A literatura que trata da relação entre finanças, crescimento e desenvolvimento econômico tem sido capaz de apontar resultados importantes para o delineamento de potenciais consequências do mau funcionamento do sistema financeiro para a economia. Ao identificáBlo como elemento fundamental para o estabelecimento de relações econômicas e dos mecanismos de incentivos que as governam, boa parte dessas pesquisas buscam explicitar o papel preponderante exercido pelo sistema
Fatores associados à
demanda Acesso ou Uso Possíceis causas
Serciços afetados Crença de que os
bancos não foram feitos para pobres/baixa autoestima
acesso
(B) o setor financeiro tradicional não tem foco em clientes de baixa renda. Quando o procuram, não recebem tratamento adequado, sentindoBse discriminados. Transações bancárias, crédito e poupança Medo de perder o
controle financeiro acesso
(B) a baixa educação financeira associaBse à complexidade e o elevado preço dos produtos e serviços.
Transações bancárias e
crédito Falta de confiança no
sistema financeiro acesso (B) medo da quebra do sistema
Transações bancárias e poupança Preocupação com os
custos acesso
(B) os clientes temem que os custos possam ser muito alto ou, até mesmo, não totalmente informados
Transações bancárias e
crédito Busca por outras
fontes (parentes, setor informal)
acesso
(B) a obtenção de serviços de maneira informal pode ser mais facilmente obtida. Porém, custos (e riscos) tendem a ser bastante elevados.
Transações bancárias, crédito e poupança Fatores culturais acesso (B) autoexclusão
Transações bancárias, crédito e poupança Religião acesso (B) autoexclusão
Transações bancárias, crédito e poupança Contrariedade quanto
ao uso acesso (B) autoexclusão Crédito
Más experiências no
passado acesso e uso (B) prejudicados por essa experiência, indivíduos se autoexcluem
Transações bancárias e
crédito Medo de confiscos acesso e uso (B) medo de que o banco se apodere de seu dinheiro
Transações bancárias e poupança
financeiro na definição da forma em que as pessoas efetivamente participarão do processo produtivo e de como a riqueza gerada será distribuída entre elas.
Um dos pontos importantes para as pesquisas que tratam da exclusão financeira é entender essas consequências para a sociedade, especialmente entre indivíduos e famílias, assumindo que a integração limitada de parte da população com instituições financeiras pode ser crucial para seu desenvolvimento pessoal, social e econômico.
De acordo com GLOUKOVIEZOFF (2004a), o movimento de expansão recente do setor bancário destacou o papel do setor financeiro como componente relevante para um amplo conjunto de relações sociais. Como resultado desse processo de “bancarização de massa”, as interações sociais modernas estariam, segundo o autor, especialmente sujeitas a um quadro de financeirização cada vez maior, criando, a partir dele, “fortes ligações de causalidade entre a exclusão bancária e a exclusão financeira” [GLOUKOVIEZOFF (2004a), p. 20]. Por essa razão, a avaliação do impacto do comportamento do sistema financeiro para a sociedade deve incluir, enquanto elemento fundamental da análise, a intensificação do uso de instrumentos financeiros na economia e sua relação com o cenário mais amplo de exclusão social.
Para BURCHARDT (2003), a exclusão social, por sua vez, deve ser entendida como a falta de participação na sociedade, observada sob várias dimensões. O primeiro ponto ressaltado pela autora, é a ponderação de que se trata de um conceito relativo, ou seja, que assume diferentes níveis em cada sociedade e que, por isso, encontra divergências sobre quais aspectos seriam mais importantes para sua incidência e, ainda, na atribuição de responsabilidades em sua superação.
Porém, ainda que possa ser considerada um fenômeno relativo entre diferentes grupos e regiões, BURCHARDT (2003) ressalta que três outras características devem ser observadas ao se analisar o problema da exclusão social: o seu caráter multidimensional, dinâmico e difuso.
A multidimensionalidade diz respeito ao amplo espectro subjacente à exclusão social, que avançaria para além de questões relacionadas ao nível de renda. Sendo assim, ainda que fortemente ligado à pobreza, deveBse ter em mente que o problema não se restringe a ela, mas, ao contrário, demandaria a incorporação de novos elementos na análise, como, por exemplo, características sociais, o desemprego e a baixa autoestima.
Quanto à sua dinâmica, a autora acredita que avaliações feitas por formuladores de política pública demandariam investigações das relações de causa e efeito entre exclusão social e financeira, a fim de apontar caminhos para a inclusão. Assim como
ela, LOISY (2000)6 afirma que a exclusão financeira é tanto causa quanto consequência
da exclusão social, de tal forma que entender a interação entre elas seria fundamental para compreender o problema:
In fact financial exclusion is both cause and effect of social exclusion defined as “all the mechanisms of breakdown, both in symbolic terms (stigma or negative attributes) and from the viewpoint of social relations (a break in the various social links which bind people together). Exclusion is both a process and a state which enshrines a lack of integration”. (LOISY, 2000, p. 42).
Por último, BURCHARDT (2003) ressalta que a exclusão financeira é um fenômeno que atinge vários níveis da sociedade, devendo ser avaliada não apenas em caráter individual, mas, essencialmente, tendo em vista contextos mais amplos, como familiar, comunitário e institucional.
Seguindo essa abordagem de interação entre exclusão financeira e social, é possível apreender, ainda, das análises de GLOUKOVIEZOFF (2007) e SERVET (2000) que a exclusão financeira deve ser delineada não em função dos mecanismos que a cria, mas a partir dos problemas sociais que ela acarreta.
