios de grandeza 11,76% Desadaptado sócio-afetivo- emocional 12,50% Desmaios 18,18% Desorientado emocionalmente 10,00% Despersonalização 14,29% Discurso acelerado 22,22% Discurso pobre 16,67% Hipotimia 33,33% Impaciência 16,67% Impulsividade 10,00% Incoerente 25% Insegurança 33,33% Libido exacerbada 12,50% Idéias negativas 11,11% Pensamento acelerado 16,67% Pensamento lentificado 20% Poliqueixoso 33,33% Prolixo 50% Quadro psicotiforme 14,29% Repetitivo 25,00% Sentimentos de culpa 11,11% Timidez 14,29% Traços neuróticos 11,11%

Fonte: MOTA, V.M.C. & LIMA, M.E.A.

Além dos resultados dessa análise quantitativa, outro fator também reforçou nosso interesse a respeito do trabalho em docência e suas relações com a saúde do professor. Conforme já dissemos, ao mesmo tempo em que trabalhávamos com os dados do HEAL, colhemos o relato de uma professora – por meio da realização de entrevistas em profundidade – com o objetivo de elaboração de um trabalho de finalização de uma disciplina do mestrado. Tratava-se do caso de uma professora

acometida por uma grave disfonia12 que, evidentemente, causava muitas dificuldades em sua vida profissional e pessoal. A aposentadoria precoce foi a única saída para essa professora, pois nem mesmo o desvio de função, ou seja, sua transferência para a biblioteca, foi suficiente para suprimir os sintomas. Apresentamos a seguir o seu caso clínico com o objetivo de reforçar a justificativa pelo nosso interesse em aprofundarmos o conhecimento sobre os possíveis nexos entre o trabalho docente e o adoecimento mental do professor.

Benzer Belgeler