breve discussão sobre o controle democrático do poder político frente ao poder econômico.
1.1.3. O Controle Democrático do Poder Político frente à Economia.
Como o Estado Democrático de Direito tem como fim a realização da justiça material e a plena concretização dos direitos humanos mediante uma transformação estrutural da sociedade, o controle democrático do poder político deve abranger as decisões da esfera econômica68.
Isso não era aceito no modelo do Estado Liberal, visto que os fundadores da Ciência Econômica, no início do século XVIII, defendiam a não interferência da política no âmbito da economia, pois esta seria regida por “leis naturais”, cabendo ao Estado, exclusivamente, a garantia da ordem pública (COMPARATO, 2006, p. 583). De maneira semelhante, os teóricos neoliberais da segunda metade do século XX defenderam o estabelecimento de limites para a democracia a fim de garantir que a esfera econômica ficasse livre de controle político (PIERSON, 1993, p. 180 – 181).
A liberdade da esfera econômica frente ao controle político interessa somente à classe dominante e esvazia o conteúdo da democracia, protegendo os interesses dos proprietários de capital privado e excluindo a maioria dos processos decisórios e da apropriação das riquezas69. Primeiramente, porque o poder econômico concentrado e livre de controles direciona a ação do Estado em função de seus interesses, por meio de sua influência sobre os governantes eleitos, o que por si só já afronta a lógica da democracia, segundo a qual o Estado deve se submeter à soberania popular70. Em segundo lugar, o
68 Dahl (1990, p. 73) afirma que, inclusive, a melhor ordem econômica contribuiria para a realização dos
ideais democráticos, mediante “uma distribuição de recursos políticos favorável às metas de igualdade no voto, participação efetiva, entendimento esclarecido e controle final da agenda política por todos os adultos sujeitos às leis”.
69 Santos (2000, p. 122) assevera que “a separação entre o político e o económico permitiu, por um lado, a
naturalização da exploração económica capitalista, e, por outro, a neutralização do potencial revolucionário da política liberal, dois processos que convergiram para a consolidação do modelo capitalista das relações sociais”.
70 Grau (2008, p. 59 – 65; 125 – 128; 136) afirma que o direito é um “instrumento de mudança social”, pois,
embora seja um produto da estrutura econômica, nela interfere produzindo alterações, ou seja, há um direito
pressuposto que condiciona a elaboração do direito posto, mas é modificado por este. Assim sendo, “o modo
de produção capitalista, modo de produção essencialmente jurídico, reclama por um direito posto, construído sobre o seu direito pressuposto”. Tal direito atua na constituição e na preservação do modo de produção capitalista, por meio das regras que garantem o funcionamento do mercado, o complementam, substituem diante de situações de riscos e compensam suas disfunções, a fim de evitar, por exemplo, reações da classe operária diante das mazelas por ela enfrentadas. Portanto, o Estado atua tanto na organização dos “processos que fluem segundo as regras de economia de mercado”, como os influencia a fim de alcançar determinados objetivos sociais. Entretanto, mesmo quando intervém na economia, o Estado se revela “essencialmente
mercado livre do controle político democrático é um fator multiplicador de injustiças, o que contraria o objetivo do Estado Democrático de Direito de fazer justiça material. Em terceiro lugar, a concretização dos direitos humanos (fim primordial do Estado), especialmente os econômicos e sociais, depende da maneira como são alocados os recursos materiais; assim sendo, de que vale a democracia no Estado se o controle democrático do poder político não abranger a esfera econômica?71
Inclusive, segundo Bobbio, no prefácio de Lafer à sua obra (BOBBIO, 1998, p. 23), “o problema do desenvolvimento da democracia no mundo contemporâneo não é apenas quem vota, mas onde se vota e se delibera coletivamente, pois é no controle democrático do poder econômico que, segundo ele, se vencerá ou se perderá a batalha pela democracia socialista”.
Entretanto, as alternativas72 socialista e social-democrata falharam, não só pela ineficiência, como também pela incapacidade de criar um modelo satisfatório de controle democrático da economia, já que promoveram a concentração do poder nas mãos dos burocratas e não do povo. Além disso, com a intensificação da globalização da
capitalista”. Desta maneira, o capitalismo não requer o afastamento do Estado dos mercados, mas sua atuação reguladora a fim de assegurar sua preservação.
71 Nesse sentido, ver as análises feitas por Pierson (1993, p. 181 – 182; p. 188) sobre as críticas dos
socialistas e sociais democratas, e de Faria (1982, p. 147) sobre a crítica de Macpherson aos modelos de democracia liberal.