Para SERVET (2000), haveria três principais consequências da exclusão financeira: a estigmatização, a exclusão e a marginalização econômica, cuja conceituação e implicações dependeriam da sociedade em questão e, de maneira ainda mais específica, do status individual.
A estimatização decorreria, em boa medida, da forte importância atribuída pela sociedade moderna à avaliação feita pelo sistema bancário de seus potenciais clientes. Por acreditar que instituições dessa natureza possuem uma maneira eficaz de identificar a real capacidade econômica de indivíduos e empresas, o mercado frequentemente se utilizaria do resultado dessa avaliação como uma aproximação fiel da capacidade empresarial e de gestão de seus demandantes. Com isso, a recusa por parte de sistema bancário em ter determinados indivíduos em sua carteira traria dificuldades ainda maiores a eles no estabelecimento de outras relações comerciais igualmente importantes como, por exemplo, a tentativa de alugar um imóvel ou de abrir uma empresa.
Sobre a exclusão, SERVET (2000) afirma que a rejeição de alguns segmentos da sociedade por instituições financeiras não possui, muitas vezes, fundamentos sólidos de avaliação de risco. Com isso, seja por falta de agências, capacitação técnica adequada ou interesse em atendêBlos, a recusa em aceitar determinados clientes poderia agravar uma situação de insegurança financeira já existente, uma vez que, recorrentemente, estes indivíduos possuem perfis sociais já bastante vulneráveis.
Por último, o autor chama atenção para o processo de marginalização econômica causado pela exclusão financeira entre indivíduos, cuja incidência dependeria de questões como o “local onde vive, sua situação patrimonial ou o nível de variação de seus fluxos de renda” [SERVET (2000), p. 26].
Há várias consequências desse processo de marginalização para a sociedade. Para SERVET (2000), viver em locais em que as pessoas têm acesso limitado ao setor financeiro, seja pela ausência de um número adequado de intermediários financeiros, seja pela recusa em fornecer produtos e serviços a clientes com perfis de risco, cria um
ambiente impróprio para que seus habitantes consigam pôr em prática seus projetos, limitando sua capacidade criativa e empreendedora.
Da mesma forma, BECK, DEMIRGÜÇBKUNT e LEVINE (2007) acreditam que, neste cenário, o desenvolvimento social seria altamente influenciado por atributos desconexos com a meritocracia, mas sim ligados à riqueza das famílias, seu status social e ligações políticas, alocando, dessa forma, trabalho e capital de forma menos eficiente.
Para eles, em uma economia com o sistema financeiramente desenvolvido, ao contrário, a inserção no processo produtivo dos agentes econômicos se daria, primordialmente, em função de suas habilidades individuais e iniciativas, de tal forma que os indivíduos mais eficientes e/ou mais preparados encontrariam os canais financeiros adequados para se inserirem no mercado de trabalho ou abrirem seu próprio negócio.
De acordo com os autores, melhoras nos contratos, no mercado e na intermediação financeira aumentariam as oportunidades econômicas para as pessoas pouco inseridas no sistema financeiro, podendo reduzir, dessa maneira, a desigualdade e melhorar a distribuição da renda. Com mudanças dessa ordem, podeBse elencar alguns efeitos diretos e indiretos no mercado como, por exemplo, o surgimento de novas firmas, o maior crescimento das já existentes e a absorção pelo mercado de trabalho de indivíduos de baixa renda, em função do crescimento econômico e da competitividade gerados.
Outro ponto importante recorrentemente citado como consequência do processo de marginalização econômica é a utilização, por parte dos excluídos, de produtos e serviços obtidos no mercado paralelo.
Negligenciados pelo sistema, boa parte das pessoas que buscam auxílio fora do mercado tradicional, incorrem, invariavelmente, em acordos firmados a elevados custos e condições injustas para fazer frente à suas necessidades financeiras. Com isso,
além de reduzir sua renda (e potencialidades econômicas), o mercado financeiro informal contribui para aumentar seu risco de sobreBendividamento, ou seja, de atingir um patamar de obrigações financeiras em que ele não será mais capaz de honrar seus débitos.
O resultado final desse processo é o aumento da fragilidade social dos usuários dos produtos sob estas condições, já que a forma cara e inadequada em que foram entregues pode se tornar um fardo pesado em caso de choques de renda ou alterações bruscas em seu status social. Para GLOUKOVIEZOFF (2007), esse fenômeno, conhecido como sobreBendividamento passivo, é de suma importância para entender o elevado potencial de desestabilização da exclusão financeira para aqueles que estão à margem do sistema, pois o problema não diz respeito à utilização de crédito de forma excessiva (vis-à-vis sua renda) por parte dos tomadores, mas sim de variações súbitas no nível de renda e/ou gastos a qual todas as pessoas estão sujeitas, como consequência do que ele chama de “acidentes da vida” (doenças, desemprego, separação, etc.).
Portanto, avaliada sob um contexto amplo, a integração fragmentada de indivíduos no sistema financeiro tradicional pode, claramente, acarretar e/ou agravar um cenário ainda maior de exclusão social. Por isso, seja pelas marcas atribuídas aos excluídos, como estigmas e baixa autoestima, seja pela marginalização econômica, podeBse dizer que uma melhor compreensão da relação entre exclusão financeira e social, nas sociedades modernas, é fundamental para o desenvolvimento pleno do potencial de pessoas, regiões e países.
2.4 Políticas de combate à exclusão: a importância da alfabetização