72 Menciona-se também o modelo do socialismo de mercado, o qual procurou combinar princípios de
propriedade coletiva com a continuidade da alocação de recursos por meio do mercado. Propõe-se a eliminação das grandes corporações privadas, substituindo-as por cooperativas de trabalhadores dirigidas a partir de uma democracia interna. Entretanto, trata-se de uma forma limitada de democratização, pois há democracia dentro da empresa, mas não entre as empresas, onde permanece a competição de mercado. Além disso, ele promete melhorias para os que já estão empregados, mas não apresenta caminhos para incluir aqueles que estão desempregados. Por fim, há a promessa de controle democrático sobre decisões econômicas em uma pequena esfera, mas não sobre a economia como um todo, pois os governos continuam sendo representativos e muitas decisões nas grandes empresas dirigidas por trabalhadores continuam restritas a administradores profissionais (PIERSON, 1993, p. 185 – 189). Proposta semelhante é defendida por Dahl (1990, p. 74 – 88), o qual propõe uma ordem econômica que apresenta como metas: justiça na distribuição e eficiência na utilização dos escassos; estimular a responsabilidade e a honestidade pessoal; bem como permitir a expansão da liberdade para adquirir os recursos econômicos necessários para uma vida boa. Tais metas seriam incompatíveis com o socialismo burocrático, pois objetivam a dispersão do poder, e não sua concentração, o que não dispensa o controle centralizado de alguns aspectos importantes da economia. Numerosas decisões importantes deveriam ser descentralizadas entre empresas relativamente autônomas, que funcionariam dentro de limites estabelecidos por um sistema de mercados e normas democraticamente instituídas para orientar o caminho até os objetivos estabelecidos. Para operacionalizar tal ordem econômica, o autor propõe “um sistema de empresas econômicas coletivamente possuídas e democraticamente geridas por todas as pessoas que para elas trabalham”, assegurando-se a todos os empregados a igualdade do direito de voto. O autor saliente que as empresas autogeridas apresentam vantagens tanto em relação às sociedades anônimas como em relação às empresas estatais. Nesse sistema, poderia haver diferenças salariais entre os empregados das empresas autogeridas, porém, tal diferença deve ser pequena e seu superávit deveria ser dividido igualmente entre todos. Alguns mecanismos corretivos da desigualdade entre as empresas poderiam ser adotados, como os de política fiscal. Por fim, o autor salienta que a igualdade da cidadania nas empresas “reduziria em muito as relações conflitivas dentro das firmas e, indiretamente, na sociedade e na política em geral”.
interdependência das economias nacionais, reduziu-se drasticamente a capacidade de intervenção do Estado por meio dos instrumentos de política econômica (PIERSON, 1993, p. 182 – 185).
As falhas dos modelos alternativos ao modelo liberal não afastam a necessidade de controle democrático sobre a economia, ainda mais diante das consequências para o meio ambiente, da situação de miséria em que vive grande parcela da humanidade e da radical desigualdade na distribuição das riquezas decorrentes dos atuais níveis de concentração e descontrole73 do poder econômico74.
Além disso, o mercado não se organiza em função das preferências do consumidor, mas sim dos detentores do poder econômico,75 revelando-se cada vez mais incapaz de promover sua auto-regulação, com sucessivas crises econômico-financeiras, o que reforça a necessidade de controle democrático sobre a economia76.
Diante disso, como assinala Gianotti (2009, p. 6), “o desafio não é encontrar novos mecanismos de mercado, mais sadios e consistentes, mas instituir órgãos reguladores do funcionamento dos vários mercados capazes de legitimar seu funcionamento, isto é, assegurar que funcionem em vista do bem-estar e do bem-ser da população”.
73Rossi (2008, A2) aponta que “os mercados financeiros ganharam tal autonomia que, apesar de o Estado ter
crescido muito ele tornou-se impotente, reduzindo-se a ação dos políticos a somente contar histórias”. A propósito, Bello e Silva (2007, p. 9) salienta que “a subordinação da política ao mercado e a era da indeterminação expressam o predomínio da pequena política (mera disputa pelo poder sem haver confronto entre projetos hegemônicos distintos) e o simultâneo enfraquecimento da sociedade civil (enquanto campo de disputa por hegemonia) e da sociedade política (poder do aparato coercitivo do Estado, nesse caso frente aos capitais)”.
74 A seguinte análise de Comparato (2005, p. 553) é fundamental para a compreensão do fenômeno do poder
econômico: “na concepção tradicional, o mercado é tecnicamente organizado em função do consumidor, cujas decisões fundamentam, em última análise, a correspondência entre ofertas e demandas, num regime de produção essencialmente concorrencial. A situação de monopólio é considerada excepcional e combatida como autêntica aberração. Hoje, reconhece-se que o mercado de bens, de serviços e de força-trabalho é formado pelas decisões do conjunto de empresas dotadas de poder econômico, ao qual se submetem todas as demais unidades, pequenas ou médias. As relações que se estabelecem entre esses setores, o nuclear e o periférico, são em tudo análogas ao relacionamento entre países desenvolvidos e subdesenvolvidos. O poder econômico, portanto, é a regra e não exceção. Ora, a finalidade última desse poder, do qual todos nós dependemos, não pode ser apenas nem prioritariamente, a produção e a partilha de lucros entre proprietários ou capitalistas; não deve ser, tampouco, assegurar ao empresário um nível de elevada retribuição econômica e social. O poder econômico é uma função social, a serviço da coletividade”.
75 Analogamente, ocorre essa situação com relação ao poder político: é ingenuidade acreditar, comparando-se
os cidadãos com os consumidores, que são suas decisões e preferências que determinam os rumos do Estado. Diante do poder da mídia, da ideologia dominante, e de todos os recursos empregados nas milionárias campanhas eleitorais, bem como nas campanhas publicitárias oficiais, evidencia-se que as preferências dos eleitores são, em geral, dirigidas por aqueles que detêm o poder econômico e o poder político de fato; até mesmo as opiniões sobre prioridades administrativas e os rumos do país muitas vezes acabam sendo construídas artificialmente. Assim sendo, nem mesmo nos momentos eleitorais o povo é verdadeiramente livre quando não há democracia plena.
Porém, trata-se de um impasse difícil de ser resolvido, tanto por sua complexidade como pelo fato apontado por Comparato (2006, p. 653) de que
o capitalismo é radicalmente contra toda e qualquer experiência de democracia autêntica, dentro ou fora da empresa, uma vez que ela implica atribuição do poder de controle, por igual, ao conjunto dos integrantes da empresa – capitalistas e trabalhadores –, ao conjunto dos consumidores no mercado, ou ao corpo de cidadãos que formam o povo soberano.
Como a atuação transformadora do Estado no domínio econômico implica um confronto com o regime capitalista de produção, não será fácil realizá-la plenamente enquanto os interesses políticos dominantes permanecerem “identificados com o status
quo”, ou seja, enquanto o poder político continuar preso aos grupos mais poderosos da
classe dominante que querem conservar a situação vigente. Deve-se reconhecer, portanto, que não há neutralidade na atuação do Estado na esfera econômica, pois as alternativas disponíveis são, mutuamente, excludentes, o que gera conflitos entre classes e grupos sociais antagônicos (IANNI, 1989, p. 170; 178 – 179).
Apesar de todas essas dificuldades, conserva-se a crença no controle democrático sobre a economia77, pois o poder político apresenta como características distintivas: não se subordinar juridicamente a nenhuma outra forma de poder e ser exercido na “esfera global da sociedade política, que é a mais abrangente de todas”, de maneira que se sobrepõe a todas as outras formas de poder (COMPARATO, 2006, p. 592).
Assim sendo, é necessário, segundo Comparato (2006, p. 583), intensificar “um movimento de progressiva defesa dos direitos humanos, e de combate ao abuso de poder, não só político, mas também econômico e religioso” que teve início ainda no final do século XVII.
Faz-se necessário, como assinalam Martin e Schumann (1997, p. 325), a “restauração do primado da política sobre a economia”.
Salomão Filho (In: COMPARATO, 2005, p. 11 – 12; p. 14 – 18; p. 22) também
defende o combate ao poder econômico, porque ele é incompatível com a justiça social e responsável pela concentração de renda. Para tanto, propõe: a diluição acionária, a qual, segundo ele, é vantajosa tanto para a empresa como para o mercado de capitais; a intervenção nas estruturas que concentram poder, especialmente devido ao seu potencial criador e distribuidor de conhecimento, a partir do que é capaz, inclusive, de criar gostos nos consumidores e estruturar a sociedade “em torno de dois grupos bastante distintos: os
77 Um exemplo de combate ao abuso do poder econômico é a criação de normas que prevejam a sanção de
perda do direito ao controle da companhia do seu titular que, independentemente de demonstração de desonestidade, não dirigir a empresa tendo em vista sua função social (COMPARATO, 2005, p. 561).
consumistas e os excluídos”;78 e a criação de “determinantes estruturais” que estimulem os
indivíduos a um comportamento cooperativo, e não estratégico, visando apenas ao próprio benefício.